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A cidade de Fortaleza onde surge e atua a banda de música do Corpo Policial é um espaço em constante mutação a partir de 1850. Enquanto o número de habitantes para o distrito em 1847 era de cerca de 16.000, sendo 11.417 livres (e, possivelmente, libertos) e um número aproximado de 4.583, em 1860 a quantidade de habitantes praticamente duplicou, com cerca de 35.373, sendo 32.512 livres (e prováveis libertos incluídos), diminuindo para 2.861 a quantidade de escravos315. Com a chegada da

República, foram feitos dois recenseamentos, um 1890 e outro 1900, ambos considerados “defeituosos” e imprecisos por não “exprimir a verdade” devido ao deslocamento das pessoas por causa da seca316. Ainda assim, dão ideia do aumento populacional na capital

e no estado durante este período. Os dois censos mantiveram uma média de 40.001 a 42.408 317 pessoas e para o Ceará de 805.687 a um milhão de habitantes318. Em 1918, a

população subiu para 80.000 em Fortaleza e a do Ceará para 1.200.000319. O aumento da

população demonstra a atratividade que a cidade passou a ter a partir da segunda metade do século. Este aumento foi proporcionado pelas transformações econômicas e urbanas pelas quais a cidade passou e pelas correntes migratórias de homens e mulheres do campo causadas pelos períodos de estiagem.

A urbe que se constrói na segunda metade do século é bem diferente da vila pacata, sem vida cultural pública e privada muito ativa, de comércio “limitado” com poucas possibilidades de tomar impulso no futuro, de acordo com a opinião do viajante britânico Henry Koster320. Ao contrário dos prognósticos de Kostner, o comércio de

Fortaleza passou a desenvolver-se com a chegada do pioneiro inglês Robert Singlehurst,

315 SOUSA BRASIL, Tomás Pompeu. Ensaio Estatístico da província do Ceará (edição fac-similar).

Fortaleza: Fundação Waldemar de Alcântara, 1977, p.17; 22.

316 [ALMANACH Administrativo, Estatístico, Mercantil, Industrial e Litterario do estado do Ceará para o

anno de 1900. Confeccionado por João Camara. Fortaleza: Typ. Economica, 1900], p.V [anno 6º]] (CD- ROM); Antônio Bezerra de. Descripção da cidade de Fortaleza. Revista do Instituto Histórico do Ceará. Fortaleza: [s.ed], 1895, p.150 (CD ROM).

317 ALMANACH Administrativo, Estatistico, Mercantil, Industrial e Litterario do estado do Ceará para o

anno de 1904. Confeccionado por João Camara. Fortaleza: Typ. Economica, 1903, p.VIII, anno 10º (CD- ROM).

318 [ALMANACH Administrativo, Estatistico, Mercantil, Industrial e Litterario do estado do Ceará para o

anno de 1900. Confeccionado por João Camara. Fortaleza: Typ. Economica, 1900], p.V [anno 6º]] (CD- ROM).

319 ALMANACH Estatistico, Administrativo, Mercantil, Industrial e Literario do estado do Ceará para o

anno de 1918. Director e organizador: Sophocles Torres Camara. Fortaleza: Typ. Moderna-Carneiro & Cia, 1918, p.XIII, 21º anno (CD-ROM).

que aportou na cidade na década de 1830 e foi responsável pela fundação da Casa Inglesa, estabelecimento de negócios de exportação de produtos agropecuários. Singlehurst foi seguido por vários outros ingleses que chegaram à cidade para atuar no mercado local321.

