3. Design and Development
4.4 Discussion of findings
E prosseguindo nesse caminho à Educação Superior, porque os professores surdos também o seguiram, e se entendermos a complexidade da cultura surda na Educação Superior, como afirma a Perlin:
A cultura surda traz em si elementos importantes que a identificam, a constituem e a colocam no rol das diferentes culturas que perfazem o panorama das posições da modernidade tardia. Os espaços das culturas são regidos por poderosas tramas de poder. Cada cultura é em si mesma autoridade. Uma cultura difere da outra pelo enunciado, pelas tramas de poder e pelas narrativas que a constituem. (PERLIN, 2006, p. 138).
Tanto com a enfatização da cultura surda que traz em si, e gostaria de apresentar algumas narrativas dos professores surdos que, a meu ver, tornam o momento presente um momento de reflexão para a questão da cultura surda na Educação Superior.
181 A narrativa da professora Afrodite mostra o seu posicionamento quanto á cultura surda na Educação Superior:
É muito importante o meu reflexo da cultura surda porque a minha vida faz parte da cultura surda, eu sou usuária de língua de sinais, tenho uma cultura visual. Eu mostro a mina cultura surda e demonstro o seu valor, porque têm pessoas que pensam que todas as culturas são iguais, mas não, elas diferem uma das outras, precisamos mostrar que á diferentes representações nos diversos grupos sociais. Eu tenho e vivencio a cultura surda. Se não existisse ou se eu não tivesse a cultura surda eu teria baixa autoestima, como eu conseguiria viver? Por isso no meu ambiente laboral eu preciso mostra-la. (AFRODITE, 2014).
Entendo a professora Afrodite produzindo sua narrativa com sua relação usuária em Língua de Sinais Brasileira e com o conhecimento da cultura visual na Educação Superior, porém, a Língua de Sinais Brasileira é algo que se faz na produção da cultura, para ela, é criar, simbolizar e fazer circular sentido, é um processo de interação na Educação Superior.
E também a professora Atena levantando dúvidas sobre os professores surdos tem trabalhado para apresentar a cultura surda na Educação Superior:
Eu não sei exatamente qual o número de professores surdos inseridos nos espaços universitário hoje e de que forma esses professores tem trabalhado para apresentar a cultura surda nesses contextos, porque nós sabemos que há surdos que reproduzem elementos da cultura ouvinte na sua atuação. (ATENA, 2014).
Prosseguindo com a narrativa da Atena, mas apenas no que se refere ao seu contexto em relação ao seu lugar:
Só posso te falar em relação ao meu contexto, o do rio de janeiro, em que tenho visto uma presença forte dos professores surdos, como por exemplo, no instituto nacional de educação de surdos, onde temos muitos professores surdos realizando um trabalho bem sólido. (ATENA, 2014).
Isso que ela está mostrando que conhece onde haja o encontro surdo-surdo que se produz uma forte cultura surda no espaço deles, pois ela está afirmando que há muitos professores surdos que trabalham de maneira bem sólida. Isso significa que ele tem o seu espaço para fazer, construir e enfatizar uma cultura surda onde há Língua de Sinais Brasileira aí com as quais nascemos com as produções culturais, como diz o
182 pesquisador Geertz (1989, p.62): “nossas ideias, nossos valores, nossos atos e até mesmo nossas emoções são, como nosso próprio sistema nervoso, produtos culturais, na verdade produtos manufaturados a partir de tendências, capacidades, disposições com as quais nascemos”.
Com a produção cultural na Educação Superior, às vezes, pode tornar o lugar de modo diferente, como a narrativa da professora Ártemis:
A cultura dentro da instituição... É difícil... O espaço da universidade não é o espaço da minha cultura, não é mesmo. A grande parte das pessoas são ouvintes, não disse todas, mas a grande maioria não utiliza a língua de sinais. Desta forma, como poderia pensar na cultura surda neste espaço? Chama-me atenção a UFSC onde a língua de sinais circula no espaço acadêmico, alguns professores sabem a língua de sinais e isso promove a construção de vínculos. Eu não me sinto vinculada a universidade, não mesmo, caso venha a se ampliar o número de surdos nas instituições e as informações sobre os sujeitos isso pode mudar. (ÁRTEMIS, 2014).
