2.3 HUMANITARIAN AID AND INTERNAL WARS: THE SECOND GENERATION DEBATE
2.3.2 Interventionist Approaches
Charaudeau (2007a; 2010a), ao delimitar o quadro ideal de tratamento das emoções, diz que o analista do discurso deve levar em consideração o fato de que o signo linguístico por si só não garante a prova da existência da emoção no discurso, uma vez que a significação não se encontra pura e simplesmente nesse signo. Dessa forma, a emoção também é construída a partir de marcas enunciativas, e não apenas linguísticas, estabelecidas pelo contrato comunicacional. Para o autor “[...] a análise do discurso tem por objeto de estudo a linguagem, enquanto produtora de sentido em uma relação de troca, visto que ela traz em si mesma o signo de uma coisa que não está nela, mas da qual é portadora.” (CHARAUDEAU, 2010a, p. 25)
O efeito pathêmico de um enunciado, segundo o teórico, pode ser obtido pela utilização (ou não) de certas palavras e também de palavras certas. Dito de outro modo, o sujeito enunciador geralmente tem à sua disposição palavras que podem variar em níveis de transparência de carga emocional. Segundo Charaudeau (2007a, 2010a), trata-se de palavras que, em ação, discursivizadas, de maneira mais ou menos transparente, têm altas chances de fazer insurgir no outro um estado emocional, de lhe provocar um efeito pathêmico. Passemos, na sequência, às três possibilidades elencadas pelo estudioso.
A primeira delas é a de recorrer a palavras tais como raiva, horror e ódio,
próprios sentimentos, sensações, emoções a que elas correspondem. São signos linguísticos que parecem estar presos às suas significações primeiras, denotativas, designando automaticamente, per se stante, as emoções. Diríamos, então, que a palavra horror, por exemplo, sempre vai estar ligada ao sentimento de mesmo nome –
horror – como uma negatividade, independente da cultura, do tempo e do espaço, ou
seja, independente da situação vivida e da situação de comunicação na qual ela está sendo usada. Entretanto, a presença dessas palavras “transparentes” no enunciado não significa nem que o sujeito que as emprega as sinta, nem que elas efetivamente produzirão as emoções que lhe são correspondentes. (CHARAUDEAU, 2010a). Cabe registrar que o que acabamos de dizer serve, inclusive, para qualquer umas das três circunstâncias elencadas pelo linguista.
Valendo-nos, ainda, de mais um exemplo, temos a palavra culpa (e, por extensão, seu adjetivo correspondente culpado), que está indissociavelmente ligada a uma falta cometida, ao sentimento de culpa, à violação de uma prescrição moral ou ética, enfim, à constatação de um erro embasada em julgamentos de valor coletivamente compartilhados. No entanto, culpa/culpado pode ser (ou referir-se) tanto a causa quanto o efeito de um mal, algo que acaba por suscitar, inevitavelmente, nos interactantes, esse estado pathêmico de mesmo nome.
Trazendo essa primeira possibilidade e esses exemplos para o corpus analisado, vemos que o Advogado Imperial, ao finalizar seu discurso de acusação, se dirige aos juízes afirmando que “[...] sendo Flaubert o principal culpado, é para ele que deveis reservar vossa severidade!”18 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b,
p. 317 – grifo nosso). Vemos, nessa assertiva, que Pinard imputa a Flaubert faltas cometidas e espera que ele seja severamente punido pela justiça. A palavra culpado, mesmo fora do contexto em questão, se ligaria a culpa por pressupor uma falha, um erro, um crime. Culpa/culpado contam, assim, com cargas, valores semânticos específicos que lhe são intrínsecos. Quando utilizada pelo advogado de acusação durante o julgamento de Flaubert, a palavra culpado adquire, então, automaticamente, uma intensa força emotiva orientada: com ela, Pinard busca convencer, persuadir, sensibilizar, emocionar os jurados para que eles acatem o direcionamento visado pela promotoria: o reconhecimento da culpa de Flaubert, sua condenação e sua punição.
18 No original: « Quand à Flaubert, le principal coulpable, c’est à lui que vous devez réserver vos
Ainda para Charaudeau (2007a, 2010a), a segunda possibilidade do enunciador pathemizar é usar palavras que, apesar de não terem uma ligação direta com os sentimentos, ou seja, não serem transparentes como na primeira possibilidade, são suscetíveis de expressar estados pathêmicos. Palavras como assassino,
conspiração, vítima, herói, fraternidade e trabalhador, por exemplo, apesar de não
corresponderem direta e indissoluvelmente a sentimentos, estão indiretamente ligadas a eles e são, por essa razão, fortes candidatas ao engendramento de pathemias em qualquer contexto, em qualquer discurso.