Dentre estes, destacamos Richard Hugges, presidente da primeira Associação Comercial da Praça do Ceará, criada em 1868 e da União Cearense, o futuro Clube Cearense, espaço privilegiado de manifestações artísticas322 e onde a banda da polícia se apresentou. A

diminuição da produção americana de algodão, ocasionada pela sua Guerra Civil (1861- 1865) 323, ajudou Fortaleza a consolidar-se como capital e principal polo econômico da

região na segunda metade do século, em razão da exportação de algodão nos anos de 1860 e 1870324. A situação cearense foi auxiliada ainda pelas melhorias feitas no porto da

capital e pela implementação da estrada de ferro Baturité – Fortaleza em 1873, que interligou a região e ajudou a trazer o algodão, o café e outros produtos do interior para a capital325. Outras linhas foram sendo construídas nas décadas seguintes como a linha de

Fortaleza – Arronches (1873) e Pacatuba (1876). Durante a seca de 1877 criou-se uma nova linha que ligou Camocim – Sobral (1878), posteriormente Camocim – Granja (1881), além da inauguração da estação de Sobral (1882). Durante a Primeira República ainda foram construídos os prolongamentos de Crateús (1912) e a de Ibiapaba (1918)326.

Uma questão que afetou particularmente a economia e a sociedade do Ceará foi a seca. A irregularidade das chuvas que ocasionou longos períodos de estiagem no Ceará mexeu profundamente com a região e com a cidade de Fortaleza. A seca sempre existiu no Ceará, mas devido a um conjunto de fatores ela se tornou um problema particularmente significativo a partir da segunda metade do século XIX. Neste período, a produção agrícola, até aí pouco “integrada às regras do mercado”327e pensada mais como

uma agricultura de subsistência, sofreu profundas transformações. A pecuária,

321 GIRÃO, Raimundo. Economia e comércio. In: Geografia Estética de Fortaleza. Fortaleza: Casa de José

de Alencar. 1997, p.101-103; Cearense, 21de junho de 1853, p.3-4.

322 Raimundo Girão menciona uma quantidade expressiva de ingleses que abriram suas lojas e empórios na

cidade de Fortaleza e que também exerceram lugares de destaque na sociedade local. Dentre eles, John William Studart, que foi comerciante e primeiro vice-cônsul da Inglaterra no Ceará, pai de Guilherme Studart, o Barão de Studart, médico e intelectual atuante em Fortaleza na segunda metade do século XIX, fundador do Instituto Histórico do Ceará (GIRÃO, Raimundo. Economia e comércio. In: Geografia Estética

de Fortaleza. Fortaleza: Casa de José de Alencar. 1997, p.101-103; AZEVEDO (Nirez), Miguel Ângelo. A

herança do Barão. In: Arquivos do Barão de Studart. Coordenação geral José Augusto Bezerra. Fortaleza: Instituto do Ceará, 2010, p.23, 29).

323 FARIAS, op. cit., 2012, p.168. 324 PONTE, op. cit., 2010, p.18. 325 Idem, p.18-19.

326 FARIAS, op. cit., 2012, p.172-173.

327 NEVES, Frederico de Castro. A seca na história do Ceará. In: SOUZA, Simone de (Org.). Uma nova

particularmente a criação de gados foi, em função os períodos de estiagem, deslocada para lugares mais úmidos. Contudo, a lei de valorização da terra como bem econômico em 1850 e o avanço da cultura algodoeira para o comércio internacional deram origem a uma agricultura mais comercial e sedentária o que tornou a transferência de gados impossível. As terras disponíveis para uma pecuária nômade diminuíram em função do avanço da cultura do algodão que ficou mais valorizada328.

A primeira grande seca que o Ceará enfrentou nesta época foi a de 1877-1879. A inexperiência da região frente a esta situação fez com que a seca de 1877 se tornasse um marco e entrasse para a história do Ceará, com impacto até na cultura local. A longa estiagem deste período provocou um êxodo em direção à capital do estado, que recebeu em torno de 100 mil retirantes para uma população local que não contava mais que 27 mil habitantes. Esses retirantes (chamados de “flagelados” a partir de 1915) chegavam à cidade e ocupavam as praças, ruas, calçadas e o Passeio Público. Para uma cidade onde o “aformoseamento” dos espaços públicos materializavam estratégias de “modernização”, “civilização” e “progresso”, aqueles “invasores” surgiram como perturbadores dessa “nova sensibilidade burguesa”329. Neste período os retirantes trabalharam na construção

da estrada de Ferro de Baturité e no calçamento das ruas centrais. Em 1878 houve uma epidemia de varíola em que chegaram a morrer 1004 pessoas em um único dia330. Nos

jornais, o assunto sobre os retirantes era tratado com uma conotação moral e de maneira sensacionalista, enfatizando os “vícios do corpo” (doenças) e os do “espírito (os crimes, a prostituição, a mendicância, a vagabundagem)” como fatores que “corroíam o tecido social e ameaçavam as conquistas da modernidade conseguidas nos anos anteriores”331.

