5. Conclusion and Future work
5.2 Future work
Perlin afirma na sua tese:
“o conceito de ser surdo confirma o surdo, da mesma forma que o conceito ser negro, ou conceito ser índio. Assim, dentro de posições culturais, a palavra ser surdo assume uma política para a identidade e diferença e a alteridade”. (PERLIN, 2003, p. 18).
Certamente que Perlin escreve isto percebendo que se existem conflitos com a diferença existem também conflitos diante de posições políticas diferentes. Bhabha (1998, p. 116) comenta: “Ver o cultural não como fonte de conflito – culturas diferentes – mas com o efeito de práticas discriminatórias – a produção de diferenciação cultural como signos de autoridade – muda seu valor e suas regras de reconhecimento”.
A cultura surda citada por Perlin (2013) parece algo que produz um modo, um jeito de viver no mundo, através da experiência visual, de compreender o mundo dos surdos, mas parece implicar os dois: contradições e conflitos. É uma contradição do discurso dominante na sua visão sobre os professores surdos, dentro da qual a cultura surda é construída em situações de confronto político entre relações de poder na Educação Superior. É, também, um conflito no espaço de negociação cultural, no que poderia ser entendido como um Foucaultiano, “um modo de apropriação e de resistência, do pré-determinado ao desejado” (BHABHA, 1994, p. 120).
Esses traços da cultura surda fazem com que este transgrida todo o projeto do discurso dominante e exige o reconhecimento da diferença, questionando e deslocando “o valor do símbolo para o sinal” do discurso autoritário (BHABHA, 1994, p. 113).
185 Provavelmente a característica mais marcante e problemática da cultura surda é negociar, a qual não permite que o mesmo solucione tensões entre culturas, assim, claro que é baseada numa clara distinção entre a diversidade cultural – definida como uma categoria – e a diferença cultural – definida como um processo de significação, como afirma o pesquisador:
Se a diversidade cultural é uma categoria da ética, da estética ou da etnologia comparativas, a diferença cultural é um processo de significação através do qual enunciado sobre ou em uma cultura diferenciam, discriminam e autorizam a produção de campos de força, referência, aplicabilidade e capacidade. (BHABHA, 1994, p.34).
Bhabha está entendendo o conceito de diferença cultural, e não o de diversidade, ele sugere que se focalize o problema da contradição e conflito da autoridade cultural. Assim, entender a contradição:
[...] é tornada viável somente através da estratégia de contradição... A qual requer uma teoria da "hibridação” de discurso e de poder que é ignorada por teóricos que se ocupam da luta por "poder”, mas o fazem simplesmente como os puristas da diferença. (BHABHA, 1994, p.111).
Na estratégia de contradição há um embate político, como nos mostra a narrativa do professor Apolo:
Bem, em toda minha experiência de atuação até agora, o que eu aprendi foi que no embate político contra os ouvintes eu sempre saio perdendo, sempre. Então eu uso como estratégia tornar-me um aliado, tentar convencer, negociar, mas estabelecer uma aproximação para que se institua um diálogo. No início da minha carreira, quando jovem, eu sempre optava pelo embate e sempre saia perdendo. Com o tempo fui me tornando aliado dos ouvintes, conversando, dialogando, negociando. Nem sempre isso garantia 100% de conquistas. Ás vezes conseguia 20%, 30%, ás vezes chegava bem próximo, com o tempo ia conquistando cada vez mais. O embate, infelizmente, mesmo nós estando com a razão, de alguma forma a gente sempre sai perdendo. (APOLO, 2014).
Vê-se que o professor Apolo tornou-se agora o ponto de resistência, ele prevê a volta do problema da contradição enquanto há um embate político, a qual ele transformou uma negociação, sempre saia perdendo. Entretanto, agora que o Apolo introduz como um aliado com a asserção da resistência, transformando-se no lugar das contradições, mas busca mudar a realidade enquanto negocia. Quando a resistência tornou-se pronunciada, reflito-me: naquele momento, ou mais tarde, quando há
186 contradição na Educação Superior? Encontra-se o momento da cultura surda dos professores surdos porque encontra contradições na sua teorização.
O embate que se estabelece entre o mundo da cultura surda dos professores surdos é reforçado ao longo das narrativas. Essa presença de contradição e conflito, a professora Deméter relatando a sua narrativa aponta o conflito e se entristece com a situação de alguns programas de pós-graduação em outras universidades que não aceitam o ingresso de alunos surdos, que sonha ver as outras universidades aceitarem esses alunos. Segundo a narrativa da professora Deméter:
O que me entristece, no entanto é o fato de alguns programas de pós- graduação nas universidades brasileiras não aceitarem o ingresso de alunos surdos, o que leva muitos deles a terem que vir para a UFSC para realizar seus estudos. Embora isso seja bom por criar um espaço comum de surdos na UFSC há também uma necessidade que outros estados abram esses espaços. Hoje nós só temos a UFSC, UFRGS, UNB, enfim, pouquíssimas universidades que garantem esses espaços enquanto há muitos surdos aguardando para realizar seus estudos de pós-graduação. (DEMÉTER, 2014).
A professora Deméter apresenta os desafios inicias da vida acadêmica aos outros surdos a realizar seus estudos onde possam criar um espaço, mesmo estando com a contradição e conflito vendo a situação de outras universidades.
