4.2 Design and methods
4.2.3 The interviews
Com os trabalhos de Bronfenbrenner (1979) cresceu a preocupação com o significado dos factores sócioecológicos no desenvolvimento humano. De um modo geral, assume-se que circunstâncias ambientais adversas no contexto familiar influenciam negativamente o desenvolvimento das relações familiares e extrafamiliares.
Viver em condições económicas difíceis poderá ter um impacto negativo, por exemplo, na maneira como a mãe interage com o seu recém-nascido. Ser pobre, viver num ambiente limitado onde não há possibilidades de satisfazer os desejos, pode levar uma mãe a sentir frustração e stress havendo, provavelmente, reflexos na sua relação com o bebé (Rubin et ai., 1990). Isto é, há possibilidades das condições económicas deficitárias interferirem com a habilidade da mãe no sentido de ser menos sensível e receptiva às necessidades da criança. O desemprego, a pobreza, em suma, a falta de recursos económicos influenciam negativamente o mundo das relações familiares, quer entre os pais quer entre pais e filhos, e esta influência permanecerá ao longo da infância. A pobreza associa-se à angústia, à punição e à inconsistência das atitudes parentais no processo de educação dos seus filhos (Parker et ai, 1995).
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Conjuntamente com as condições socioeconómicas do contexto familiar actuam as condições pessoais e sociais dos pais. Estas condições incluem variáveis como a presença de doença mental num dos pais (depressão e esquizofrenia) e a eficácia do suporte familiar e extrafamiliar (amigos, comunidade). Todas estas condições podem exacerbar ou inibir o impacto negativo dos contextos sócioecológicos. Pais com um ajustamento deficitário ou que sofrem algum grau de doença mental podem estar incapazes de providenciar um ambiente seguro e estimulante para o desenvolvimento sócioemocional dos seus filhos (Putallaz & Heflin, 1990), bem como podem não apresentar um comportamento e suporte social adequados. Por exemplo, famílias onde pelo menos um dos pais sofre de depressão são menos expressivas emocionalmente do que as famílias com pais psicologicamente saudáveis.
A situação de divórcio, a família monoparental e a hostilidade entre o casal estão também relacionados com as interacções sociais pobres da criança com os seus pares, incluindo dificuldades em estabelecer relações de amizade. Estas crianças exibem mais problemas de comportamento sendo, provavelmente, alvo de rejeição pelos pares (Parker et ai, 1995). Problemas e conflitos conjugais podem exercer um impacto negativo no ajustamento social da criança através do efeito debilitante e indirecto do comportamento dos seus pais; mas também afectam directamente a criança na medida em que lhe fornecem modelos de comportamento interpessoal agressivos e coercivos (Emery, 1992). Por outro lado, este comportamento parental indica atitudes negativas na educação dos seus filhos como, por exemplo, a insensibilidade e a não receptividade.
Assim, não é surpreendente que a inadaptação comportamental da criança e, por vezes, a rejeição de que é alvo estejam associadas a um stress crónico do seu contexto familiar e à sua desvantagem socioeconómica. As relações entre os factores contextuais e o ajustamento da criança aos pares são complexas, mas não necessariamente directas; provavelmente são mediadas, em primeiro lugar, pelas atitudes e práticas educativas dos seus pais.
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3. AS CONSEQUÊNCIAS
O estudo do desenvolvimento normal e o estudo da psicopatologia são mutuamente enriquecedores, pois as leis que governam o desenvolvimento normal são também as que governam a psicopatologia (Cicchetti, 1984). Sroufe (1997) entende que os distúrbios comportamentais e emocionais são construções desenvolvimentais reflectindo uma sucessão de adaptações, ao longo do tempo, de acordo com os princípios que governam o desenvolvimento normal. Cicchetti e Bukowsky (1995) enfatizam a posição de que as relações entre o estudo dos processos do desenvolvimento normal e o estudo do risco e da inadaptação são bidireccionais. No que se refere ao relacionamento com os pares, a investigação relativa aos processos normais tem revelado um conjunto de poderosos factores antecedentes, consequentes ou modificadores do fenómeno, que constituem indicadores da inadaptação. Por outro lado, estes estudos salientam a importância de se abordarem os factores de risco na compreensão dos processos desenvolvimentais. Identificando os processos e os constructos mediadores da inadaptação estar-se-á a contribuir para a compreensão do desenvolvimental normal. Na perspectiva desenvolvimental a inadaptação é encarada como envolvendo inadaptações sucessivas das pessoas aos seus ambientes. A inadaptação não se resume ao indivíduo nem a uma expressão de patogenia endógena, mas a um resultado complexo de múltiplos factores de risco e protectores que operam com o decurso do tempo. É a combinação única entre os factores de risco e protectores que governa a emergência da inadaptação (Sroufe, 1997). No que diz respeito ao domínio social, a popularidade da criança no grupo e o facto de esta ter amigos constituem factores protectores do seu bem-estar. Ser-se rejeitada e não ter amigos são encarados como factores de risco no desenvolvimento de inadaptações futuras da criança. Sroufe (1997) propõe um modelo explicativo que entende a psicopatologia como um resultado desenvolvimental. Da aplicação deste modelo ao estudo da competência social deficitária, especificamente ao fenómeno da rejeição social, decorrem implicações importantes acerca do modo de conceber esta problemática. Assim, os distúrbios devem ser encarados como um desvio que se desenvolve ao longo do tempo, ou seja, a patologia é um desvio desenvolvimental. A compreensão dos
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distúrbios requer o conhecimento dos dados desenvolvimentais normativos, bem como dos vários modelos de adaptação positiva. Deste modo, a patologia reflecte o fracasso repetido na adaptação. Por exemplo, uma competência social deficitária poderá resultar da rejeição crónica de que a criança é alvo, pois cada vez mais se vai afastando ou desviando do processo normal. Uma segunda implicação deste modelo refere que existem múltiplos percursos para um resultado semelhante (princípio da equifinalidade). No domínio da psicopatologia do desenvolvimento, a equifinalidade pretende explicar a variedade de percursos desenvolvimentais que conduzem a um determinado resultado inadaptado, e examina a diversidade das origens e dos processos que levam a um resultado comum (Cicchetti & Rogosch, 1996). Relativamente ao domínio social, uma competência social deficitária pode advir de múltiplos percursos desenvolvimentais; complementarmente, diferentes resultados podem advir de percursos desenvolvimentais semelhantes (princípio da multifinalidade). Segundo este princípio, alguma "componente" pode operar diferencialmente no indivíduo, dependendo da organização em que se inscreve, com resultados que podem ser diversos (Cicchetti & Rogosch, 1996). O fenómeno da rejeição social poderá ser um dos exemplos no domínio social, pois são diversas as possibilidades de inadaptações futuras (abandono escolar, criminalidade, etc.) que têm a sua origem na rejeição social. A mudança é possível em muitos pontos do desenvolvimento, no entanto, pode ser constrangida por adaptações prévias. O funcionamento humano é flexível, a mudança e o potencial para a mudança está na plasticidade dos processos envolvidos na vida do indivíduo. De um modo geral, a plasticidade refere-se à variabilidade intra-pessoal, ao apreender das condições organísmicas e contextuais que promovem ou limitam a mudança na estrutura e/ou função. Há também limitações impostas pelas características do organismo, pelo seu contexto actual e pela sua experiência anterior. Dadas as considerações desenvolvimentais mencionadas e o âmbito da disciplina científica - psicopatologia do desenvolvimento - pretende-se, de seguida, analisar a investigação, assim como os principais modelos que têm como meta a compreensão das implicações futuras de uma competência social deficitária.
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