A próxima grande seca ocorreu em 1915. Desta vez a experiência foi vivida de forma diferente, embora ainda impactante. Entre estas duas estiagens foram colocadas em prática algumas políticas públicas de controle. Entre elas, a criação da Hospedaria Geral dos Emigrantes, em 1889, depois a Inspetoria de Obras Contra Secas (o IOCS), em 1909, com objetivo de criar um sistema de barragens e açudes, e o Campo de Concentração do Alagadiço332. Este último era designado de “curral”, cercado e situado

na periferia da cidade onde o retirante era colocado sem poder sair. Neste espaço eram distribuídos alimentos e tratados os indivíduos doentes. No entanto, o que este ambiente

328 Idem, p.76-80.

329 NEVES, op. cit., 2007, p.86. 330 Idem, p.83.

331 Ibidem, p.80-84. 332 Ibidem, p.85-87.

demonstrou foi que a concentração de pessoas num ambiente pouco higiênico proliferava as doenças e a sujeira. A imagem de um grande número de cadáveres, empilhados ao lado do cercado, esperando para que fossem enterrados em vala comum, rapidamente chegou ao conhecimento público. Esta experiência acentuou a necessidade de se criarem mecanismos de prevenção e planeamento por parte da administração governamental para “dirigir ou controlar as rotas de migração dos retirantes”333. Uma das estratégias

implementadas foram os trabalhos públicos próximos aos lugares de origem dos retirantes e de suas famílias. A construção de barragens e açudes surgiu neste contexto334. A seca

produziu um forte abalo econômico na vida dos moradores do interior, afetando a oferta de trabalho disponível para o pouco qualificado povo do sertão. A “necessidade” de sair e migrar para Fortaleza em busca de novas oportunidades foi um dos motivos que fez com a corporação policial e a banda de música atraíssem e alistassem mais pessoas vindas do interior do que da capital, situação que pode ser conferida nos livros de assentamentos dos policiais, a partir de 1895335.

Em paralelo com a economia agroexportadora, houve um aumento das firmas estrangeiras de importação e exportação que contribuiu para o crescimento do comércio local e a constituição de um mercado de trabalho urbano336 que perdurou por toda a

Primeira República. Para além disso, o processo de industrialização se desenvolveu timidamente com a instalação da primeira fábrica têxtil no ano de 1883 e das citadas tipografias nas décadas anteriores337. No fim do Oitocentos, o modelo agroexportador

entrou em crise e o algodão local passou a suprir o abastecimento interno das fábricas de fiação e de tecidos que foram surgindo em Fortaleza, Aracati, Sobral e para a indústria de tecelagem de redes338. Durante a Primeira República a economia cearense não alterou sua

estrutura baseada na agricultura e no comércio de exportação e importação que, contudo, permaneceu em crise. Neste período instalaram-se também fábricas de cigarros, de doces, bebidas, roupas, chapéus e, a partir de 1920, deu-se o crescimento das indústrias de óleos vegetais, representando, no entanto, um “processo industrial” inexpressivo se comparado a outras regiões do Brasil339.