A contradição de não poder se sentir lamentável, porque surdos, aumentava, assim, sua necessidade de ingressar os estudos na pós-graduação, de negar os valores culturais dos alunos surdos. Dessa forma, e, a seu modo, reconhece a posição de alguns programas de pós-graduação que excluem e, nesse sentido, a diferença cultural é, como afirma Bhabha, o efeito de práticas discriminatórias.
A posição da professora Deméter está colocando o espaço que pode corresponder e enfatizando não só na UFSC, mas também, os outros estados para criar um espaço para surdos.
Tal reflexão, no entanto, aproximando a narrativa de Deméter com a ideia de criar um espaço para surdos. A narrativa da Ártemis, contextualizando pela contradição que deve acreditar e buscar um trabalho, de longa data:
Acredito que se houvesse uma referência, assim como acontece na UFSC, profissionais para dialogar, professores doutores que atua na Educação Superior, uma coordenação que estabelece trocas e compreende as questões relacionadas à cultura. Este é um referencial já estabelecido, o início não é
187 fácil, mas é preciso um trabalho, de longa data, para organização do espaço. Sou a única professora surda, então, como posso enxergar o trabalho de outros colegas? [...], pois estou sozinha no instituto, em vários momentos, sou deixada de lado. (ÁRTEMIS, 2014).
A professora, Ártemis, remete a uma problematização que estilhaça qualquer contradição e conflito sobre a noção deixada de lado de forma inquietada, e sabe que outras universidades compreendem a questão de cultura em vários momentos, mas ao contrário disso, algumas universidades instigam uma reflexão sobre o contínuo fazer-se e renovar-se de uma cultura como um embate político, enquanto o processo de representação inacabado quando acontecer uma contradição e conflito, como diz o professor Apolo.
Na sua capacidade de fazer-se reproduzir a cultura surda e, ao mesmo tempo, silêncio de resistência, instauram uma circularidade criadora de sentidos na existência de conflitos na Educação Superior, como narra a professora Afrodite:
Comparando eu surda que tenho e reproduzo a cultura surda com a sociedade ouvinte com sua cultura ouvinte, bem ás vezes há conflitos, isso não se relaciona apenas a culturas diferentes, mas as línguas que também são diferentes, eu uso Língua de Sinais Brasileira e eles língua portuguesa, essa diferença gera às vezes conflitos [...] se os ouvintes não conhecem a língua de sinais, não conhecem a cultura surda irá haver conflitos sempre. Mas se os ouvintes são nossos aliados, aí as coisas fluem. (AFRODITE, 2014).
Com esse conflito, isso pode gerar prejuízos aos professores surdos, isso traz uma questão de dificuldade de compreender a cultura surda e ouvinte. Isso pode trazer perde para o espaço dos surdos na Educação Superior, algo que vem como uma falha se não conhecem à nossa cultura surda, isso é algo fortemente ancorado nas contradições e conflitos.
Com essa tensão nas contradições e conflitos relacionados com a Língua de Sinais Brasileira e Língua Portuguesa, Afrodite afirma:
Não dá para culpá-los, pois eles copiaram o modelo dos professores ouvintes que não sabem a Língua de Sinais Brasileira e ministram aulas em Língua Portuguesa na modalidade oral e que são traduzidos para Língua de Sinais Brasileira por um profissional junto a eles, é esse o problema. Agora se todos usassem a língua de sinais não haveria esses conflitos. Por isso os professores surdos precisam impor sua cultura surda, eu sei que ás vezes isso é complicado. (AFRODITE, 2014).
188 Afrodite está nesse conflito querendo impor a sua cultura surda, mas ás vezes é complexo escapar das certezas com as suas imposições em questão da linguística de sujeitos ouvintes, mas além de possibilitar um modo de compreender e refletir sobre problemas da cultura surda e histórico dos professores surdos os quais se constroem na Educação Superior.
Prosseguindo com a narrativa de Afrodite:
Antes não havia professores surdos, todos usavam apenas a Língua Portuguesa na modalidade oral. Quando professores ouvintes sabiam que iriam dar aula para alunos surdos eles entravam em choque porque não sabiam como dar aulas para eles. Com a chegada dos professores surdos a relações deles com os colegas ouvintes foi conflituosa, pois eles não conheciam a língua de sinais, a cultura surda e com o tempo eles foram se acostumando, isso foi bom porque aumentou a visibilidade da língua de sinais e também da cultura surda. Mas depende também do professor surdo, se ele apenas der aulas e sumir nada acontece, é preciso lutar para conseguir as coisas, como, por exemplo, a presença de interpretes de libras, participar das ações, estabelecer parcerias, mostrar o seu profissionalismo e seu trabalho, se não, não adiante se ele não participa das coisas, é preciso lutar para ter conquistas. (AFRODITE, 2014).
A narrativa de Afrodite responde algo sobre os conflitos por um tempo e erro que evidenciam o quão talento dos professores surdos se mostra a cultura surda, em face das maiores adversidades.
Com as narrativas, eles demonstram deslocamentos da contradição e conflitos na Educação Superior, á redescoberta da luta do professor surdo que é preciso, tanto no resgate histórico da narrativa dos professores surdos como na recriação compreensiva dos conflitos na Educação Superior.
E nesse sentido, reafirma-se a visão de futuro apresentada por Bhabha (1998, p. 352): “A crença de que não devemos simplesmente mudar as narrativas de nossas histórias, mas transformar nossa noção do que significa viver, do que significa ser, em outros tempos e espaços diferentes tantos humanos quanto históricos”.
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