• No results found

Socio-cultural learning perspective

In document ‘I`ll make a damn good nurse’ – (sider 40-48)

Fundamentalmente nas duas últimas décadas, os investigadores começaram a especular acerca da etiologia das dificuldades com os pares focando-se, particularmente, nas vias através das quais as características parentais e os modelos de interacção familiar podem influenciar o desenvolvimento social da criança e o seu ajustamento aos pares (Bierman & Smoot, 1991). Neste ponto pretende-se responder às seguintes questões: Quais são os aspectos da competência social que a criança aprende no contexto interaccional pais-filhos? E como os transfere, directa ou indirectamente, para as suas interacções com os pares?

Uma resposta possível refere que as interacções pais-filhos influenciam o estatuto sociométrico da criança porque afectam a sua cognição social, habilidades sociais, incluindo a resolução de problemas sociais (Putallaz, 1987), bem como as

Os défices de competência social: percursores e consequências 51

expectativas da criança face aos resultados das suas estratégias sociais (DeKovic & Janssens, 1992). Uma referência obrigatória relativamente aos modos de influência parental no estatuto sociométrico do seu filho é o modelo de Putallaz e Heflin (1990). Este modelo é uma síntese dos estilos e actividades parentais que estão associados à competência social e ao estatuto sociométrico da criança. Através da Figura 4 pode-se observar que as autoras hipotetizam o próprio comportamento da criança como mediador da relação entre os modos de influência parental e o seu estatuto sociométrico. Os comportamentos dos pais são retratados como afectando os filhos em termos: de motivação social, de comportamentos ou habilidades sociais, e de compreensão das interacções sociais. Por sua vez, todos estes efeitos na criança vão condicionar o seu nível de aceitação social entre os pares.

As autoras do modelo distinguem dois modos de influência parental no desenvolvimento do estatuto sociométrico da criança: o directo e o indirecto. O modo directo afecta a aquisição de comportamentos sociais, a motivação e a cognição da criança. A maneira como os pais influenciam directamente o comportamento social dos seus filhos foi sistematizada através de quatro modos de aprendizagem: o condicionamento clássico, a modelagem, o condicionamento operante e o treino. Este último modo de aprendizagem, o treino, apresenta implicações face aos outros três modos de influência parental; ou seja, quanto maior for o treino da criança pelos seus pais, maiores serão os efeitos dos outros modos directos de influência parental. O modo indirecto refere-se às oportunidades que a criança dispõe para estar exposta às interacções sociais, na medida em que o seu contexto familiar pode minimizar ou maximizar os contactos sociais, e assim condicionar o impacto dos quatro modos directos de influência parental.

Os défices de competência social: percursores e consequências 52

MODOS DE INFLUENCIA PARENTAL EFEITOS NA CRIANÇA

CONDICIONAMENTO CLÁSSICO . Pais afectivos e receptivos; . Qualidade da vinculação

mãe-filho.

MODELAGEM

. Competência social dos pais; . Orientação parental face às

interacções sociais. CONDICIONAMENTO OPERANTE . Reforço de comportamentos socialmente desejáveis; . Punir/ignorar comportamentos socialmente inadequados; . Evocação de respostas. AUMENTA OS EFEITOS DOS OUTROS MODOS TREINO Discussão de emoções e de estratégias de interacção; Modos combinados de aprendizagem. MOTIVAÇÃO SOCIAL . Tendência para iniciar ou

evitar interacções sociais; . Sentimento de segurança e de auto-confiança. COMPORTAMENTOS SOCIAIS . Aquisição de comportamentos socialmente competentes e de comportamentos inadequados. COGNIÇÃO: CONTROLO . Capacidade para regular uma

interacção;

. Reconhecimento gradual do afecto, quer pessoal quer dos

outros;

. Aquisição de estratégias para as interacções.

