3. Theoretical framework and literature review
3.1. Definition and technical aspects of FDI
O princípio de realidade é garantido pela associação do domínio de objetos ou universo de discurso ao espaço de abrangência do quantificador particular ou existencial. Esse quantificador não é somente chamado de existencial. A apresentação ortodoxa tam- bém supõe que ele deve conotar existência. Essa associação garante, essencialmente, a validade da velha intuição de que toda expressão da verdade é uma expressão da realidade. Mas também garante pressupostos metafísicos equivalentes: que somente o que existe possui propriedades, que somente o que existe pode ser objeto de referência e que somente o que existe pode ser enumerado. A presença do pressuposto ontológico é tal que todos os nomes admitidos na linguagem devem referir a um objeto existente. Con- sequentemente, nenhuma predicação pode ser sobre o que não existe, nenhum objeto inexistente pode servir valor a uma variável de quantificação e cada uma das fórmulas da linguagem será ou uma proposição existencial ou, caso não seja, implicará uma. A expressão disso é a validade das regras de generalização existencial e instanciação universal. Como consequência, toda uma família de conceitos fundamentais é amarrada diretamente ao conceito de existência: referência, verdade, individualidade, identidade, quantificação, assim como os conceitos semânticos metalógicos de satisfazibilidade e validade. Veja a caracterização de Russell (1961, 232):
When you take any propositional function and the assert of it that it is possible, that is some time it is true, that gives you the fundamental meaning of ’existence’ (. . . ) existence is essentially a property of a propositional function. It means that the propositional function is true in at least one instance. (. . . ) We have got to have some idea that we do not define, and one takes the idea of ’always true’ or of ’some time is true’ as, as one’s undefined idea
in this matter (. . . ) It will be out of this notion of some times, which is the same as the notion of possible, that we get the notion of existence. To say that unicorns exist is simply to say to say that ’(x is unicorn) is possible’.
Do ponto de vista da filosofia de Meinong, a origem do problema dos nomes vazios e da aporia dos inexistentes é o princípio de realidade, que deve ser abandonado em favor de uma semântica existencialmente neutra, onde a existência é um predicado.
The problem of negative existential may be restated in quantificational form as follows: If “Pegasus does not exist” is indeed about Pegasus then, by existential generalisation and detachment, since the premiss is true there exists an item which does not exist, which is impossible. But where a does not occur referentially in ’a f’ the principle of existential generalisation a f implies
(
∃y)
y fis invalid. Nor does the fact that ’a f’ is about a license existential generalisa- tion; for aboutness does not imply existence.
(. . . )
The quantificational restatement of the problem of negative existentials fails then because existential generalisation (EG) fails.(ROUTLEY, 1980, 44)
A teoria dos objetos revela que os argumentos contra a tese de que a existência é um predicado são ou circulares ou meramente analógicos, ou que não apoiam a conclusão desejada.9 Esses argumentos afirmam, cada um, que o verbo ou predicado gramatical de existência não satisfaz alguma condição necessária de um bom predicado. De modo geral, a intuição da ortodoxia é de que se a existência fosse um predicado, uma série de anomalias absurdas se seguiriam. Em geral, os argumentos são, na verdade, puro preconceito em favor do real, mera suposição do que se pretende mostrar.
There is no sort of point in a predicate which could not conceivably de false. I mean, it is perfectly clear that, if there were such a thing as this existence of indiviuals that of, it would be absolutely impossible for it not to apply, and that is the characteristic of a mistake.(RUSSELL, 1961, 241)
Do mesmo modo, Pears (1967) argumenta que se o predicado de existência fosse um predicado de primeira ordem, então sentenças afirmativas singulares de existência seriam todas tautológicas, e sentenças de existência negativas seriam todas contraditórias. Bom, essa é a aporia dos inexistentes. Apresentar a aporia como uma evidência em favor do pressuposto ontológico mostra simplesmente que se assumiu a posição ortodoxa, não que ela é a única correta. Com efeito, sentenças afirmativas de existência não são tautológicas, nem negativas são contraditórias, na teoria dos objetos. O argumento se baseia em consequências da tese que pretende provar.
