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Una vita violenta (1959), o segundo romance publicado por Pasolini, tem como protagonista o jovem Tommaso Puzzilli, mostrando a história do rapaz que, através de suas experiências, adquiri uma consciência humana e política. O jovem nasce em um bairro da periferia romana, em uma família miserável, sendo instado a assumir um comportamento violento e amoral, sobrevivendo através de pequenos golpes.

Por causa de uma briga, na qual ele esfaqueia outro jovem, é condenado a dois anos de prisão. Enquanto cumpre a sentença, sua família consegue uma nova residência e, quando sai da prisão, Tommaso reencontra seus entes estabelecidos em um apartamento do INA7. Fascinado pelo conforto quase de "classe média", pensa que poderá começar uma nova vida, respeitável, mas o seu sonho de ascensão social estava fadado ao fracasso. O protagonista descobre que havia contraído tuberculose e é, portanto, obrigado a se submeter a um longo tratamento, que destrói toda possibilidade de trabalho e estabilidade social.

Internado num hospital, ele conhece um grupo de pacientes politizados e começa seu processo de amadurecimento, que o torna consciente de sua condição individual e social. Recebendo alta, adere ao Partido Comunista.

É testado quando, num período de inundações, as águas do rio Aniene atingem o bairro onde vivera, ele prontamente aceita o convite dos companheiros para ajudar os necessitados. Mergulha na água e na lama para auxiliar os bombeiros. Esse gesto generoso, no entanto, lhe é fatal. Tommaso sofre um ataque de tosse, e morre.

Desde o primeiro capítulo, o narrador se detém sobre o espaço físico, a dimensão geográfica romana, na qual se movem as personagens do romance, e possibilita ao leitor traçar uma cartografia de parte de Roma. Os nomes das ruas, das vielas, dos rios, das pontes são sempre valorizados. O protagonista, Tommaso, circula pela periferia romana trazendo novamente o delineamento

7 INA – Istituto Nazionale delle Assicurazioni: foi responsável pelo programa de casas populares do governo italiano, nos anos 1950, para famílias de baixa renda.

42 da Roma dos proletários. Não é a Roma dos ricos, da burguesia, mas a Roma delimitada, marginalizada, a dos humildes que lutam pela sobrevivência, um povo à margem, que habita as baracche da borgata romana. Pasolini traça com detalhes a geografia de ruas e praças periféricas, ao longo de toda a narrativa de Una vita violenta. Percebemos que a periferia da Cidade Eterna é fundamental para o desenvolvimento de sua narrativa.

No primeiro capítulo, “Quem era Tomás”, temos a apresentação da personagem principal, Tommaso Puzzilli, que nos conduzirá neste caminho pelos caminhos da periferia romana. Ao protagonista somam-se alguns outros personagens que o acompanharão durante toda a narrativa.

Tommaso, Lello, il Zucabbo e gli altri ragazzini che abitavano nel villaggetto di baracche sulla Via dei Monti di Pietralata, come sempre dopo mangiato, arrivarono davanti alla scuola almeno una mezzoretta prima. Lì intorno c’erano già però pure altri pipelletti della borgata, che giocavano sulla fanga col coltellino.

Tornmaso, Lello e gli altri si misero a guardarli, accucciandosi intorno, con le cartelle che strusciavano sulla fanga: poi vennero due o tre con una palla, e gli altri buttarono le cartelle sopra un montarozzetto, e corsero dietro la scuola, nella spianata ch’era la piazza centrale della borgata.8

(PASOLINI: 1959, p. 09)

O protagonista tem apenas 13 anos de idade, sendo chamado pelo diminutivo Tommasino; é apenas um garoto “con la faccina tonda e lenticchiosa, che pareva sempre sporca di grasso.” 9 (PASOLINI: 1959, p. 12).

Está conhecendo o mundo de uma forma não ideal, ou seja, descobre o ambiente degradado de uma Roma violenta, de desesperados:

«Ammazzete», gridò quello che poteva essere padre di famiglia, con l’aria di un mino alle prime sparate, «come, c’hai ancora coraggio de parlà? Co’ quei diec’anni de passivo che porti dietro ’a schina?»

