7.1 Intervjureferat
7.1.7 Intervjureferat 190321 Jon Roger Sørvang – Statens Vegvesen Lofoten
Os fatores biomecânicos estão relacionados à repetitividade dos gestos, realização de esforços excessivos, manutenção de posturas forçadas e esforço estático exigido pela atividade. Um tempo de recuperação insuficiente aumenta significativamente os efeitos dos fatores biomecânicos (APTEL; CAIL; GERLING, 2000).
2.4.2.1 Repetitividade dos gestos
A atuação da repetitividade dos gestos como única causadora dos Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho vem sofrendo modificações ao longo do tempo. Como já explicado anteriormente, a denominação Lesões por Esforços Repetitivos – LER caiu em desuso, uma vez que os esforços repetitivos não constituem a única causa dessa síndrome, o que fez com que essa nomenclatura fosse substituída pelo termo DORT, que trazia na sua definição a suspeita da multifatorialidade dessas patologias (MUSSI, 2005). Mas, mesmo não sendo a única causa, a repetitividade aparece como um fator biomecânico que apresenta maior importância na ocorrência de DORT em punhos de trabalhadores (APTEL; CALL; ALBERT-CUVELIER, 2007).
Para Couto, Nicoletti e Lech (2007), ciclos muito curtos sem o devido tempo de recuperação da fadiga são um dos principais fatores na origem dos distúrbios dos membros superiores. Embora se possa dizer que esses membros são adaptados a movimentos de grande velocidade, há limite para a sua repetição. Assim, ao realizar um esforço, após encurtamento, o tendão gasta certo tempo para voltar à posição de disponibilidade a uma nova contração muscular. As pesquisas indicam que os ciclos curtos se tornam um risco muito significativo quando, em decorrência dos mesmos, há acima de 6.000 repetições por turno de trabalho. Para empregados submetidos a essas condições, sem pausas ou outros mecanismos de regulação, é esperado que venham a apresentar algum distúrbio ou lesão. Embora tenhamos apresentado aqui limites de repetição levantados pela pesquisa científica, eles devem ser considerados apenas como referências devido ao grande número de interferências que existem sobre o fator repetitividade.
Para o Instituto Nacional de Pesquisa em Seguridade da França – INRS, a repetitividade é definida como o número de movimentos por minuto de uma articulação. Para outros autores, a repetitividade é definida como o número de vezes que a mão toca um elemento da tarefa no posto de trabalho ou pela duração do ciclo de trabalho (a repetitividade é importante se os tempos do ciclo forem inferiores a 30 segundos ou se uma atividade repetitiva é exercida por mais de 50% do tempo do ciclo de trabalho). Pelo check-list da OSHA, o critério para julgar se um movimento é repetitivo é a existência de movimentos idênticos ou comparáveis efetuados a intervalos de qualquer espaço de tempo. Ou seja, não existe consenso entre os autores para definir a repetitividade (APTEL; CALL; ALBERT- CUVELIER, 2007).
Saldanha et al. (2007), estudando rendeiras de bilro da vila de Ponta Negra (Natal/RN), chegaram à conclusão que mesmo as artesãs estando submetidas a alta taxa de repetitividade de gestos na execução de suas atividades não foram encontrados, na pesquisa realizada, evidências de patologias do grupo dos DORT entre elas. Eles atribuem o fato à existência do domínio do processo de produção e do ritmo de trabalho, à ocorrência de pausas, à satisfação no trabalho e à falta de hierarquização rígida do processo de produção.
2.4.2.2 Esforços excessivos
No que concerne aos esforços excessivos, existe uma limitação de, aproximadamente, 15% da força máxima própria a cada indivíduo para aplicações constantes. Acima disso, esses esforços, notadamente os de preensão, fragilizam os tendões e os músculos. O esforço de preensão digital (pinça) é geralmente mais solicitado do que o esforço de uso da mão na sua totalidade. Outras vezes o punho ou o ombro são mais solicitados do que o membro superior como um todo. Por essas razões é que o membro superior deve ser analisado por partes. A parte mais exigida depende da natureza da tarefa a ser executada e explica as diversas localizações dos DORT no membro superior. Os esforços mantidos por longo tempo são particularmente nocivos para certos músculos. Assim, uma atividade que exija longa duração de manutenção de uma postura única em um trabalho com computador levará à mialgia do trapézio – um músculo do ombro (APTEL; CALL; ALBERT-CUVELIER, 2007).
Esforços extremos feitos com os membros superiores são de alto potencial lesivo, especialmente porque, nessas condições, as pausas e os rodízios são mecanismos ineficazes de compensação. Também são críticos os esforços intensos em pinça (lateral, palmar e pulpar) e a compressão palmar, pois nesses casos ocorre sobrecarga mecânica sobre a base da mão, onde termina o nervo mediano. Destacamos ainda a compressão digital fazendo força, pois os tendões das mãos são estruturas muito frágeis, aptas apenas para movimentos e não para força. Também a movimentação de pesos freqüentemente contribui para distúrbios e lesões (COUTO; NICOLETTI; LECH, 2007).
2.4.2.3 Manutenção de posturas forçadas
As posturas articulares são um dos componentes dos fatores biomecânicos. Desde que as diferentes articulações sejam solicitadas e mantidas, em ângulos superiores aos ângulos de conforto, a probabilidade de surgimento dos DORT aumenta, independente da repetitividade do gesto ou do esforço realizado. Um exemplo disso é realização de operações com a necessidade de colocação dos braços acima da linha dos ombros (APTEL; CALL; ALBERT- CUVELIER, 2007).
As principais posições forçadas de risco potencial para os membros superiores são: estender, flexionar ou torcer o pescoço de forma forçada; trabalhar com os braços acima da cabeça; abdução ou flexão de ombros freqüentes, prolongadas ou com esforço; desvio ulnar do punho em associação à força; flexão e extensão do punho (COUTO; NICOLETTI; LECH, 2007).
2.4.2.4 Esforço estático
A fisiologia do trabalho distingue duas formas de atividade muscular: a dinâmica e a estática. O exemplo de uma atividade dinâmica é girar a roda de uma manivela e o da estática é segurar um peso com o braço esticado. No trabalho estático a irrigação sangüínea é tão mais diminuída quanto maior for a produção de força. Se a força representa 60% da força total, a irrigação sanguínea fica quase que totalmente interrompida. Em esforços menores, uma
pequena circulação é possível, devido ao estado menos contraído do músculo. No caso de 15% a 20% da força máxima, a circulação sangüínea da musculatura trabalhando estaticamente será praticamente normal (GRANDJEAN, 1998).
As principais situações de contração estática envolvendo membros superiores e pescoço são: pescoço excessivamente fletido ou estendido; pescoço torcido ou inclinado; braços mantidos acima do nível dos ombros; braços suspensos; preensão manual mantida e sustentação de carga com membros superiores (COUTO; NICOLETTI; LECH, 2007).