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As categorias linguísticas tempo, modo e aspecto são amplamente reconhecidas e descritas na tradição gramatical. Conforme observado em Tonhauser (2006), tempo, modo e aspecto correspondem às categorias extralinguísticas de tempo e modalidade, assim entendidas por sua relação com o discurso por intermédio dos interlocutores e com o ponto de vista do falante, por um lado, e à categoria semântica de aspecto, por outro. O tempo localiza um evento no eixo temporal e indica, por exemplo, se esse evento ocorreu no passado ou se ele vai ocorrer no futuro. O modo marca modalidade, que é o status de um evento como real, imaginado etc. O aspecto marca as diferentes maneiras de ver a constituição temporal interna da situação e de sua duração; marca, por exemplo, se um evento é contínuo. No inglês, por exemplo, a relação entre sentenças: I

eat cake e I ate cake refere-se a uma diferença temporal; a relação entre sentenças: I ate cake e I was eating cake constitui uma diferença aspectual e a sentença Sarah might have eaten the cake (but I am not sure) ilustra um caso de modalidade (modalidade

Nesse sentido, tempo, modo e aspecto dizem respeito a eventos, não somente a verbos. Entretanto, uma vez que verbos constituem os elementos centrais dos eventos, essas três categorias são, em geral, associadas à morfologia verbal, ou são expressas por verbos auxiliares. No âmbito da Teoria Gerativa, a relação entre o verbo e as categorias de sistema TMA é expressa na projeção funcional da oração. Assumindo-se a Hipótese DP, uma questão relevante consiste em identificar as categorias funcionais na projeção estendida do nome associada à codificação dessas propriedades.

Nos capítulos anteriores, foi postulada a presença da categoria aspecto na estrutura das nominalizações, pela identificação de propriedades relacionadas ao desenvolvimento do evento descrito pela nominalização na escolha do afixo, por meio de traços presentes em um núcleo Asp (aspecto), situado na estrutura interna do DP. Ainda sobre a categoria aspecto, em algumas línguas eslavas, a oposição perfectivo/imperfectivo pode ser observada na morfologia de nomes de processo, como apontado por Alexiadou (2001), por meio dos dados do polonês, extraídos de Schoorlemmer32 (1995 apud Alexiadou, 2001, p. 50, onde PF = perfectivo e IMP = imperfectivo):

(1) a. ocenienie studentów przez nauczycieli nastąpiło szybko evaluation-PF the students-GEN by teachers occurred quickly ‘The evaluation of the students by teachers occurred quickly’

‘A avaliação dos estudantes pelos professores ocorreu rapidamente’ b. ocenianie studentów przez nauczycieli ciagnęło się evaluation-IMP students-GEN by teachers lasted REFL przez cały tydzień

through the whole week

‘The evaluation of the students by teachers lasted through the whole week’ ‘A avaliação dos estudantes pelos professores durou toda a semana’

Os dados expressos em (1) demonstram que o nome evaluation ‘avaliação’ se flexiona segundo o aspecto perfectivo (ocenienie), conforme exemplo em (1a), ou para o imperfectivo (ocenianie), conforme exemplo em (1b), assim como ocorre com o verbo

32 SCHOORLEMMER, Maaike. Participial Passive and Aspect in Russian. PhD Dissertation. Utrecht University, 1995.

correspondente nessa língua. Segundo Alexiadou, esse tipo de ocorrência constitui uma evidência morfológica para a presença da categoria aspecto na estrutura dos nomes.

Em relação à categoria modo, o presente trabalho não tem como objetivo investigar se essa é também uma categoria presente nos nomes. Cabe salientar, entretanto, que o estudo de Alexiadou (2001) afirma que essa é uma categoria ausente na estrutura nominal:

Em minha discussão sobre as propriedades morfológicas dos nomes, apontei que esses sugerem que as projeções flexionais de Voz e Aspecto estão presentes nas nominalizações. Entretanto, algumas outras categorias de flexão verbal, tais como: Tempo e Modo parecem estar totalmente ausentes. Em geral, as nominalizações parecem não ser capazes de expressar tempo e modalidade de forma idêntica aos seus verbos correlatos33 (ALEXIADOU, 2001, p. 59).

Observa-se que o posicionamento da autora diz respeito também à ausência da categoria tempo nos nomes; entretanto, como veremos nas seções seguintes, diferentes estudos defendem que essa é uma categoria presente na estrutura nominal. Verificaremos, ainda, que essa questão é controversa, já que existem estudos que vão ao encontro da posição defendida por Alexiadou (2001). Em particular, o debate consiste em saber se a categoria em questão codifica tempo ou aspecto.

O interesse em investigar a expressão de tempo em nominais tem relação com o objetivo geral desta tese, que busca estudar aspectos formais das nominalizações. Como afirmado no capítulo 1, interessa também investigar características que comprovem o paralelismo assumido na literatura entre as categorias DP e CP. Ora se a expressão de tempo pode estar presente também na estrutura de nomes, essa seria uma forte evidência para corroborar o paralelismo entre a estrutura do nome e a estrutura da sentença. Com essa discussão, acreditamos ainda ser possível aprofundar o entendimento das correspondências morfológicas entre o nome e o verbo encontradas em outras categorias.

Dessa forma, um fato que tem sido investigado na literatura é que existem línguas em que os nomes recebem marcas de tempo. É o caso, por exemplo, do somali, do tronco Afro-Asiático, do guarani, do kamaiurá, do tapirapé e do tupinambá, do

33 No original: “In my discussion of the morphological properties of nouns, I pointed out that these suggest that the inflectional projections of Voice and Aspect are present within nominals. On the other hand, certain other verbal inflection categories, such as Tense and Mood seem to be totally absent. In general, nominalizations seem not to be able to express tense and modality in manner identical to their related verbs”.

tronco Tupi (família Tupi-Guarani). A pergunta que surge é se o tempo nos nomes codifica as mesmas propriedades sintático-semânticas que o tempo na projeção da sentença. Esse constitui, portanto, o foco deste capítulo. Iniciaremos essa discussão apresentando algumas características da categoria tempo.