Em busca de uma responsável participação por parte dos alunos é crucial que a escola transmita uma atitude positiva, procurando valorizar as dimensões sociais e emocionais ao longo do processo de aprendizagem de cada criança ou jovem. Na realidade, a chave do sucesso escolar passa não só por uma promoção cognitiva, como também por um ajustado desenvolvimento das aptidões emocionais e sociais. Dito de outra forma, a base de uma aprendizagem está relacionada com a disponibilidade para aprender novos conceitos. Sem esta aptidão dificilmente o sujeito adquire conhecimentos, mesmo que esteja na posse de
excelentes condições cognitivas. Na ausência de equilíbrio emocional a aprendizagem torna-se morosa e desorganizada, o que torna claro que a relação que estabelecemos com o nosso eu é imprescindível para um desenvolvimento global harmonioso. As escolas devem, assim, certificar-se que todos os seus educandos beneficiam de um ajustado desenvolvimento emocional (Promover a Saúde da Juventude Europeia, 1999; Alcántara, 2000).
É cada vez mais notória a associação dos problemas de aprendizagem aos problemas emocionais vivenciados no seu núcleo familiar, e no caso concreto dos maus-tratos. Como pudemos constatar, uma das consequências deste fenómeno social são os problemas emocionais e afectivos que consequentemente tem implicações no processo de aprendizagem. Acreditando que parte do sucesso académico passa por ajustar a componente emocional e afectiva dos alunos, sejam ou não sujeitos de risco, consideramos que a implementação de um projecto no contexto escolar que promova o desenvolvimento emocional é, sem dúvida, uma boa estratégia preventiva para futuros problemas. Deste modo, é fundamental que as crianças consigam identificar, compreender e expressar as suas emoções, principalmente aquelas que se sentem dentro de uma esfera de sentimentos opostos. O caminho a traçar é promover a capacidade das crianças para terem o domínio dos seus sentimentos e em gerir as suas emoções. Assim, o aspecto curativo destes programas com crianças com problemas emocionais é: ao trabalhar as emoções, pode-se, paulatinamente, ajudar a construir uma nova base emocional que seja equilibrada e positiva. Através desta base saudável, as crianças com perturbações emocionais podem tentar compreender o outro e desenvolver a sua consciência. Por outro lado, este trabalho pode ser uma estratégia preventiva dos maus-tratos, uma vez que o aluno ao aprender a exprimir as suas emoções e sentimentos reduz a possibilidade de manifestar comportamentos menos saudáveis num acontecimento emocionalmente complexo (Depondt, Kog e Moons, 2004; Azevedo e Maia, 2006).
Ao implementar um programa desta natureza, os agentes educativos estão a permitir aos alunos o desenvolvimento de uma auto-consciência no sentido de conseguirem identificar as suas emoções, potenciar as suas habilidades e competências e reconhecer as suas limitações. Outro aspecto importante é a possibilidade de se proporcionar um espaço para a gestão das emoções: o aluno compreende o que está por detrás de um sentimento e aprende como lidar com emoções negativas, como a raiva e a tristeza. Educar as emoções é
tornar as crianças emocionalmente inteligentes62, de modo a que consigam lidar com as suas emoções, com os seus conflitos intra e interpessoais, e que, paralelamente, aprendam a ser empáticos com os sentimentos dos outros (Goleman, 1995; Azevedo e Maia, 2006)63. O facto da escola poder proporcionar estabilidade relacional e emocional favorece o processo de resiliência, não só porque fornece figuras, através dos professores e outros agentes educativos, que temporariamente substituem as falhas familiares, mas também porque podem alterar as formas de entender os seus sentimentos e os dos outros. Assim, é fundamental que a comunidade educativa procure tentar desenvolver junto dos seus educandos as seguintes dimensões: a auto-estima; a confiança; o optimismo; a autonomia e a independência; as emoções, a compreensão pelo outro e a empatia (Anaut, 2005).
