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THE GENERAL "STATE OF THE ARTS"

Ao estudar, dentre outras coisas, a noção de pathos e a inscrição das emoções no discurso, Plantin percorre a evolução, as várias aplicações do termo e seus correlatos ao longo do tempo e expõe como disciplinas afins abordam a problemática das emoções no discurso, como elas as nomeiam e sob que perspectiva. Com isso, ele dialoga com pesquisadores os mais variados como, por exemplo, os filósofos da Antiguidade Clássica – Aristóteles, Cícero e Quintiliano29, que defendem que as

emoções têm uma razão de ser, uma razão de existir e que a Retórica pode sim fornecer instrumentos, técnicas para (des)construir as emoções no discurso.

Além dos estudiosos clássicos, Plantin, buscando respaldo que sustente suas posições teóricas, passa em revista estudos relevantes sobre o tema feitos também por pesquisadores contemporâneos. Como prova disso, ele publica, em colaboração com Marianne Doury e Véronique Traverso, Les émotions dans les interactions (2000). Além disso, Plantin dialoga, direta ou indiretamente, com todos os colaboradores desse livro, dentre os quais citamos: i) Ekkehard Eggs, que apresenta a atualidade retórica do pathos em Aristóteles e propõe uma “semiologia das paixões” e uma “ética das paixões”, a partir de estudos não só lexicográficos e sintáticos, mas também, gestuais/corporais que, reunidos, podem se tornar um modelo capaz de servir como quadro teórico para as pesquisas atuais sobre emoção; ii) Claude Chabrol, que parte das teorias psicológicas contemporâneas para mostrar que alguns paradigmas utilizados por certas teorias são inadequados para os estudos discursivos da emoção; iii) Véronique Traverso, que estuda os diferentes níveis da emoção da confidência e dos instrumentos de análise capazes de sustentar a pesquisa sobre a problemática; iv) Catherine Kerbrat-Orecchioni, que busca mostrar o lugar das emoções nos estudos linguísticos do século XX, traçando um percurso que inclui abordagens lexicais, morfológicas, sintáticas, pragmáticas, interacionistas, retóricas e interculturais; v) Antoine Auchlin, que critica aqueles pesquisadores que “observam” as emoções em um dado corpus como se elas estivessem “no” corpus; e sustenta que devemos estar conscientes de que as emoções são objeto de pesquisa incontournable.

29 Abstemo-nos, aqui, de retomar integralmente o que Plantin diz a respeito. Limitamo-nos, assim, a

Plantin comunga com esses autores várias ideias, dentre as quais a de que razão e emoção não são noções dicotômicas, ao contrário, são “duas faces de uma mesma moeda”. Os textos de todos esses estudiosos são utilizados por Plantin para embasar sua pesquisa e constam na referência bibliográfica do seu livro Les bonnes

raison des émotions (2011a).

Ao resumir os trabalhos de estudiosos que publicaram juntos seus estudos sobre as emoções no discurso, vemos, mais uma vez, que Plantin tem muito em comum com a AD. Ele compartilha, por exemplo, com Charaudeau, procedimentos teórico-metodológicos similares. Ambos estudam os mesmos temas (argumentação, discurso político, provas retóricas) e, por conseguinte, dialogam com autores pertencentes a disciplinas afins. Ambos acreditam que os valores sociais, a identidade dos sujeitos e suas crenças são fatores importantes na argumentação e também na visada emocional do discurso.

Plantin afirma que a emoção, apesar de ser fundamentalmente um evento privado, sentida por um indivíduo, pode afetar todo um grupo, quando este é homogêneo, ou seja, quando compartilha os mesmos valores, interesses, conhecimentos e comportamentos. Dessa forma, a emoção de cada um reforça a dos outros. Mas, se um evento emocionante afeta grupos diferentes, heterogêneos ou antagônicos, cada parte constrói uma emoção diferente e a protege das fronteiras comunicacionais, que reagrupam barreiras politicas, sociais ou culturais. As paixões compartilhadas podem ser, por exemplo, políticas, esportivas, artísticas, religiosas ou até mesmo eróticas. Nesse sentido, uma emoção não se erige acidentalmente, há toda uma organização de uma vida social ou de segmentos de existência coletiva na emoção que a regula. (PLANTIN, 2011a,2011b)