333 Ibidem, p.88.

334 Ibidem, p.84-89.

335 Este assunto será discutido no capítulo 6. 336 PONTE, op. cit., 2010, p.18-19.

337 FARIAS, op. cit., 2012, p.301. 338 Idem, p.176.

Mesmo considerado inexpressivo em comparação com as grandes cidades do país, a instalação de maquinário gráfico em Fortaleza proporcionou a abertura de casas tipográficas, o desenvolvimento do comércio de impressos e a presença de casas importadoras na cidade. Estas contribuíram para o desenvolvimento de um mercado local de música com a impressão de partituras e sua comercialização, para além de lojas de importação de instrumentos musicais. Além deste comércio houve também um aumento na circulação de partituras de compositores locais, no formato de manuscritos ou impressas, vendidas nas livrarias ou doadas por meio de oferecimentos. Tudo isto ajudou a fomentar a presença de compositores locais e de sua produção, abastecendo o repertório da banda da polícia, de bandas particulares, formadas ocasionalmente para um evento específico, e das futuras bandas das associações e bandas civis.

Duas livrarias se destacaram no período do Império mantendo-se até ao princípio da Primeira República: a de Joaquim José de Oliveira e Cª e a de Gualter Rodrigues Silva340. Na livraria e papelaria de Joaquim José de Oliveira e Cª, existente na

cidade desde 1857 e funcionando com esse nome até ao início de 1900341, vendia-se um

estoque de livros literários, científicos, históricos, mas também outros produtos como preparados medicinais, perfumes, produtos para cabelo e barba e sementes de hortaliça342.

Na vertente musical possuía uma rica variedade de livros como “gramaticas musicaes”, ou seja, livros de teoria musical, métodos de canto e de piano, partituras para piano e de canto e piano343. Vendia por assinatura a revista Amphion, publicada quinzenalmente em

340 Além destes dois principais livreiros existentes na Fortaleza da segunda metade do século XIX, Ozângela

de Arruda Silva elenca o predecessor Manoel Antônio da Rocha Júnior que possuía uma loja de mercadorias diversas na década de 1840, onde também oferecia livros para vender. Concomitante às lojas de Joaquim José de Oliveira e Gualter Silva surgiram outras livrarias de curta duração como a de Afio Bezerra de Menezes, aberta em meados de 1865, a livraria do Sr. Rangel, em 1867, Satyro Verçosa, em 1870 e a livraria evangélica do Sr. Lacy Wardlaw, primeira no gênero, funcionando de 1880 a 1901 (SILVA, Ozângela de Arruda. Pelas rotas dos livros: circulação de romances e conexões comerciais em Fortaleza (1870-1891). Fortaleza: Expressão Gráfica e Editora, 2011).

341 [ALMANACH Administrativo, Estatistico, Mercantil, Industrial e Litterario do estado do Ceará para o

anno de 1901. Confeccionado por João Camara. Fortaleza: Typ. Economica, 1901], p.124, [anno 7º] ] (CD- ROM).

342 Pedro II, 31 de março de 1887, p.3.

343 Partituras de canto e piano vendidas na livraria de Joaquim e informadas no anúncio do jornal: “AUBER-

Fra Diavolo e Muda di Portici; MASSENET – Rei de Labore e Erodiade; BEETHOVEN – Fidelio; CIMAROSA – Matrimonio Secreto; DONIZETTI – Anna Bolena, D. Paschoal, Favorita, Filha do Regimento, Lucia de Lammermoor, Gemma de Vergy, Linda de Chamounix e Lucrecia Borgia; GLUCK – Orpheo e Euridice, MERCADANTE – Juramento; MEYERBER – Propheta, Dinorah, Huguenotes e Toberto do Diabo; MOSART – D. João; PACINI – Sapho; PERGOLESI – La Serva Padrona; ROSSINI – Cenerentola, Barbeiro de Sevilha, Conde d’Ary, Guilherme Tell, Moysés, Otello e Semiramis; SPORTINI – Vestal; VERDI – Trovador, Ernani, Traviata, Rigoletto, Lombardos, Macbeth e Dois Foscari” (Pedro II, 31 de março de 1887, p.3).

Lisboa e que incluía algumas músicas para piano nas suas publicações344, além de vender

o periódico Gazeta Musical do Brasil345. Outra importante livraria e papelaria em

Fortaleza foi a de Gualter Rodrigues Silva, iniciada por volta da década de 1880 e mantida por sua viúva de 1891 até 1900346 quando passou a ser propriedade de Militão Bivar347.