8 Tomás, Lello, o cabeçudo e mais outros garotos que moravam nas barracas junto aos muros de Pietralata, depois do almoço, chegaram à escola coisa de meia horita antes, como de costume. Por ali ao redor, encontravam-se já outros franganotes do bairro a jogar ao prego, na lama. Tomás, Lello e os companheiros puseram-se a observar o jogo, agachando-se a volta, as sacolas sobre um montículo de areia e correram para trás da escola, para o terreiro que era a praça central do bairro. (PASOLINI, 1965: p. 11)

9 Com aquela cara tão redonda e pachorrenta que parecia está sempre coberta de gordura. (PASOLINI, 1965: p. 14)

43 «Se! Diec’anni!» gridò beffardo Tommasino, con la faccetta scottata dalla rabbia, quasi facendosi un pianto, «ma si nun ne tengo manco tredici!».10 (PASOLINI: 1959, p. 23)

O narrador irá deter-se inúmeras vezes à descrição da paisagem que circunda esses rapazes moradores periféricos, como lemos a seguir:

Dopo le due, due e mezzo, la vita a Pietralata tornava sotto traccia. Non si vedevano che masnade di pupi, in mezzo ai lotti, o qualche donna allo sgobbo. Non c’era che sole e zella, zella e sole. Ma era ancora marzo, e faceva presto il sole a calare, giù dietro Roma. L’aria tornava in penombra e quasi gelata. Come i ragazzini risortivano fuori di scuola, era quasi l’ora del tramonto: e la borgata era ancora deserta, perché gli operai staccavano dal lavoro più tardi, il cinema aveva aperto da poco, e i due o tre bar ancora si dovevano affollare dei soliti senza speranza.11

(PASOLINI: 1959, p.11)

O pequeno Tommaso parte, seguindo seu amigo Lello pelos descampados da periferia, e esse caminhar nos permite conhecer pouco a pouco aquele mundo:

Lo staccò un’altra volta, e un’altra volta, sull’altopiano, riandò al passo. Ma stavolta gli ficcò di lasciarsi riprendere da Tommasino, che sudava come una fontanella: e scesero appaiati giù per le gobbe, verso il mucchio di catapecchie lì sotto dove abitavano, sulla strada tra Pietralata e Montesacro, poco prima del punto dove la cloaca del Policlinico sbocca nell’Aniene.

Nel villaggio di baracche era già accesa qualche luce, che si rifletteva sul fango. Gli altri ragazzini stavano giocando alla porta di casa, mentre dentro, in quelle stanzette dove vivevano in dieci o undici, si sentiva tutto uno strillare di donne che litigavano e di creature che facevano la piagnarella.12

(PASOLINI: 1959, p. 13)

10

Mata-te – gritou o tal que já podia ser pai de família, com o ar de garoto. – como é que ainda tens coragem de falar, com os dez anos de passivo que já tens às costas?

Olha, dez anos! – gritou Tomasinho, sério, a cara torcida de raiva, quase a chorar. – Mas se eu ainda só tenho treze! (PASOLINI: 1965, p. 24)

11 Depois das duas, duas e meia, a vida em Pietralata regressava à monotonia habitual. Não se viam senão grupos de miúdos, no meio dos lotes, e uma ou outra mulher na sua lida. Aquilo era apenas sol e imundície, imundície e sol. Estava-se ainda em março, de modo que o sol se punha muito cedo, lá para baixo, para lá de Roma. Caía a penumbra e o ar tornava-se quase gelado. Os rapazinhos saíram da escola, quase ao pôr do sol. O bairro estava ainda deserto, pois os operários largavam o trabalho mais tarde, o cinema abrira há pouco e os dois ou três bares estavam ainda cheios com os desesperados habituais. (PASOLINI: 1965, p. 13)

12 Parou uma vez e outra ainda, sobre a assentada, partindo de novo a passo. Mas desta vez apeteceu- lhe deixar-se alcançar por Tomasinho, que suava em bica. Desceram em par, camada abaixo, em

44 No trecho acima continuamos conhecer o modo de vida na borgata o narrador descreve não só o ambiente bem como as habitantes desses casebres.

Lello entra na barraca onde morava e Tommaso faz o mesmo; sua mãe ainda não havia preparado seu jantar e o menino demonstra sua raiva ao chorar. Depois vão todos jogar futebol de bonecos em frente às suas barracas onde moram, num local miserável:

La strada che portava a Montesacro, con l’asfalto ridotto a qualche pizza sulla polvere brecciolosa e sparsa di sporcizie e di rifiuti, andava dietro all’Aniene. Il fiume scorreva sotto delle scarpate impuzzolite, specie nel punto dove c’era lo sfocio della cloaca del Policlinico; dall’altra parte si alzavano altre scarpate, dove si vedevano case e casette, qualche cantiere, altri villaggi di tuguri.13 (PASOLINI: 1959, p. 14)

Tommaso não consegue uma mesa para jogar e, enraivecido, fica apenas observando os amigos jogarem; depois, se dirige para um local próximo a uma ponte sobre o Aniene onde verá o movimento das prostitutas:

Lì cominciò ad osservare il movimento. In pizzo al ponte, in alto, sotto una specie dí colonnetta bianca che pareva quella d’una tomba, stavano due zoccole: tutte indispettite, una con un soprabito rosso, e una con un golf di maglia nera, urtosa e scapigliata. Erano tracagnotte tutte due, con la pancia che parevano incinte, le cianche corte e grosse, due facce nere e pelose con la fronte bassa da scimmie e la borsa in mano. Se ne stavano ferme lassù, oppure facevano qualche passo avanti e indietro. Intanto dai carosielli quattro o cinque marinai, sbandati, stanno salendo tra i pini. S’arrampicarono su per lo stradello della scarpata e arrivarono accanto alle scaje in pizzo al ponte. Stettero per un po’ a chiacchierare, con quelle che rispondevano male, cattive come due cambiali in protesto, e direcção ao aglomerado de casebres onde ambos moravam, junto a estrada entre Pietralata e Montesacro, um pouco antes do sítio onde o esgoto do Policlínico desaguava no Aniene.

No povoado de barracas estava já acessa uma ou outra luz, que se espelhava na lama. Os outros garotos brincavam à porta de casa, enquanto lá dentro, nos cómodos em que se empilhavam aos dez e doze, se ouvia a caramunha de mulheres que discutiam e de crianças a choramingar.

(PASOLINI: 1965, p. 15)

13 A estrada que conduzia a Montesacro, transformada num lodaçal sobre o chão semeado de pedras e imundices, seguia ao longo do Anieno. O rio corria ao fundo das encostas fedorentas, especialmente no ponto onde desaguava a cloaca do Policlínico. Na outra margem, erguiam-se mais encostas, onde se lobrigavam casas e casebres, um ou outro barracão e mais aglomerados de tugúrios miseráveis. (PASOLINI: 1965, p. 16).

45 loro che si divertivano a vederle infregnate e a far finta di non aver bisogno dei soldi loro.

Poi alla fine compararono, e cominciarono a ridiscendere per la scarpata: le due zoccole e due marinai, gli altri stettero lassù sul ponte, fumando, ad aspettare il turno loro.14 (PASOLINI:

1959, p. 17)

Após observar esse movimento, dos marinheiros com as prostitutas, volta a buscar seus amigos, mas não os encontra. Caminha até achar o Lello, convida-o para espiar a cena dos rapazes com as meretrizes e seguem para o rio. Sentam-se protegidos por uma moita e ficam observando os dois casais.

Ao amanhecer, Tommaso vai em busca de sucatas:

Verso mezzogiorno, Pietralata era tutta fradicia, che luccicava. Sul vecchio fango secco della spianata c’era una crosticina di fango nuovo, di cioccolata, dove i maschi ruzzolavano come maialetti giocando a pallone. Tommasino reggeva in una mano il sacco vuoto dove aveva messo il ferrovecchio, l’altra mano la teneva in saccoccia, dove tutte ciancicate stavano le due piotte rimediate andando per ferro, tra i mucchi d’immondezza lungo le scarpate della Tiburtina.15 (PASOLINI: 1959, p. 21)

Mais tarde, encontra alguns amigos e para num campo onde havia uma partida de futebol; acaba forçando sua participação na brincadeira, fato que desagrada os demais garotos gerando uma longa discussão entre eles. Mas consegue entrar no jogo e se sente poderoso; comemora o seu feito: “«So’ ‘na

14 Pôs-se dali a observar o movimento. No leito da ponte, ao cimo, junto a uma espécie de colunata branca que semelhava a túmulo, viam-se duas galdérias, ambas muito enfadadas, uma com um casaco vermelho e outra com um casaquinho de malha preta, aborrecida e desgrenhada.

Eram ambas gorduchas, tinham os ventres tão empinados que até pareciam grávidas, as pernas curtas e grossas, dois rostos negros e peludos, de testa estreita, simiesca, e traziam a carteira na mão. Não se conservavam paradas lá em cima, pois davam alguns passos para cá e para lá. Entretanto quatro ou cinco marinheiros abandonaram os carrosséis, em debandada, caminhando por entre os pinheiros. Treparam pelo carreiro, encosta acima, e chegaram perto do leito da ponte.

