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4. Method and Data

4.4. Instrumental Variables

O trabalho de Picallo (1991) constitui um estudo sobre as nominalizações em catalão, uma língua românica, assim como o português. Sua análise inicia apontando o caráter ambíguo das nominalizações que podem se referir ao processo ou podem denotar o objeto resultante desse processo, como no exemplo a seguir extraído da autora (PICALLO, 1991, p. 289):

(42) la discussió de les dades ‘the discussion of the data’

No entanto, a autora aponta que é possível desfazer a ambiguidade, desde que seja inserido um contexto adequado, conforme exemplificado abaixo, com dados da autora (p. 289):

(43) [La discussió de les dades] va durar tot el dia. ‘The discussion of the data lasted all day’

(44) [La discussió de les dades] es va publicar a la revista. ‘The discussion of the data was published in the journal’

Segundo a autora, expressões que denotam eventos ou processos, como em (43), podem ser localizadas no tempo, mas somente seu resultado pode ser publicado, como exemplificado em (44). Assim, interpretamos a nominalização em (43) como um processo, mas em (44) ela denota um resultado. A autora aponta, ainda, que nos casos de ambiguidade, na interpretação do nominal, o morfema presente é o mesmo; entretanto, em poucos casos, o morfema pode marcar a diferença de interpretação, como demonstrado nos dados do catalão abaixo (PICALLO, 1991, p. 292), em que a nominalização em (45) refere-se ao evento, mas em (46), refere-se ao resultado (um contraste comparável a exam e examination do inglês):

(45) [A descoberta del bacil de la tuberculosi] (es va produir en 1882). ‘The discovery of the tuberculosis bacillus (was in 1882)’

(46) [El descobriment del bacil de la tuberculosi] (ha estat útil a la humanitat). ‘The discovery of the tuberculosis bacillus (has been useful to mankind)’ Assim, no exemplo (45), com o sufixo -erta, a nominalização é interpretada como evento/processo, enquanto em (46) com o sufixo -iment, a nominalização é interpretada como resultado, nos dialetos que utilizam os dois sufixos. Em relação a esses exemplos, Picallo afirma que eles constituem fatos isolados, pois, em geral, sintagmas contendo nominalizações com o Tema realizado sintaticamente, mas com a omissão do Agente são ambíguos em relação a uma leitura de evento/processo e uma leitura de resultado, na língua catalã. No entanto, esses sintagmas deixam de ser ambíguos quando o Agente é realizado. Nesses casos, o Agente é realizado em uma posição de adjunto, a leitura obtida é a de evento/processo e a interpretação de resultado é excluída. Esse fenômeno está ilustrado nos exemplos de Picallo (1991, p. 291), a seguir:

(47) la demostració del teorema de Pitàgores per part d’en Joan. ‘the proof of the theorem of Pythagoras on the part of Joan’ (48) l’observació de l’estructura neuronal per part de Ramón y Cajal. ‘the observation of the neuronal structure on the part of Ramon y Cajal’ Ao contrário, caso o Agente seja realizado em uma posição argumental na forma do Caso genitivo, obtém-se a interpretação de resultado, mas não a leitura de evento/processo, como exemplificado abaixo com dados da autora (p. 291):

(49) la demostració d’en Joan del teorema de Pitàgores. ‘the proof of Joan of the theorem of Pythagoras’

(50) l’observació de Ramón y Cajal de l’estructura neuronal. ‘the observation of Ramon y Cajal of the neuronal structure’

Isso ocorre porque os argumentos genitivos são sempre interpretados como um Tema16 nesses casos do catalão. Portanto, nomes de evento/processo em catalão não possuem a capacidade de realizar o Agente em uma posição argumental. Eles são nomes passivos (passive nominals). Nos DPs passivos, o Agente é realizado como um adjunto introduzido sempre pela locução adverbial per part de (on the part of, no inglês). Ao contrário, nomes de resultado estão na forma ativa (active nominals), cujos Agentes aparecem em posição argumental quando sintaticamente realizados.

Outro ponto abordado pela autora é o de que certos predicados proporcionam uma interpretação da nominalização em detrimento de outra. Por exemplo, predicados indicativos de propriedades (cf. exemplo (51)) ou que pressupõem um objeto (cf. exemplo (52)) proporcionam uma leitura de resultado, como exemplificado a seguir, com dados extraídos da autora (p. 293):

(51) [La demostració d’en Joan del teorema de Pitàgores] és inconsistent. ‘The proof of Joan of Pythagoras’ theorem is inconsistent’

(52) [L’avaluació de la comissió dels resultats de l’enquesta] es va enviar a

tothom.

‘The evaluation of the committee of the results of the poll was sent to everybody’

Como se observa nos exemplos acima, somente resultados (objetos) possuem a propriedade de ‘serem inconsistentes’ ou de ‘serem enviados’. Segundo a autora, os exemplos acima demonstram que os predicados que selecionam leitura de resultado aparecem em estruturas com nomes ativos, incompatíveis com nomes passivos, acompanhados da expressão per part de.

Contrariamente, predicados como take place, occur, begin, entre outros selecionam eventos ou processos. Nesses casos, os predicados podem ser acompanhados de DPs passivos, conforme exemplificado abaixo (p. 294):

16 A interpretação de Tema nos exemplos em questão é derivada da relação possuído-possuidor observada nesses casos.

(53) [L’avaluació dels resultats de l’enquesta per part de la comissió] va

començar fa dos mesos.