Esta casa comercial vendia um amplo sortimento de diferentes assuntos musicais como “modinhas, recitativos, romances, árias, canções, melodias”, “ouvertures célebres”348,

músicas para piano349. No início da primeira República, a loja Favorita anunciava que

vendia músicas francesas, italianas e espanholas350.

Nos estabelecimentos de Joaquim de Oliveira e Gualter Silva vendia-se papel de música, “de todos os formatos”351, em anúncio exclusivo para venda deste produto,

demonstrando a importância deste material para o comércio e a circulação de partituras. A atividade de copiar partituras foi bastante significativa em Fortaleza, comprovada, por exemplo, pela existência de uma grande quantidade de partituras manuscritas existentes no acervo da Polícia. Em 1868 existia a copisteria352 dos compositores Herculano José

de Almeida e M. L. de Moraes que mantinham um copisterio musical para escrituração de “toda e qualquer encomenda”353. Na relação de suas vendas aparecem composições

dos dois músicos, valsas, hinos, modinhas e peças teatrais, com letras de escritores cearenses como José de Alencar e Juvenal Galeno354. Em 1876 Joaquim Manoel Borges

344 Constituição, 31 de julho de 1888, p.4. 345 Pedro II, 13 de novembro de 1862, p.4.

346 [ALMANACH Administrativo, Estatistico, Mercantil, Industrial e Litterario do estado do Ceará para o

anno de 1900. Confeccionado por João Camara. Fortaleza: Typ. Economica, 1900], p.125, [anno 6º]] (CD- ROM).

347 SILVA, op. cit., 2011, p.62.

348 Constituição, 29 de abril de 1888, p.4.

349 “Ave Libertas- hymno, Cecy – quadrilha, A crioula – quadrilha lundú-tango” (Libertador, 26 de julho

de 1883, p.1).

350 A República, 27 de novembro de 1897, p.1 351 Gazeta do Norte, 09 de julho de 1881, p.4.

352 Copisteria era o lugar onde se faziam cópias manuscritas de partituras. Os editores de música poderiam

dispor de uma copisteria para produzir “cópias manuscritas para venda e aluguel de materiais para execução” ou de obras editadas. Nos teatros europeus, como o de São Carlos em Lisboa, era comum possuir sua própria copisteria a fim de produzir suas cópias direcionadas aos espetáculos da casa (CYMBRON, Luísa Mariana de Oliveira Rodrigues. Capítulo VI – O Repertório. In: A ópera em Portugal (1834-1854):

o sistema produtivo e o repertório nos Teatros de S. Carlos e de S. João. 1999. Tese de Doutorado (Doutorado em Ciências Musicais, especialidade Ciências Musicais Históricas), Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1999, p.264).

353 Cearense, 01 de março de 1868, p.3. Nos anúncios dos jornais, o título da notícia alternava entre

“Cospiteria” ou “Copisterio musical”. Mesmo sendo uma palavra italiana, os anunciantes davam a entender que os leitores do jornal entendiam a palavra como sendo de uso comum entre os interessados ou porque a palavra já havia entrado no vocabulário dos músicos cearenses como uma palavra “aportuguesada” daquele período.

354 O Adeus ao Soldado, hino para canto e piano com música de M.L. Moraes e poesia de Juvenal Galeno;

Sonhei; modinha, duo para canto e piano, de M.L. Moraes e poesia de Juvenal Galeno; Prazeres do Bailes,

anunciava seus serviços como compositor, “habilitado para satisfazer toda e qualquer encomenda concernente a música”355. Pedro Gomes do Carmo, músico civil, pardo e que

integrou a banda da polícia por volta dos anos 1880356, também fazia cópias de suas

composições para vender, por exemplo a quadrilha Lanceiros, composta por ocasião da aproximação do Carnaval e vendida na casa do autor por 2$500 réis357. Essa prática se

perpetuou durante o regime político seguinte com a continuação do oferecimento dos serviços feito por anúncios nos jornais. Lucila Basile cita o “professor Athayde Cavalcante” que aceitava “escriptas avulsas” nas áreas de “piano, dactilographia e escripturação musical” e o copista Gilberto Petronillo que se dizia “desenhista de música para clichê”358.

