As diversas transformações marcadas pela vida social, económica e política nas últimas décadas, vieram dar lugar de destaque à educação, quer nos sistemas de ensino, quer nas próprias instituições enquanto organizações complexas e modernas. Em tempos de incertezas são várias as propostas em torno da educação, enquanto espaço cultural público, que procuram outros cenários e sobretudo, como refere António Nóvoa, levam à necessidade de “abrir os
30 Termo inglês que incide na aprendizagem eletrónica (electronic learning) e diz respeito a experiências de aprendizagem com suporte a tecnologias eletrónicas, nomeadamente os computadores (Correia & Pinheiro, 2012, p. 196).
48 sistemas de ensino a novas ideias” (Nóvoa, 2009, p. 17) onde a “diferença e a mudança”, a nova “conceção da aprendizagem” e o “reforço do espaço público” sejam consideradas principais linhas orientadoras dessas propostas. Hoje, para o mundo ser mais aberto e mais acessível nas várias vertentes culturais, a escola tem de encarar novos desafios, culturais e educativos, uma vez inserida numa sociedade cada vez mais globalizada, que atualmente trata do saber como um recurso económico, mas em simultâneo requer homens “globalizados instruídos, responsáveis e criativos” (Charlot, 2007, p.135), numa espécie de “contradição” que provavelmente poderá vir a ser um dos “motores da Historia” no século atual.
Os sistemas educativos públicos nacionais já não são o coerente “conjunto articulado” de instituições educativas de outrora, "pluralizou-se" tornou-se mais heterogéneo, mais “mestiço”, não obstante ser mais inclusivo é mais elitista e discriminatório (Antunes, 2005, p.1355). Se tivermos em conta que o atual papel da sociedade do conhecimento, passa no acesso para todos, na relação com os países mais desenvolvidos, julga-se não restarem dúvidas quanto à necessidade de ampliar e aplicar as tecnologias ao desenvolvimento, reduzindo o fosso entre os que têm acesso e os que não têm31. Também o ritmo acelerado de mudança na sociedade, face à realidade atual, que simbolicamente Alvin Toffler designa por “calidoscópio enlouquecido” (Toffler, 1970, p. 16) veio acentuar esse fosso. E para melhor compreensão basta observar que os países com melhor posicionamento, na chamada Nova Economia32, logo que se inscrevem profundamente em conhecimento, são os que mais e melhor proporcionam acesso à educação, cuja expansão nesta área é desenvolvida de maneira mais qualificada. É em torno deste cenário que a incorporação das tecnologias à educação deveria ser considerada, como salienta Juan Carlos Tedesco (2004), uma estratégia de âmbito global de política educativa, cujas estratégias apontariam na sua base para o “desenvolvimento de experiências,
31 É também neste contexto que se deve considerar a luta pela justiça global, enquanto luta pela “justiça cognitiva global”. Na esteira de Boaventura Sousa Santos (2007) o pensamento moderno ocidental é um pensamento abissal. Existe um universo "deste lado da linha" e o reino do "outro lao da linha", a divisão é de tal ordem que o “outro lado da linha” desaparece enquanto realidade (Santos, 2007, pp. 2-3).
32 Assumindo que esta "Nova Economia" é um conceito fruto da globalização, diz respeito não apenas às novas tecnologias, mas a novos modelos (sociais e empresariais). Para Manuel Castells a "Nova Economia" é a "Economia em Rede", caraterizada por uma nova e eficiente forma " de organização da produção, distribuição e gestão" (Castells, 2005, p. 20) que subsiste no aumento da taxa de produtividade.
49 inovações e pesquisas” (Tedesco, 2004, pp.12) evitando o surgimento de novas formas de exclusão e marginalidade.
Assim, e segundo Reginaldo Moraes (2010), as estratégias em torno do desenvolvimento necessitam de atender a duas necessidades complementares: uma política baseada na pesquisa científica avançada, na fronteira do conhecimento, sendo que esta além de exigente precisa de ser contínua; a segunda necessidade complementar converge numa política que assente numa melhor distribuição da informação e da capacitação técnico- científica, “algo que se produz por meio de programas de educação, de difusão e de extensão” (Moraes, 2010, p. 549), programas possíveis de uma convivência familiar com os “seres da tecnologia” e da ciência. É de salientar, que toda a pesquisa relevante não é do domínio exclusivo das chamadas ciências duras, o papel principal pertence ao conhecimento produzido para compreender as “relações inter-humanas”, aos “processos sociais”, à cultura e comportamento, aos modos de ação promotores de cooperação ou de conflito.
Estas estratégias acabam por permear também o compromisso da democracidade, ancorado no sistema público de ensino superior, e parece vir ao encontro da proposta apresentada por Boaventura Sousa Santos no que refere ao “novo contrato educacional” cuja proposta de reforma da universidade assume como objetivo central responder positivamente às demandas sociais pela “democratização radical da universidade”, colocando um fim à "história da exclusão de grupos sociais” (Santos, 2011b, p. 56). A reforma da universidade passa também pela redefinição dos meios educativos, que se devem estender e tornar mais acessíveis e devem oferecer outras formas (mais diversificadas) de ensino-aprendizagem.
É neste sentido, que a educação a distância também se deve ampliar para alcançar as dimensões de um autêntico “movimento popular”. Promovendo um ensino superior no qual poderão aceder e participar cidadãos de qualquer idade, e que este ensino responda às necessidades momentâneas ou permanentes em todas as idades da vida dos cidadãos, não se confiando a estruturas pré-estabelecidas, redistribuindo a educação no tempo e no espaço (Faure, 1973, pp. 267-268). Ainda na perspetiva deste autor, importa conceber antes de mais, a educação como um todo e em detrimento de outras formas de aprendizagem, numa altura em que os sistemas educativos formais privilegiam, ou tendem a privilegiar, o acesso ao conhecimento, é necessário orientar as reformas educativas, quer a nível da elaboração de programas, quer como da definição de novas políticas pedagógicas. Assim, as universidades
50 devem tornar-se “abertas” e oferecer a possibilidade de aprender a distância e em vários momentos da vida. Torna-se crucial neste processo a elaboração de conteúdos programáticos que tornem as tecnologias “verdadeiros instrumentos de ensino” (Delors,1996, pp. 102-144) e para isso é fundamental o aperfeiçoamento do ensino a distância.
À luz do exposto, hoje as transformações visíveis no ensino superior, quer nas metodologias de ensino-aprendizagem, quer em toda a sua redefinição de práticas educacionais, encontram-se numa verdadeira (re)definição, onde são cada vez mais evidenciados os contextos da educação a distância.