ESTATUTO SOCIOMÉTRICO

INFLUENCIA INDIRECTA (Afecta a Influência e/ou Impacto

dos Outros Modos)

. O contexto maximiza ou minimiza os contactos sociais;

. Frequência das interacções pais/filhos

Os défices de competência social: percursores e consequências 53

MacDonald e Parke (1984) e Putallaz (1987) verificaram que filhos de pais afectivos e receptivos apresentavam um estatuto social mais elevado, explicando estas associações mediante um mecanismo de condicionamento. A criança desenvolve, através de um processo semelhante ao do condicionamento clássico, fortes associações (positivas ou negativas) nas suas interacções sociais, tendo por base as suas relações com os pais. Filhos que possuem um suporte e uma ajuda parental adequadas em diversas situações irão, provavelmente, exibir um comportamento social positivo nas interacções com os seus pares. Ou seja, aquilo que a criança experiência no contexto familiar será transferido para as suas relações com os pares e para o contexto escolar em geral (DeKovic & Janssens, 1992). Por outro lado, o controlo parental é também crucial no que se refere ao desenvolvimento da competência social da criança (Putallaz & Heflin, 1990). Algum grau de controlo parental parece estar relacionado positivamente com a competência da criança face aos pares, contudo um excesso de controlo sem afectividade produz o efeito inverso.

Ambas as componentes do comportamento parental, suporte e controlo, estão incorporadas nos dois maiores estilos educativos parentais identificados na literatura: o democrático e o autoritário. Sucintamente, os pais que assumem um estilo democrático tentam orientar o seu filho explicando as razões para o cumprimento das regras; reconhecem a sua individualidade encorajando-o verbalmente e comprometendo-se, em conjunto, na tomada de decisões, apresentando um elevado grau de afectividade e de aceitação. Os pais que evidenciam um estilo autoritário exigem que o filho cumpra as regras sem fornecerem explicações, restringem a autonomia da criança e reservam as tomadas de decisão unicamente para si, sendo menos receptivos e aceitadores dos seus filhos (Dekovic & Janssens, 1992). No que respeita aos estilos educativos parentais existem diferenças, nas interacções pais-filhos, em crianças populares e rejeitadas. Os pais da criança popular parecem adoptar um estilo democrático quando interagem com o seu filho; recorrem a estratégias indirectas e persuasivas como sugestões e explicações verbais; fornecem mais suporte; são mais encorajadores utilizando o reforço positivo; parecem mais sensíveis aos sinais do seu filho e envolvem-se mais com ele. Os pais da criança rejeitada tendem a assumir um estilo autoritário; exibem menos emoções positivas em resposta ao seu filho e, geralmente, criticam o seu funcionamento pessoal e

Os défices de competência social: percursores e consequências 54

o seu comportamento nas tarefas sem darem informações acerca do que está errado e instruções de como deveria ser realizado; quando tentam influenciar o comportamento do filho são directivos recorrendo a ordens, proibições, agressões físicas ou realizam as tarefas do seu filho em vez de o ajudar a descobrir as suas próprias soluções.

Bierman e Smoot (1991) apresentaram um modelo mediacional através do qual explicam de que forma a disciplina punitiva e ineficaz dos pais está relacionada com a exibição de problemas de conduta da criança nos contextos familiar e escolar, os quais, por sua vez, predizem interacções sociais pobres com os pares. É claro que, neste modelo, os problemas de conduta desempenham um papel mediador entre as práticas disciplinares punitivas e ineficazes parentais e as interacções sociais pobres da criança no seu grupo de pares; contudo, os autores referem que o modelo representa uma trajectória desenvolvimental, mas não a única possível. Também alertam para o facto do processo desenvolvimental ser interaccional; as dificuldades com os pares promovem condutas disruptivas na criança conduzindo, por sua vez, a uma disciplina parental rígida, bem como ao processo causal inverso.