Algumas músicas de compositores locais foram litografadas em Fortaleza como a valsa Tito Rocha e a valsa Reform Club, esta última litografada a pedido da associação homônima, ambas compostas por Pedro Gomes do Carmo359. Exemplares das

composições impressas eram oferecidas aos jornais que as divulgavam através de nota360.

Algumas destas composições eram impressas pelas livrarias e tipografias da cidade. Joaquim de Oliveira ofereceu ao jornal Gazeta do Norte um exemplar do Hymno Republicano Cearense composto por Manoel Magalhães, músico civil que atuou como maestro e compositor na banda da polícia nos anos de 1873 e 1874361; a valsa Phenix

Caixeiral, de Pedro Gomes do Carmo, foi impressa na “litographia a vapor” pelo autor e oferecida à sociedade homônima362. Em fins da década de 1920 surgiram as primeiras

casas que editavam partituras em Fortaleza. Uma delas foi a loja Torre Eiffel, fundada em 1890, que vendia inicialmente artigos de roupa masculina363. Em 1911 a casa comercial

já era propriedade de Paulo Moraes e Filhos364 que, no fim dos anos 1920, além de vender

chapéus e gravatas para homens, cintas elásticas para homens e mulheres, vendia também

Barcarola, canção italiana para canto e piano; Ludovina, valsa para piano de M.L.Moraes; Picolo, peça

teatral para piano; Luciola, peça teatral para piano (Cearense, 01 de março de 1868, p.3).

355 Cearense,19 de julho de 1876, p.4.

356 Sua trajetória será discutida no capítulo 6 da tese. 357 Libertador, 13 de fevereiro de 1886, p.3.

358 BASILE, Lucila Pereira da Silva. Piano na praça. Música “ligeira” e práticas musicais no Ceará (1900-

1930). 2015. Tese (Doutorado em História Social da Cultura). Programa de Pós-Graduação em História,

Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, 2015, p.233.

359 Cearense, 27 de outubro de 1882, p.2; Cearense, 08 de julho de 1884, p.2. 360 Cearense, 27 de outubro de 1882, p.2.

361 Gazeta do Norte, 17 de fevereiro de 1890, p.2. A trajetória de vida desse compositor será estudada no

capítulo 6 da tese.

362 Revista Primeiro de Maio, 1891, p.34. 363 Gazeta do Norte, 26 de agosto de 1889, p.2. 364 Jornal do Ceará, 23 de dezembro de 1911, p.2.

“músicas dançantes para piano, pequena orchestra com piano e bandas musicaes: Fox- trots, Valsas, Sambas, Tangos argentinos e Ragtime […] musicas didacticas […]”, recebendo mensalmente “novidades das Edições Guanabara, Triangulo e Americana” que editavam “material dos filmes cantados”365. Mudando o nome depois para Casa Editora

Torre Eiffel, a Casa editou peças para piano, tais como a valsa lenta Ayrtes de Aristóteles Ribeiro e letra de Pierre Luz e o tango-canção Irene de Mozart Ribeiro e letra de J. V. Murinely366. Outra importante editora que se destacou neste período foi a Casa Editora

Ceará Musical de propriedade do professor Antônio Mouta367. Esta casa editou um

número significativo de obras de compositores locais, particularmente de piano e que as punha à venda ao público em sua loja. É o caso da valsa Tua Imagem de Mozart Donizetti368, Miss Nubia de autoria de Vincenzo Cozza e letra de Pierre Luz369, o fox-trot

Ninita (Miss Moderno)370, Livro de minh’alma, tango-canção de Lucy Barroso e letra de

Pierre Luz371, todas elas ofertadas a jornais que, como era de praxe, faziam o

agradecimento público e, em troca, divulgavam a música372. A Associação Nacional de

Editores de Música (A.N.E.N.M.), que tinha como membro a Casa Ceará Musical, promoveu, no ano de 1931, um concurso nacional de piano que decorreu no Rio de