Valemo-nos de outro enunciado retirado do corpus, para exemplificar essa segunda possibilidade elencada por Charaudeau. No discurso do advogado de defesa, temos a palavra coragem utilizada na seguinte passagem: “[…] Sr. Flaubert não é somente um grande artista mas um homem de coragem, por ter nas dez últimas páginas do livro despejado todo o horror e o desprezo sobre a mulher e todo o interesse sobre o marido.”19 (SENARD, 1857 apud FLAUBERT, 2007b, p. 336 –
grifos nossos). Vemos que Sénard, aparentemente pathemizado, constrói uma frase de forte impacto emocional, ao referir-se ao romancista como grande artista e como alguém corajoso por posicionar-se moralmente em sua obra a respeito de questões vividas por suas personagens, ao seu trabalho e às suas convicções morais. Além de utilizar duas palavras que se encaixam na primeira possibilidade – horror e desprezo –, ele lança mão da palavra coragem, que não traduz diretamente um sentimento, mas contém força semântica o bastante para desencadear pathemias. Coragem, independentemente da situação de comunicação em questão, nos remeteria a uma positividade, a um senso moral intenso, visto que é geralmente usada para aludir à força, ao ânimo, enfim, a estados pathêmicos tidos coletivamente como positivos. Acreditamos que, no enunciado de Sénard, o uso da palavra coragem não é aleatório; ele ajuda a construir positivamente o ethos do réu e, ao mesmo tempo, a pathemizar o auditório e, por conseguinte, inocentar Flaubert do crime supostamente cometido.
Há, por fim, uma terceira possibilidade, ou seja, um terceiro grupo de palavras, as tidas como não-transparentes, que não designam diretamente e tampouco indiretamente os sentimentos. São palavras que, dependendo do sujeito enunciador, de seu poder discursivo estratégico em construir suas visadas, enfim, de todo o universo
19
No original: « M. Flaubert n'est pas seulement un grand artiste mais un homme de coeur, pour avoir dans les six dernières pages déversé toute l'horreur et le mépris sur la femme, et tout l'intérêt sur le mari! » (SENARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 655 – grifos nossos)
comunicacional no qual são usadas, podem vir a desencadear efeitos pathêmicos no interlocutor. Nesse sentido, a palavra porta, por exemplo, estaria longe de pertencer à primeira e também à segunda circunstância. Ela não pode ser considerada como transparente no sentido de designar nem direta nem indiretamente um sentimento. Entretanto, no enunciado “O Sr. é uma porta!” a palavra porta perde aqui seu significado primeiro, denotado, para adquirir um sentido outro, conotado, metafórico e, com isso, pode (ou não) servir aos fins do enunciador para expressar uma emoção e/ou levar o interlocutor a um estado pathêmico. No exemplo acima, tudo leva a crer que o enunciador estaria tentando, por exemplo, agredir o interlocutor comparando-o a uma porta, ou seja, recorrendo a uma metáfora para dizer que ele não é inteligente ou que não tem sentimentos.
Buscando, agora, um exemplo que ilustre essa terceira possibilidade de
pathemização na e pela palavra na Correspondance de Flaubert, temos o seguinte
enunciado para demonstrar como ele se encontra diante de uma situação específica: “Estou frito!” 20 (FLAUBERT, 1980, p. 656 – grifo nosso). A palavra frito, em seu
sentido primeiro, dicionarizado, denotado, não se liga, nem direta nem indiretamente, a nenhuma emoção, logo não pode ser considerada pertencente ao primeiro ou ao segundo grupo de palavras tratados por Charaudeau. No entanto, quando discursivizada, textualizada como na carta de Flaubert, a palavra frito adquire força conotativa, é usada como metáfora e passa a significar, dentre algumas possibilidades, que Flaubert está em apuros, em maus lençóis, em situação difícil diante de algo, logo, muito provavelmente, pathemizado. Além disso, ao se expressar com essa figura de retórica, pode também levar seu interlocutor a estados emocionais tais como a
preocupação e a aflição. Cabe, enfim, repisar que o uso da palavra frito por Flaubert
nessa carta pode (ou não) ser intencional e pode (ou não) levar o interlocutor a experenciar esses sentimentos.