Historicamente, o argumento mais importante é o kantiano. Kant é citado como tendo oferecido o primeiro argumento em favor da idéia de que a existência não é um predicado real de objetos, argumento mais tarde reformado por Frege. Segundo essa tradição, se ela fosse um predicado, então valeriam os argumentos ontológicos de Descartes e Santo Anselmo. Contudo, o argumento de Kant não é suficiente para mostrar que a existência não é um predicado relevante (quanto mais um predicado lógico). O argumento de Kant busca mostrar que o predicado de existência não satisfaz uma certa propriedade metafísica ou psicológica característica de predicados reais. Predicado reais são conceitos que se adicionam ao conceito de uma coisa. Mas conceito de existência não adiciona nada ao conceito de uma coisa quando dizemos que ela existe. Segundo Kant, pensar uma nota de cem reais como existente é simplesmente pensar em uma nota de cem reais. (De modo parecido, Hume também nota que enunciados existenciais como “Deus existe” não há duas idéias que se adicionam, uma vez que nós não podemos pensar a idéia de existência separadamente da idéia dos objetos que são ditos existir). É curioso que as teorias clássicas dos objetos, de Parsons e Jacquette, expressam justamente essa idéia ao manter que a existência não é uma propriedade nuclear. Com efeito, as teorias dos objetos precisam de algum modo se ver com a intuição
ortodoxa; a teoria de Meinong e de Parsons, para manter a consistência, recoloca a tese ortodoxa em termos de uma distinção entre propriedades determinantes (nucleares) e não determinantes (extranucleares), insistindo, ao mesmo tempo, na singularidade das predicações existenciais e na idéia de que a existência não é uma propriedade caracterizante. Hoje se tem como certo, na literatura sobre o tema, que o fato do verbo de existência ser ou não um predicado real não é suficiente para argumento ontológico se efetuar. Para um argumento ontológico sair do chão é necessário que a definição, hipótese, caracterização ou suposição de objeto como existente seja suficiente para sua existência.10 Ou seja, é necessário que valha o postulado de caracterização em sua
versão ingênua sem restrições.
Com efeito, todas as diferentes teorias dos objetos têm que pagar um preço por manter uma noção irrestrita de objetos sem explodir em contradição. E ao absorver a bomba, elas espelham no interior da teoria dos objetos as duas posturas ontológicas, realista e anti-realista, que dividem as soluções ortodoxas ao problema dos nomes vazios. Castañeda, Rapaport e Zalta, com a teoria das duas cópulas, reproduzem em uma teoria meinongiana a atitude anti-realista de Russell (a partir de 1905) e Quine; objetos inexistentes não exibiriam propriedades literalmente. Já para Parsons e Jaquette, com a distinção entre propriedades nucleares e extranucleares, objetos meinongianos devem ser levados a sério como objetos, e ecoam um idealismo ou platonismo simples como o Russell em 1903; já teorias como a Priest e Routley remetem à intuição mais forte multirrealista, onde a existência é relativa a mundos. (A diferença entre o multirrealismo e meinongianismo aqui é que o o primeiro leva a sério a análise da existência como relativa e é, em certo sentido, ficcionalistas quanto a noção de objeto, enquanto as teorias meinongianas modais são ficcionalistas quanto à noção de existência indexada.) Com efeito, as teorias modais e clássicas dos objetos são espécies de realismos quanto a objetos inexistentes. É assim que Sainsbury (), por exemplo, classifica as teorias meinongianas.
10Esse ponto é feito em vários textos da literatura pós anos 60. Ver, em particular, Salmon (1987) e Plantinga (1989), que abordam a questão em detalhes.
O abandono da ortodoxia, isto é, o reconhecimento da existência como propriedade de objetos, logo de um quantificador neutro e da invalidade da generalização existencial, tem uma importante consequência metaontológica. Porque o predicado de existência (ou de atualidade) possui um complemento na teoria dos objetos, a noção de um critério de existência passa a ter sentido, enquanto a idéia de um critério de compromisso ontológico de Quine passa a ser inexpressivo (PARSONS, 1967). Podemos fazer referência a objetos que não existem, de modo que a denotatividade não é um critério de compromisso ontológico. Segundo o meinongianismo, só devemos nos comprometer com a existência de algo que soubermos existir. A teoria dos objetos é neutra, contudo, quanto ao critério de existência que se assume. Fato é que, se o princípio de realidade cai, então é possível definir um predicado para capturar somente o que existe. Isso não quer dizer que haja uma propriedade fixa que seja a essência de tudo o que existe. Mas isso não quer dizer que o critério de existência não possa ser caracterizado como histórico, processal e contingente. A inversão metaontológica resultante do abandono do princípio de realidade representa, em última análise, a priorização da metafísica sobre as ciências naturais no que concerna à ontologia. Evidentemente, a teoria dos objetos se compromete com a distinção entre enunciados analíticos e sintéticos, distinção que Quine pode recusar em favor de uma ontologia naturalizada e anti-realista. Quine mantém que a resposta à questão ontológica deve ser extensional; Meinong insistiria que ela deve antes ser intensional. Meinong, ele mesmo, como Routley e Priest, favorecem a propriedade de concretude como um critério inicial de existência.