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As minhas investigações são sobre as narrativas dos sujeitos de pesquisa: os professores surdos na Educação Superior onde se envolvem e produzem nas relações de poder.

Esta pesquisa foi desenvolvida buscando identificar narrativas dos professores surdos após a transcrição feita pelos intérpretes, lendo e relendo várias vezes o texto de transcrição das narrativas com a finalidade de identificar seus relatos, sublinhei e escolhi aquelas que mais se aproximam do meu trabalho. Primorosos relatos carregados de elementos viáveis para a identificação e mapeamento das narrativas.

Para iniciar a abordagem das narrativas, inicialmente sublinhei o que me interessava. Dai agrupei por subtítulo, desta forma rascunhei o subtítulo ao lado da narrativa, na margem da página das entrevistas.

79 Ao sublinhar e identificar cada narrativa referente às temáticas abordadas nessa tese foi possível atuar numa vertente de produção de textos e realizar o estudo sobre a presença de narrativas focalizando a pesquisa que atendem ao novo conceito de relações de poder, nas resistências e nas resiliências surdas. Para tanto, busquei os referencias teóricos vinculados aos Estudos Foucaultianos, os demais estudos culturais e estudos surdos, assim, uma escolha na base argumentativa para identificação e mapeamento das narrativas.

Com a intenção de selecionar as ideias para o mapeamento fiz uma seleção de temas, a identificação das narrativas e o reconhecimento das mesmas me indicaram por onde pesquisar, referencial aos espaços de negociação. Este exercício de identificar narrativas fez com que eu encontrasse as chaves para o mapeamento da temática. Criei também uma série de subtítulos a fim de organizar as narrativas.

As escolhas dos subtítulos foram feitas na base argumentativa com elementos condizentes com as forças de poder, posicionamentos de resistências, cultura surda, rumo à resiliência e novas formas de pensar.

Para a identificação das narrativas, tomei por base os conceitos definidos como fundamentais sobre os professores surdos na Educação Superior, demonstrando as considerações a propósito dos professores surdos no contexto da instituição pública e das suas implicações para o profissionalismo desses professores.

Desse modo, a identificação bem produzida facilitou o mapeamento das narrativas e ofereceu as pistas para as questões que pretendia abordar. Desta forma tornou-se relativamente fácil construir as análises onde mapeio os embates nos espaços de negociação e interpreto o mapeamento com a posição, a forma e a dimensão em que estão inseridos os dados das narrativas, bem como possíveis conexões entre elas.

Ao usar a identificação das narrativas, compreendo o que os pesquisadores querem dizer:

Somers e Gibson (1994) referem que as narrativas não se resumem a uma mera cronologia de acontecimentos, antes constituem histórias públicas ou particulares com as quais nos identificamos e que integramos na nossa percepção e cognição sobre o mundo. Estas histórias constituem referenciais que condicionam a interpretação que realizamos sobre os acontecimentos e as relações sociais, orientando as nossas ações e atitudes. (PEREIRA, 2009, p. 09).

80 Essas narrativas formam-se a partir de diferentes textos e discursos, sem que a lógica da relação que os unifica numa mesma narrativa seja explicitada em qualquer deles. Entendo que a identificação da narrativa é determinante para o seu impacto na produção das resistências, das resiliências, e no novo jeito de pensar.

Porque não usamos discursos e sim narrativas?

Relacionando a teoria com as entrevistas narrativas na construção de uma história, destaco o conceito de narrativa:

A narrativa está presente no mito, fábula, conto, novela, epopéia, história, tragédia, drama, comédia, mímica, pintura (pensemos na Santa Úrsula de Carpaccio), vitrais de janelas, cinema, história em quadrinho, notícia, conversação. Além disso, sob esta quase infinita diversidade de formas, a narrativa está presente em cada idade, em cada lugar, em cada sociedade; ela começa com a própria história da humanidade e nunca existiu, em nenhum lugar e em tempo nenhum, um povo sem narrativa. Não se importa com boa ou má literatura, a narrativa é internacional, trans-histórica, transcultural: ela está simplesmente ali, como a própria vida. (ROLAND BARTHES, 1993, p. 251-2).

Podemos perceber que o conceito de narrativa pode nos ajudar a refletir nas questões relacionadas aos professores surdos na Educação Superior, ao narrarem suas histórias colocando as suas experiências é possível entender como constroem as relações de poder em um espaço de negociação nas universidades tornando evidente o confronto com as nossas diferenças. E por fim, ainda a narrativa nos permite usar os procedimentos analíticos assim como Foucault orientou e seguir com a coleta de dados como instrumento de transcrição das narrativas relacionando com as questões teóricas que devem ser feitas sobre relação entre narrativas e realidade, todas elas referentes às conexões entre o discurso e o mundo que está além dele. (Sandra Jovchelovitch & Martin W. Bauer, 2008).

O conceito de discurso se refere provavelmente a um conjunto de enunciados que provém de um mesmo sistema discursivo: “Chamaremos de discurso um conjunto de enunciados que se apoiem na mesma formação discursiva.” (FOUCAULT, 1986, p. 135).

Assim, se poderiam pensar sistemas de formação de discursos como sendo: o discurso institucional; os discursos que sustentam a ideia sobre o professor surdo como menos capaz, discurso que vem da educação especial; se atrela também no discurso

81 econômico sobre o professor surdo, pois gasta mais com intérprete e recursos visuais, etc. O discurso é diferente da narrativa, pois, está em conjunto com as práticas discursivas.

As práticas discursivas se reúnem no conjunto de técnicas, das instituições, dos esquemas de comportamento, dos modos de transmissão de valores verbais (ouvintes) e nas estratégias de suas interpretações de acordo com o “eu” presente e perceptível nas tendências pedagógicas, etc.

Todo discurso contém um elemento estratégico de poder. Responde a uma contingência. Parte da operação poder-saber universal. Ao tratar do discurso, Michel Foucault cita algumas ferramentas conceituais de discursos como: conjunto de enunciados; blocos teórico-discursivos que apostam em uma essência; formação discursiva: Prática e discurso andam juntos e podem gerar novas práticas.

E também compreendo o modo de usar a narrativa conectada com a invenção, criação e estabilidade das práticas culturais assim como identidades e representações produzidas por essa prática diferente do modo de usar o discurso, como a pesquisadora afirma:

Já quando falo em “narrativa”, estou entendendo-a como um tipo de discurso que se concretiza em textos nos quais se representa uma sucessão temporal de ações apresentadas como conectadas – de alguma forma – entre si, com determinados personagens ou protagonistas, em que haja uma transformação entre uma situação inicial e final e/ou intermediárias. Existem inúmeras abordagens da narrativa – umas de cunho mais estruturalista, outras mais conectadas com a enunciação, outras de cunho mais social e cultural. (SILVEIRA, 2005, p. 198).

Essa identificação foi a chave para mapear as narrativas sobre as práticas dos professores surdos da pesquisa, sobre como é ser professor surdo e em pensar sobre a luta nos espaços de negociação das políticas educacionais nas Universidades.