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4. Method and Data

4.1. Dependent Variable

O aspecto é definido por Comrie (1976) como os diferentes modos de observar a constituição temporal interna de uma situação. Segundo o autor, o aspecto diz respeito ao tempo interno da situação, enquanto que o tempo refere-se ao tempo externo. No português, por exemplo, os verbos exprimem tempo, modo e aspecto. Assim, o verbo no português permite exprimir o mesmo fato como um todo ou composto por diferentes fases. O aspecto corresponde justamente ao fato de se poder evidenciar cada uma dessas fases em situações diferentes.

O termo “aspecto” foi usado primeiramente para se referir à distinção entre o perfectivo e o imperfectivo, observado na flexão dos verbos em russo e em outras línguas eslavas. O termo é usado porque se percebe que a análise das formas verbais

gregas implicava uma análise além da referência temporal (cf. LYONS, 1979). Trata-se do aspecto gramatical. A essa noção vem juntar-se a de aspecto lexical (ou aktionsart), que corresponde ao papel do significado lexical na denotação de um estado de coisas.

A literatura aponta ainda que o aspecto não constitui uma categoria dêitica, diferentemente do tempo, pois não se refere ao momento do enunciado. O tempo verbal indica a localização do evento na linha do tempo, mas o aspecto expressa a natureza interna de uma dada situação. O aspecto define, por exemplo, se uma ação é pontual: “João estudou matemática”; se uma ação teve duração no tempo: “João estava estudando matemática”; se uma ação é pontual ou repetitiva: “João pulou” ou “João saltitou”; se uma ação é acabada: “João fez o dever de casa”; se uma ação é inacabada: “João estava fazendo o dever de casa”, e assim por diante. A partir dos exemplos apresentados, pode-se afirmar que o aspecto pode estar presente na morfologia verbal, pode ser expresso por meio da escolha de um item lexical que marca um determinado tipo de aspecto ou na seleção de um complemento específico, como apontado por Oliveira (2001).

Segundo Castilho (1968), o aspecto é uma categoria de natureza léxico-sintática, pois em sua caracterização interagem o sentido que a raiz do verbo contém e elementos sintáticos como adjuntos adverbiais, complementos e tipo oracional. Portanto, na língua portuguesa, o aspecto é, em geral, representado pelo sentido do próprio do verbo, pela flexão temporal, pelos adjuntos adverbiais e pelos tipos oracionais. Assim, se tivermos uma ação verbal indicando uma duração, temos o aspecto imperfectivo, se uma ação completada, temos o aspecto perfectivo, se uma ação repetida, o aspecto iterativo, e assim por diante. Castilho afirma que:

O aspecto é a visão objetiva da relação entre o processo e o estado expressos pelo verbo e a idéia de duração ou desenvolvimento. É pois, a representação espacial do processo. Esta definição, baseada na observação dos fatos, atende à realidade etimológica da palavra “aspecto” (que encerra a raiz spek = “ver”) e insiste na objetividade característica da noção aspectual, a que contrapomos a subjetividade temporal (CASTILHO, 1968, p. 14, grifos do autor).

Todas essas definições tiveram no estudo de Vendler (1967) uma referência primordial. Vendler (1967) apresenta um modelo que levou a identificação de quatro classes apectuais de verbos, a saber: (i) estados, que denotam circunstâncias que não se desenvolvem no tempo (querer, amar); (ii) atividades, que denotam eventos que se desenvolvem durante um tempo, mas com um ponto de término indeterminado (correr,

nadar); (iii) accomplishments, ou processo culminado, que denotam processos para os

quais existe um ponto final previsível (correr dois quilômetros, pintar um quadro) e

achievements, ou culminações, que denotam eventos que ocorrem em um momento

específico de tempo (nascer, chegar), conforme exemplos abaixo: (39) João ama Maria. (estado)

(40) Pedro correu pelo parque. (atividade)

(41) João pintou um quadro réplica da Monalisa. (accomplishment) (42) O menino chegou ao carro. (achievement)

O desenvolvimento da proposta de Vendler (1967) leva à definição de três pares de valores para o aspecto lexical. São eles: estatividade e dinamicidade, telicidade e atelicidade, pontualidade e duratividade.

O primeiro par (estatividade e dinamicidade) corresponde à possibilidade de um predicado descrever um estado que não se altera no período de tempo ou uma sucessão de estágios de um processo, que transcorre no tempo. Isso porque as situações do mundo podem pertencer a duas classes distintas de fenômenos: estados (cf. exemplo (43)) e eventos (cf. exemplo (44)). Os estados são estáticos, isto é, são homogêneos. Já os eventos são dinâmicos, constituídos por diferentes estágios, pois envolvem mudança e dinamicidade, como ilustrado no contraste a seguir:

(43) Aquele filho admira muito o pai que tem.

(44) O garoto desenhou um círculo no papel colorido.

O segundo par (telicidade e atelicidade) corresponde à possibilidade de um predicado apresentar um fim pré-determinado ou não. O valor telicidade está associado a eventos nos quais o processo transcorre até um ponto final. Já o valor atelicidade está ligado a estados e eventos para os quais não há um fim bem determinado, conforme ilustrado abaixo:

(45) Mariana está cantando. (46) Mariana comeu o bolo.

No exemplo (45), o evento denotado por “cantar” pode prolongar-se indefinidamente, pois não existe no significado do predicado em si nada que indique que a situação chegará a um fim. No exemplo (46), diferentemente, existe um final previsto no evento de “comer o bolo”, que corresponde à ingestão da última fatia do bolo por Mariana.

O terceiro par (pontualidade e duratividade) corresponde à distinção entre um evento que não se prolonga no tempo e um evento que se prolonga por um período de tempo, conforme exemplos a seguir:

(47) Pedro espirrou.

(48) A faxineira limpou o apartamento.

Observa-se que o exemplo (47) denota um evento pontual, instantâneo e momentâneo, pois não corresponde a um intervalo de tempo, pois denota um instante. Já o exemplo (48) denota um evento que se prolonga por certo período de tempo, ou seja, apresenta o traço duratividade.

Apesar de a classificação proposta por Vendler (1967) ser considerada como referência para trabalhos sobre o aspecto, cabe observar que o mesmo verbo, como por exemplo, correr pode ser classificado como atividade em: Pedro corre todos os dias, ou como accomplishment em: Pedro correu a maratona de Nova York. Por essa razão, autores como Schmitt (1996), apontam que o aspecto é composicional, uma vez que em sua definição interagem tanto propriedades verbais quanto propriedades nominais do objeto que esse verbo seleciona.

Como se pode verificar, a noção de aspecto envolve diferentes questões que passam pela classificação proposta por Vendler (1967), que busca desenvolver as quatro categorias semânticas de aspecto lexical, da mesma forma que envolve diferentes valores que definem traços referentes ao dinamismo, a um ponto final pré-determinado ou à duração de uma eventualidade. A apresentação desses conceitos se faz relevante uma vez que eles serão retomados nos capítulos posteriores desta tese, que investigam as características sintático-semânticas das nominalizações. Argumentamos que as diferenças entre as duas leituras previstas (evento x resultado) para as nominalizações podem ser captadas por meio de traços aspectuais, o que torna a discussão sobre a natureza das situações (eventos e estados) relevante para o presente trabalho.