Vemos, assim, que as três possibilidades elencadas por Charaudeau levam em conta vários fatores, incluindo-se a finalidade, o como, o quando, o por quem e o porquê, enfim, a situação de comunicação como um todo. Ainda que precise ser mais e melhor pesquisado, percebemos que o leque de palavras transparentes (primeira possibilidade) é bastante restrito, visto que se limita àquelas que se referem aos sentimentos. Quanto às palavras não-transparentes (segunda e terceira possibilidades),
parece que o maior ou menor grau de suscebilidade de pathemização estaria ligado às forças denotativas e conotativas, à polissemia, às significações mais usuais ou mais ocasionais das palavras em uso. O que acabamos de conjecturar nos leva à importância dos efeitos pathêmicos e aos três tipos de condição que, segundo o estudioso, dependem esses efeitos. Passemos a eles:
i) […] que o discurso produzido se inscreva em um dispositivo comunicativo cujos componentes, a saber, sua finalidade e os lugares que são atribuídos previamente aos parceiros da troca, predisponham ao surgimento de efeitos patêmicos […];
ii) […] que o campo temático sobre o qual se apoia o dispositivo comunicativo preveja a existência de um universo de patemização e proponha certa organização das tópicas susceptíveis de produzir tal efeito […];
iii) […] que no espaço de estratégia deixado disponível pelas restrições do dispositivo comunicativo, a instância de enunciação se valha da mise en scène discursiva com visada patemizante […]. (CHARAUDEAU, 2010a, p. 39-40 – grifos do autor)
A partir dessas condições apresentadas por Charaudeau, estamos convictos de que as emoções são tratadas em nosso corpus como uma categoria de efeitos visados no e pelo discurso. No capítulo de análise do corpus, atentamos para as finalidades do atos comunicacionais por parte dos dois advogados e de Flaubert, sujeitos que ocupam e (re)conhecem seus lugares nas mise en scènes comunicacionais e demonstram consciência e controle dos cenários montados como propícios ao surgimento dos efeitos pathêmicos. Com isso, (re)compomos, ainda que parcialmente, o universo sociodiscursivo, os saberes partilhados de crença, os estereótipos, os lugares-comuns, dentre outros elementos presentes nos textos dos dois advogados e de Flaubert, com o objetivo de ver nesse universo as estratégias de pathemização. Para tanto, ponderamos sobre temas partilhados entre os interlocutores envolvidos como, por exemplo, as funções dos escritores e da crítica, a força de um romance sobre a educação de jovens na sociedade francesa burguesa do século XIX, os papéis sociais das mulheres, o adultério e o suicídio.
Seguindo, ainda que parcialmente, os quatro princípios propostos pela teoria Semiolinguística (CHARAUDEAU, 1993, 2007a), vemos que os dois advogados parecem dominá-los. Isso porque ambos demonstram ter consciência da situação de comunicação específica do tribunal, levam em conta a existência do outro (o adversário), as posições sociais ali assumidas por todos os envolvidos – (i) alteridade; ambos constroem estratégias para fazer com que o(s) outro(s) entre(m) em seus
universos discursivos – (ii) influência; Pinard e Sénard, cada um a seu tempo e a seu modo, tentam regular o dizer e o dito e concluir com sucesso a troca comunicativa – (iii) regulação; ambos têm a certeza de que estão falando da mesma coisa, tratando do mesmo assunto e de que estão partilhando os mesmos ambientes discursivos – (iv)
pertinência.
Levamos em consideração, ainda, os três lugares de pertinência, a saber: i) o da instância de produção dos discursos da acusação e da defesa; ii) o da instância de recepção desses discursos que envolve os advogados, o júri, o réu, o auditório e nós leitores; e iii) o do texto como produto, ou seja, o processo judicial estenotipado e, posteriormente, traduzido, textualizado. Procedendo dessa forma, tratamos tanto do
fazer quanto do dizer, tanto das instâncias enunciativas envolvidas quanto do contexto
psicossocial e histórico dessa situação específica de comunicação – o processo judicial. (CHARAUDEAU, 2006a)
Finda a exposição das contribuições de Charaudeau para o entendimento da problemática que envolve a noção de pathos, passemos às reflexões de Plantin sobre as emoções.