A professora Ártemis, na Educação Superior, situada no meio das complexas culturas, enquanto trabalha sozinha, transforma-se no processo de interação, a ligação que constrói a diferença entre surdos e ouvintes. Percebo que ela há de ir e vir da cultura, a passagem que ela propicia, afirmando que a universidade não é cultura para ela enquanto não houver professores surdos no espaço, mas há possibilidade de um hibridismo cultural que acolhe a diferença na Educação Superior como acontece na UFSC, como o pensamento de GREEN (“apud” BHABHA, 1998, p. 23): “sempre transitei de lá para cá entre designações raciais, designações da física ou outras designações simbólicas. todas essas coisas se embaralham de alguma maneira... desenvolver uma genealogia da maneira como as cores e não-cores funcionam é interessante para mim”.
Uma possibilidade de hibridismo cultural na Educação Superior, como diz a narrativa da professora Deméter:
Eu acredito que é importante que em todos esses espaços os ouvintes estejam trabalhando em parceria com os surdos, quando o trabalho e realizado para surdos somente por ouvintes os surdos não reconhecem os elementos da sua cultura ali e aos poucos abandonam o processo. Isso é algo que a federação mundial de surdos tem feito inúmeras campanhas, a necessidade de que qualquer pesquisa que seja feito a respeito de surdos seja feita com a participação de surdos. Não é só necessário saber como fazer, mas ter efetiva participação de surdos é fundamental, é isso que garante o aparecimento da cultura surda nesses projetos. (DEMÉTER, 2014).
183 Deméter está afirmando que há possibilidade e que é fundamental realizar a parceria entre surdos e ouvintes nesse projeto para acontecer o aparecimento da cultura surda na educação de surdos, que podem acolher a diferença sem uma imposição e respeito, como afirma Bhabha (1998, p. 35): “este é o momento de distância estética que dá á narrativa uma dupla face que, como o sujeito sul-africano de cor, representa um hibridismo, uma diferença “interior”, um sujeito que habita a borda de uma realidade “intervalar”. Com essa possibilidade, o autor argumenta que o sujeito habita onde haja uma diferença no interior, é como o professor surdo é diferente habita e trabalha na Educação Superior que cria as parcerias na encruzilhada entre história e cultura, unindo Educação Superior e a comunidade surda.
Mas e as relações de poder enquanto cria a cultura surda na Educação Superior? Apolo enfatiza:
Então, isso está inserido naquilo que Foucault discorre e chama de relações de poder. Quanto a isso eu sempre tento promover uma inversão de papéis, fazer com que o ouvinte possa se colocar no lugar do surdo e dessa forma desenvolver estratégias para que ele também possa se conscientizar e sentir aquilo que o surdo sente. (APOLO, 2014).
No sentido Foucaultiano, as relações de poder podem ocorrer em qualquer lugar, mesmo na Educação Superior. O professor Apolo está mostrando a sua estratégia colocando os ouvintes no lugar do surdo, é como se fosse representante do conhecimento, algo do local da cultura surda que contém em seu campo de experiência, pode levar uma nova afirmativa: a diferença cultural do sujeito surdo.
Das provações de uma cultura surda na Educação Superior, teoricamente preparado para lidar e resolver conflitos assume essa responsabilidade dando poder a um grupo de profissionais surdos que estabelecem uma determinada interpretação cultural e baliza essa interpretação como a mais próxima do que é justo. Nesse ponto, a narrativa do professor surdo Apolo destaca o fato de ação da prática discursiva política surda que atribui um sentido de negociação colocada nas publicações científicas comprovando a existência da cultura surda com os autores como: Gladis Perlin, Paddy Ladd, Oliver Sacks, Harlan Lane, Carol Padden, etc. em um lugar superior aos demais,
184 principalmente aos professores surdos envolvidos em um conflito na Educação Superior.
Portanto, com a enfatização da cultura surda na Educação Superior é o reconhecimento de conteúdos e costumes culturais, dá origem a noções liberais, de intercâmbio cultural, também uma representação de cultura que existem de seus locais históricos, protegidos na memória dos professores surdos de uma identidade surda na Educação Superior, mas pode emergir, ou seja, acontecer o momento de contradições e conflitos.