De acordo com alguns autores, existem algumas estratégias essenciais para se conseguir desenvolver a dimensão emocional no meio escolar que incluem várias etapas. Em primeiro lugar, o agente educativo tem de tomar consciência das emoções da criança. Para tal será necessário desenvolver uma auto-consciência das suas emoções enquanto pessoa; compreender e aceitar que as emoções estão dependentes de vários factores e, portanto, são expressas de diferentes formas; ter capacidade para partilhar as suas emoções, quer sejam vividas positivamente ou negativamente; ter respeito pelos sentimentos das pessoas com quem se relaciona e não colocar em causa os direitos das mesmas; aceitar e valorizar todas as emoções/sentimentos expressas pelas crianças; orientar a criança a reconhecer e a aceitar os sentimentos dos outros; desenvolver um sentimento de empatia e não utilizar uma linguagem depreciativa ou irónica que possa de alguma forma impedir a expressão dos sentimentos das crianças; ter atenção aos medos, comportamentos menos adequados e somatizações (ex. dor de cabeça, vómitos, entre outros) que são expressos pelas crianças (Gottman e DeClaire, 1999; Azevedo e Maia, 2006).
Posteriormente, é importante que o educador perceba e aceite a emoção como uma oportunidade para a intimidade e a aprendizagem. Para desenvolver esta etapa, é importante que transmita empatia e compreensão durante as experiências das crianças e crie laços de intimidade orientando-as a enfrentar os seus sentimentos. Paralelamente, o
62 O termo Inteligência Emocional foi utilizado pela primeira vez por Peter Salovey e Jonh Mayer,
psicólogos do Departamento de Psicologia da Yale University (Branco, 2004).
63 O constructo da Inteligência Emocional foi desenvolvido por Goleman e quer dizer: “ capacidade
de a pessoa se motivar a si mesma e persistir a despeito das frustrações; de controlar os impulsos e adiar a recompensa; de regular o seu próprio estado de espírito e impedir que o desânimo subjugue a faculdade de pensar; de sentir empatia e de ter esperança “ (1995, pp. 54).
agente educativo deverá procurar ter uma atitude calma nas situações em que a criança tenha necessidade de expressar sentimentos negativos e não demonstrar ansiedade que a situação termine. Assim, é fundamental que tenha a noção que os sentimentos negativos só desaparecem quando a criança tem a oportunidade de falar deles e entendê-los. Paralelamente, o educador deverá adoptar uma postura empática e valorizar os sentimentos das crianças, prestando atenção à linguagem verbal e não verbal e desenvolver uma comunicação bilateral. É importante que a criança perceba que pode confiar e sentir segurança na presença do educador (Gottman e DeClaire, 1999; Azevedo e Maia, 2006). Em terceiro lugar, orientar a criança a dar nomes às suas emoções. Normalmente, a criança desconhece o nome do sentimento que vivência e educar emoções passa por conseguir ajudar a criança a classificá-lo. Por outro lado, é necessário fazer entender à criança que é normal ela sentir sentimentos confusos e opostos num mesmo momento (Gottman e DeClaire, 1999; Azevedo e Maia, 2006).
Por fim, para terminar a orientação emocional é imprescindível que se estabeleçam limites e se ajude a criança a resolver o seu problema emocionalmente. Depois de escutar e classificar a emoção sentida pela criança é natural que haja necessidade de resolver a situação e para isso são precisas 5 fases: 1) estabelecer limites, isto é, a criança saber que existem comportamentos correctos e incorrectos e os últimos não podem ser tolerados; 2) identificar os objectivos a alcançar com a criança; 3) considerar as várias opções possíveis para solucionar o problema; 4) avaliar com a criança as possíveis soluções, tendo por base os valores familiares e/ou morais e 5) ajudar a criança a optar por uma solução (Gottman e DeClaire, 1999; Azevedo e Maia, 2006).
De salientar que esta proposta de intervenção preventiva que privilegia uma educação das emoções não resolve de todo a problemática dos maus-tratos mas, na ausência de estruturas nucleares, a escola pode ser um fio condutor para um desenvolvimento harmonioso do aluno. Contudo, a intervenção preventiva da comunidade educativa deverá dar “especial atenção à educação das emoções, não como exclusão de outro tipo de programas mas
juntamente com eles!” (Branco, 2004, pp.75).