O papel do afecto familiar é determinante para a competência social da criança (Trianes et ai, 1997). Anteriormente salientou-se o papel do afecto nas relações de vinculação; um outro modo de abordar o afecto familiar é através do estudo das interacções pais-filhos, tendo subjacente que a qualidade afectiva das relações familiares influencia a competência social da criança face aos iguais. MacDonald e Parke (1984) estudaram a qualidade afectiva nas relações pais-filhos e demonstraram que esta qualidade constitui uma variável preditora da aceitação pelos pares e da competência social da criança. A estimulação verbal e a afectividade positiva dos pais estão associadas à competência da criança face aos seus pares. Os resultados dos seus estudos revelaram que as crianças populares vivenciam situações de jogo físico com os pais onde eles exibem afecto positivo (situação laboratorial). Em contraste, nesta situação de jogo, crianças rejeitadas pelos pares são frequentemente estimuladas em excesso pelos seus pais e as suas interacções são menos calmas e coordenadas. Crianças negligenciadas pelos seus pares são passivas nas suas interacções com os pais, pois eles empenham-se menos na situação de jogo com os seus filhos.

Os défices de competência social: percursores e consequências 55

E fundamental que a criança possua habilidades para lidar com os afectos, pois estas são reguladoras da sua acção e são aprendidas, predominantemente, nas interacções com os pais. Entre os três e os sete anos a criança deverá adquirir três grupos de habilidades para lidar com os afectos de modo a vivenciar interacções sociais eficazes com os seus pares (Trianes et ai, 1997). Um grupo refere-se às habilidades que implicam o reconhecimento das expressões emocionais no outro, de modo a que a criança possa adequar as suas respostas; um segundo grupo de habilidades implica a compreensão das causas e das consequências de uma emoção; e, um terceiro, está relacionado com a aquisição de controlo e de manejo das respostas emocionais em contextos sociais.

A maneira como os pais experienciaram a sua infância tem implicações no modo como interagem, actualmente, com os seus filhos. Ou seja, os pais têm recordações e representações acerca das suas interacções com os pares durante a sua infância. Assim, moldam as suas preocupações em relação aos filhos de acordo com as suas experiências passadas, o que se reflecte nas suas estratégias de acção (Putallaz, Costanzo & Klein, 1993). Mães com uma imagem positiva das suas relações com os pares na infância são mais atenciosas e julgam os seus filhos como sendo mais competentes socialmente comparativamente às mães com representações negativas relativas aos seus relacionamentos na infância (Putallaz, Costanzo & Smith, 1991). Mães que relembram a sua infância como tendo sido isolada socialmente esforçam-se para que os seus filhos tenham experiências bem sucedidas com os seus pares.

Em síntese, muitos dados e questões metodológicas nesta área estão, ainda, por ultrapassar. No entanto, a investigação existente suporta a conclusão geral de que as crianças bem sucedidas socialmente têm mães (e, quando examinado, também pais) que possuem uma orientação afectiva mais positiva, mais competente, recorrendo predominantemente ao raciocínio indutivo, sendo também menos negativas e coercivas nas suas interacções com os filhos. Os limites da natureza correlacionai destes estudos devem ser sempre tidos em consideração. De um modo geral, as crianças rejeitadas têm mais interacções negativas com os seus pais e, consequentemente, não beneficiarão das interacções com os pares, evidenciando, assim, défices de competência social. O seu

Os défices de competência social: percursores e consequências 56

mundo social pode ser caracterizado como desagradável e as suas relações como conflituosas. Estas crianças estão duplamente em risco sendo necessários esforços de intervenção para as ajudar. Esta intervenção deve estar relacionada com a família pois se se dirigir unicamente à criança (como os programas de treino das habilidades sociais) o seu sucesso será parcial; se a qualidade das interacções pais-filhos não for modificada é possível que a criança, em pouco tempo, regresse ao seu repertório comportamental anterior.

In document ‘I`ll make a damn good nurse’ – (sider 40-48)