Estiveram um pouco a tagarelar com elas que respondiam mal, más com duas letras de protesto, divertindo-se por vê-los furiosos, fingindo não terem necessidade do dinheiro deles. Por fim, chegaram a acordo e começaram a descer a encosta: as duas galdérias e dois dos marinheiros, pois os outros deixaram-se ficar sobre a ponte, à espera de vez. (PASOLINI: 1965, p. 19)

15 Pelo meio-dia, Pietralata era um lodaçal que rebrilhava. Sobre a lama seca anterior, havia agora uma camada nova, cor de chocolate, em que os miúdos se rebolavam como bacorinhos, jogando a bola. Tomasinho segurava numa das mãos o saco vazio onde metera o ferro-velho, tendo a outra mão enfiada na algibeira onde, todas amarrotadas, trazia as duzentas liras amealhadas andando à cata de ferro por entre as montureiras e ao longo das encostas da Tiburtina. (PASOLINI: 1965, p.22)

46 potenza, so’!» gridava, spalancando la boccuccia senza labbra coi quatro dentini marrone sbocconcellati”.16(PASOLINI: 1959, p. 25).

Entretanto, sua alegria dura pouco, pois logo arruma uma briga que termina em uma cena de violência: “E siccome il piccoletto non la piantava, preso da un attacco di rabbia, gli ammollò altre due lattate, e in soprappiù gli diede uno spintone che lo mandò giù,, e come fu per terra, [...] gli s’accostò e gli lasciò andare due o tre pedate alle costole.”17(PASOLINI: 1959, p.26)

Na parte final do primeiro capítulo, Tommaso, depois da briga, retorna correndo para a Pequena Xangai, procura por Lello em sua casa, mas encontra apenas um cão, que é descrito pelo narrador também como um pobre coitado: “Non c’era nessuno. Solo il vecchio cane nero sfiatato, che non si ritrovò neanche la forza d’abbaiare, digiuno com’era, e s’accontentò d’alzarsi, di guardarsi attorno [...] e lì si sdraiò sulla fanga, mista alla piscia e ai resti delle minestre.”18 (PASOLINI: 1959, p.27). Depois vai para casa e não encontra a comida pronta:

Ma la pila stava ancora a bollire sopra il fornelletto. La madre era di là, nell’altra stanza: altra stanza per modo di dire, perché era tutta una bicocca, separata solo da una tenda grigia e marcita e da una paretina di cartone sopra un’armatura di pezzi di assi di tutte le sorte, male inchiodati.19 (PASOLINI: 1959,

p.28)

Ajoelha-se e começa a fuçar próximo ao armário do cômodo enquanto seus dois irmãos, Tito e Totò, observam. O rapaz não lhes dá atenção, pelo contrário, os ignora e chega até mesmo a agredir um deles. Neste trecho do

16

Eu cá sou uma fera – gritava, arreganhando a boca, quase sem lábios com quatro dentes castanhos e salientes. (PASOLINI: 1965, p.26)

17 Como o puto não se calava, tomado dum acesso de ira aplicou-lhe outras duas latadas e a seguir um empurrão que o atirou por terra. [...] aproximou-se e aplicou-lhe ainda uns dois ou três pontapés nas costelas. (PASOLINI: 1965, p.27)

18 Não estava lá ninguém. Só o velho cão, negro e alquebrado, que nem forças teve para lhe ladrar, do jejum em que estava, e se limitou a levantar-se, a olhar à volta [...] e ali se estendeu na lama, misturada com urina e restos de comida. (PASOLINI: 1965, p. 28)

19 Mas a panela estava ainda a ferver sobre o fogareiro e a mãe na outra divisão. Outra divisão é como quem diz, porque aquilo não era mais do que um só quarto dividido por um pedaço de lona cinzenta e suja e um tabique de cartão mal pregado a umas tantas tábuas dos mais diversos feitios.

47 romance podemos notar, mais uma vez, o desespero causado pela miséria na qual viviam esses personagens; um de seus irmãos encontra um pedaço de pão velho, embaixo do armário, e logo o pega para comer:

Vedendo che Tommasino non gli dava retta, gli s’accostò ancora un poco, e gli posò la testa sopra il ginocchio, col barbozzo sulla coscia. Tommaso, infastidito, diede un colpetto in su col ginocchio, e l’altro fece un capriolo sul pavimento, contro la cassa, picchiando la cucuzza. Stette quasi per piangere lì, a pancia in aria come si trovava, ma in quel momento la sua attenzione fu attirata da un pezzetto di pane che, il mattino, gli era caduto sotto la credenza.

