Os três postulados conferem um enorme poder explicativo à teoria dos objetos. A manifestação máxima desse poder é a maneira intuitiva com que a teoria lida com o problema dos termos vazios e com a aporia dos inexistentes. A solução não requer que
se abra mão de quaisquer intuições. Requer somente que a noção de objeto inexistente, e logo a concepção de que a existência é um predicado relevante, faça sentido. Mas o poder que esses postulados trazem consigo obriga a teoria dos objetos a atravessar o abismo dos inexistentes em uma corda bamba. No “On Denoting”, Russell acusa a teoria de Meinong de conduzir à contradição.
This theory regards any grammatically correct denoting phrase as standing for an object. Thus “the present King of France”, “the round square”, etc., are supposed to be genuine objects. It is admitted that such objects do not subsist, but nevertheless they are supposed to be objects. This is in itself a difficult view; but the chief objection is that such objects, admittedly are apt to infringe the law of contradiction. It is contended, for example, that the existent present King of France exists, and also does not exist; that the round square is round, and also not round; etc. But this is intolerable(RUSSELL, 1905a, 482–483)
Do ponto de vista da teoria de Meinong, a crítica de Russell tem dois momentos: um genérico, que ataca os postulados de caracterização e intencionalidade, e um existencial específico, que diz respeito ao postulado da independência. Em primeiro lugar, há o caso genérico de objetos com propriedades complementares, como o círculo quadrado: se podemos caracterizar qualquer objeto, então nada impede que caracterizemos um objeto impossível, como o círculo quadrado de Mill, exemplo favorito do próprio Meinong. (Segundo o postulado da caracterização, podemos pensar um objeto que é um círculo quadrado, chamado “o círculo quadrado”; nesse caso será verdadeiro que “o círculo quadrado é um quadrado” e que “o círculo quadrado é um círculo”; mas é certamente verdadeiro que “algo é um quadrado se e somente se ele não é um círculo”, de onde se deriva que “o círculo quadrado não é quadrado” e que “o círculo quadrado não é um círculo”, contradizendo a hipótese.) Ou seja, objetos impossíveis implicam a negação da lei da não contradição. Um outro argumento paralelo poderia tentar refutar a teoria dos objetos a partir da caracterização de objetos incompletos. Por exemplo, se vale a lei do terceiro excluído, então é ou não é o caso que o objeto tal que é uma montanha de ouro
é maior que o Monte Evereste. No entanto, nada na caracterização da montanha de ouro determina a obtenção de uma das duas propriedades complementares. Tanto objetos contraditórios, superdeterminados, quanto objetos incompletos, subdeterminados, são casos de objetos impossíveis que infringem a lei da não contradição, num caso, e a lei do terceiro excluído, em outro. Isso deveria ser uma razão suficiente para descartar a teoria dos objetos como inaceitável.
Em segundo lugar, há o caso particular de objetos que não existem caracterizados como existentes: segundo o postulado ingênuo da caracterização, podemos supor um objeto tal que ele é o atual Rei da França e que ele existe. Se valesse o postulado ingênuo, seríamos capazes de produzir um número arbitrário de argumentos ontológicos. É um fato empírico que não existe um atual Rei da França, de modo que a teoria dos objetos encontra um segundo tipo de limitação. No primeiro caso, a contradição provem da caracterização de um objeto com duas propriedades complementares; no segundo, ela provem da caracterização de uma propriedade inconsistente com os próprios postulados da teoria. Segundo a teoria, para toda descrição há um objeto, atual, possível ou impossível, completo ou não, consistente ou não, que a satisfaz. Ao descrever um objeto que não existe como existente nos defrontamos com o limite da teoria. Com efeito, outras contradições podem ser produzidas seguindo o mesmo princípio de caracterizar objetos com propriedades metateóricas: pense no objeto que é azul e não é idêntico a si mesmo, ou que é circular e não é um objeto; pense no objeto cujas duas únicas propriedades é ser chuvoso e ser completo (totalmente determinado); pense no objeto consistente que é e não é quadrado.
A resposta de Meinong a Russell é típica do giro de perspectiva que tende a tornar esse tipo de debate indecidível. Enquanto ortodoxia afirma a falsidade da conjunção dos princípios de caracterização e de objetualidade porque eles implicam algo inaceitável — a falsificação de leis lógicas — o meinongianismo conclui pela validade desses princípios a partir da queda dessas leis para objetos impossíveis. Pelo contrário, o fato de podermos caracterizar objetos impossíveis é, para Meinong, uma prova fundamental das teses da teoria dos objetos, em particular da independência. Precisamente porque esses
objetos são impossíveis é que eles nem existem nem são objetos mentais. A lei da não contradição (e o mesmo vale para a lei do terceiro excluído) valeria para objetos possíveis, incluindo os atuais, mas forçosamente não para impossíveis! Estes não existem necessariamente. Meinong veio então a dizer que não é contraditório para a teoria admitir um objeto inexistente tal que ele existe. Muito bem, ele é impossível, e é por isso que ele não existe. A resposta decisiva de Russell (1907, 439) foi a seguinte: Meinong confunde a lei da não contradição, que se aplica a proposições, com uma versão material da lei, para objetos. Meinong estaria confundindo objetos impossíveis com proposições contraditórias.
Uma forma de entender a primeira crítica é em termos de complementariedade. Jorgensen (2004, 23) explica que o desafio da teoria dos objetos é restringir a noção de complementariedade entre dois predicados de modo a explicar o conceito de objeto impossível superdeterminado sem torná-lo uma impossibilidade lógica. A noção clássica de complemento, aplicada a propriedades, pode ser apresentada assim: seP é uma propriedade eε
(
P)
é o conjunto das coisas que possuemP, isto é, sua extensão, então o complemento deP,P, será o conjunto das coisas que não possuem¯ P, isto é,{x : x < ¯P}. Desse modo, a definição de complemento, se vale a bivalência, é a seguinte: (C)P¯ é o complemento deP=
d f ∀x(
Px ↔ ¬Px¯)
. A definição (C) de complemento não serve àteoria dos objetos, evidentemente, porque a teoria pretende admitir objetos que exibem, ao mesmo tempo e no mesmo sentido, uma propriedade e seu complemento.