‘The evaluation of the results of the poll on the part of the committee began two months ago’

De modo semelhante, a inserção de modificadores temporais nas expressões nominais exclui a leitura de resultado e favorece a leitura de evento/processo, mesmo sem o Agente realizado, como exemplificado abaixo (p. 295):

(54) la modificació dels plànols durant tot un any ‘the modification of the plans during a whole year’ (55) la remodelació de les façanes abans del 1992 ‘the remodeling of the facades before 1992’

A prova de que modificadores temporais somente podem aparecer em estruturas com nomes passivos pode ser demonstrada pela agramaticalidade do exemplo abaixo, extraído de Picallo (1991, p. 295), cuja interpretação é de resultado devido ao tipo de predicado:

(56) [La modificació dels plànols *(durant tot un any)] ha estat examinada pels perits.

‘The modification of the plans *(during a whole year) has been examined by the experts’

De acordo com Picallo, o fato de expressões temporais serem possíveis somente com nominais de evento/processo corrobora a tese de que esses DPs são passivos e que seus argumentos interpretados como Agente são adjuntos quando realizados sintaticamente. Esses testes, segundo a autora, apresentam evidências para diferenciar o comportamento dos nominais de evento/processo dos nominais com leitura de resultado.

Após traçar essas distinções entre os tipos de nominais, Picallo (1991) sugere que a interpretação ambígua é possível nos nominais deverbais porque o sufixo

nominalizador pode ser analisado de dois modos distintos: como um elemento flexional ou como um elemento derivacional.

Primeiramente, quando o sufixo nominalizador é analisado como elemento flexional, o DP irá receber a interpretação de evento/processo e apresentará a estrutura expressa em (57), proposta por Picallo (1991, p. 298), na qual o sufixo nominalizador ocupa a posição de núcleo da projeção NP. Esse elemento funcional toma como complemento uma projeção lexical categorialmente neutra e domina uma raiz que é a mesma correspondente ao verbo. No componente sintático, a raiz Lº torna-se um NP por meio do movimento de núcleo. Neste caso, nominalizações de evento/processo são casos de nominalizações sintáticas.

(57)

Observa-se que a hipótese de que o sufixo nominalizador possa ser analisado como uma categoria funcional constitui uma reformulação da proposta apresentada em Chomsky (1970). Nesse trabalho, Chomsky propõe que, para explicar as regularidades existentes entre verbos e nomes, alguns elementos lexicais entram no léxico neutros em relação aos traços categoriais [N] e [V]. O objetivo do trabalho de Picallo (1991) é justamente investigar a posição lexicalista e explorar algumas das consequências que ela sugere para a teoria da sintaxe. De acordo com a Hipótese Lexicalista, a formação de uma palavra por meio da derivação ocorre no léxico e não na sintaxe: um item lexical

como destroy do inglês entra no léxico indiferentemente como verbo ou nome e, posteriormente, recebe o sufixo nominalizador -ion no nível da morfologia (pela aplicação de regras morfológicas, como na proposta de Aronoff (1976)), formando a nominalização destruction.

Em segundo lugar, quando o sufixo nominalizador for analisado como um morfema derivacional, o DP receberá a interpretação de resultado e apresentará a estrutura em (58), proposta por Picallo (1991, p. 299):

(58)

A estrutura acima corresponde à estrutura dos nominais de resultado, os quais são DPs ativos, como já apontado. Nestes casos, a sufixação é implementada na estrutura profunda (D-structure) e o seu produto constitui um caso de nominalização lexical. Segundo a autora, a estrutura proposta em (58) é a mesma para nominais não deverbais, em que a categoria NP entra na estrutura profunda sem afixo derivacional. Assim, nomes sem uma contraparte verbal possuem uma etiqueta inerentemente [+N] no léxico.

Em suma, Picallo propõe, por um lado, que o morfema nominalizador pode ser analisado como um elemento funcional, com projeção sintática e leitura de evento/processo. Esse afixo seleciona um elemento lexical categorialmente neutro e desencadeia efeitos de passivização. Por outro lado, o morfema nominalizador pode ser analisado como derivacional. Nesse caso, ele não projeta e é parte da entrada lexical do NP na estrutura profunda. Os nominais com essas características denotam resultados e são considerados nominais ativos. Assim, a nominalização com leitura de evento é

formada na sintaxe, mas a nominalização com interpretação de resultado é formada no léxico.

A proposta de Picallo (1991) distancia-se da análise de Grimshaw (1990) em dois pontos centrais: primeiramente, na análise de Picallo, tanto nomes de evento/processo, como nomes de resultado podem selecionar argumentos, a diferença está na seleção do argumento Agente, que parece estar presente na estrutura com a nominalização de evento/processo, introduzido pela preposição per, mas não na nominalização de resultado, que só pode ter esse elemento realizado na forma genitiva. A segunda diferença está no fato de a análise de Grimshaw propor que todas as nominalizações acontecem no léxico e não na sintaxe, pois é no léxico que surgem as propriedades que distinguem nomes de evento/processo e nomes de resultado, bem como os diferentes comportamentos das construções em que eles ocorrem. Entretanto, na análise de Picallo, as nominalizações que indicam processos são formadas na sintaxe e as nominalizações de resultado são formadas no léxico.

Nesse sentido, a presença do argumento com papel temático de Agente na grade temática da nominalização determina a formação da nominalização na sintaxe – e inversamente, a ausência desse papel temático de Agente determina a formação da nominalização no léxico. Tal proposta não contempla, porém, as propriedades compartilhadas por ambos os tipos de nominalização. Assumindo-se o quadro da MD, é possível captar tais propriedades em um dado nível da derivação, conforme será demonstrado a seguir.