Rivoltò la pancetta in basso e, dopo due tre tentativi, riuscì ad acchiappare il boccone di pane, e ricominciò a succhiarlo.20

(PASOLINI: 1959, p.28)

Após se alimentar, Tommaso sai de casa apressadamente e dirige-se à escola em Pietralata: “Era già quasi ora d’andare a scuola, ormai: un po’ di sole era risortito a far luccicare il fango di Pietralata, e i ragazzini se ne stavano un po’ qua un po’ là, in attesa.”21 (PASOLINI: 1959, p.31). No fim da aula, o protagonista fica na sala limpando o ambiente, na tentativa de chamar a atenção do professor, que concentrado não percebe o esforço do rapaz, deixando-o enraivecido; o mestre demonstra um interesse e preocupação por Lello.

Tommaso acompanha o professor na saída da escola e, depois da despedida, o segue, exprimindo toda sua ira, resmungando sozinho:

“«C’hai paura! A froscio! Ma che ce troverai a Lello, quo’o stronzo morto de fame, che nun c’ha manco er padre, nun c’ha, nun è fijo de nissuno! Ma viè co’ me, che un ragazzetto

20

Ao ver que Tomás não lhe dava troco, chegou-se ainda mais a ele e pôs-lhe a cabeça sobre o joelho, o queixo assente nas coxas. Tomás, aborrecido, deu o jeito com o joelho e o miúdo rebolou no chão, batendo com o toutiço na caixa. Esteve quase a romper em choro, de barriga para o ar, posição em que ficara, mas, no mesmo instante, a sua atenção foi desviada para um naco de pão que, de manhã, lhe caíra para debaixo do armário.

Virou-se de barriga para baixo em após duas ou três tentativas, conseguiu apanhar o pedaço de pão, começando a chupá-lo. (PASOLINI: 1965, p. 29)

21 Já eram horas de ir para escola; uma amostra de sol tinha vindo refletir-se sobre a lama de Pietralata e os rapazitos espalhavam-se por aqui e por ali, à espera. (PASOLINI: 1965, p. 31)

48

bravo, io, no un pidocchioso come quello! A froscio!»”22

(PASOLINI: 1959, p.35)

Fechando o capítulo, outra cena de degrado: Lello e outros rapazes correm em busca de leite em pó, que estava sendo distribuído aos pobres por uma senhora num carro: “L’autista gli diede due tre pacchi di latte in polvere. Cominciarono a strappare i pacchi e a abbuffarsi di polvere, a manciate, che si stavano per strozzare.”23(PASOLINI: 1959, p.36)

Segundo capítulo, “Noite na Cidade de Deus” inicia-se com a busca de Tommaso por Lello. Vai encontrá-lo num baile, no salão do Partido Comunista. Era domingo, em Pietralata. O narrador se detém na descrição do ambiente e personagens presentes naquele local:

E infatti i marciapiedi, se si potevano chiamare così quelle due piste di fango e serci ai lati della strada, erano tutti pieni di giovinottelli imblusati e di militari del Forte. Era inverno, dicembre: ma faceva un caldo che si sudava, e la nebbia che copriva Pietralata e i campi attorno all’Aniene pareva il vapore di un bagno.24 (PASOLINI: 1959, p.38)

Na sequência lemos sobre a confusão criada pela apreciação de fotografias antigas do grupo de rapazes nas quais encontram um motivo de diversão, ou seja, riam das próprias imagens:

Cacciò dalla saccoccia il suo portafoglio, cominciò a smucinare delicatamente con le dita fra i reparti, e finalmente prese una fotografia, dove si vedevano lui stesso, altri amici suoi, e il Cagone.

Stavano in mutandine da bagno, in fila, quelli di dietro in piedi, quelli davanti rannicchiati: e guardavano tutti verso l’obiettivo facendo i Rudi. Tutti si gonfiavano per parere più fusti: c’era Nazzareno che pareva che stesse per schiattare per lo sforzo

22 Raios te partam! [...] - Não queres nada comigo, hã? Tens medo, ó panasca? Não sei o que acha no Lello, um merda dum miserável, não sou um piolhoso como ele, ó maricas! (PASOLINI: 1965, p. 34) 23Oà hauffeue àpassou-lhes dois ou três pacotes de leite em pó. Rasgaram os pacotes e meteram o pó à boca, às mãos cheias, a ponto de se engasgarem. (PASOLINI: 1965, p. 35)

24 De facto, os passeios, se assim se podiam designar aquelas pistas de lama e cascalho de cada banda da estrada, estavam apinhados de garotos, vestidos com camisolas, e soldados do Forte. Estava-se em dezembro, no inverno portanto, mas fazia um calor de suar e a névoa que cobria Pietralata e os campos junto ao Anieno parecia o vapor de um banho tu o. à Pá“OLINI:à1 ,àp.à3