Além de trabalhar em parceria com colegas da AD, Plantin também acompanha de perto as proposições de autores de outras áreas. O estudioso reflete, por exemplo, sobre trabalhos de Jacques Cosnier (1994) que dizem respeito às metodologias de análise da expressão, da construção e da gestão das emoções no quadro da interação verbal. Assim, Plantin faz uso das tabelas propostas por Cosnier para estudar os termos que constituem o campo da afetividade. Além disso, Klaus Scherer e Cosnier (SCHERER et al., 1986) colaboram mais uma vez com os estudos de Plantin, ao lhe oferecer um levantamento, um inventário de dados emocionais.

Plantin apoia-se, desse modo, em estudos de Scherer (1984), nos quais o pesquisador propõe uma lista de componentes que devem ser considerados na análise

das emoções. Considera também dois quadros de facetas elaborados por Scherer, quadros estes que entram em sua composição do tratamento cognitivo da emoção, além de uma lista de etiquetas verbais e de léxico relativa às emoções.

A partir dos estudos de Maurice Gross (1995), Plantin trabalha o léxico e a sintaxe dos sentimentos. Como Gross, Plantin partilha a opinião de que é igualmente possível, viável, partir não só de substantivos, mas também de verbos para estudar as paixões, visto que eles podem denotar emoções. Indo além, tanto um pesquisador quanto o outro afirmam que um grande número de palavras, podem, sozinhas, adquirir sentido e pathemizar. Isso nos lembra os estudos de Charaudeau sobre a transparência ou não de certas palavras com relação aos sentidos denotativos que elas carregam.

Ainda que não faça parte diretamente da seleção de nosso corpus, nos sentimos confortáveis em trazer aqui um exemplo ilustrativo do que acabamos de dizer, valendo-nos do romance Madame Bovary:

[Charles] – Dá-me um beijo, querida!

[Emma] – Deixa-me! – fez ela, rubra de cólera.

[Charles] – Que tens? Que tens? – perguntou ele, estupefato. […] [Emma] – Basta!30 (FLAUBERT, 1970, p. 142 – grifos nossos)

Além do verbo flexionado “deixa-me”, que, no contexto do romance, possui uma carga afetiva negativa evidente, temos, ainda, a expressão – “Basta!”, (de

bastar), verbo que adquire, na voz de Emma, força e função de interjeição e

demonstra rejeição, repulsa e desaprovação dela (pathemizada) em relação a Charles (alvo de sua pathemia). Lembramos que, coincidentemente, a expressão “Basta!” é também explorada por Charaudeau para exemplificar a terceira possibilidade de palavras não-transparentes que podem vir a engendrar uma pathemia, dependendo da situação de comunicação.

Plantin faz uso, ainda, do quadro proposto por Friedrich Ungerer (1997), composto por quatro princípios da inferência emocional. Trata-se de uma teoria de indutores de emoção aplicada ao texto jornalístico. Ungerer assevera que há desencadeadores linguísticos que envolvem o princípio da relevância emocional como, por exemplo, o de proximidade e o de animação, tais como os dêiticos, os termos de uso familiar, de afeto e as formas de endereçamento. Há, ainda segundo ele,

30

No original: « [Charles] Embrasse-moi donc, ma bonne ! [Emma] – Laisse-moi ! – fit-elle, toute rouge de colère. [Charles] – Qu’as-tu ? Qu’as-tu ? – répetait-il stupéfait. […] [Emma] – Assez ! » (FLAUBERT, 1951, p. 461 – grifos nossos)

certos verbos de comentário que envolvem o princípio de avaliação, com conotações positivas e/ou negativas. O princípio da intensidade da apresentação conta com conexões metafóricas com domínios emocionalmente estabelecidos e, por fim, o

princípio de conteúdo emocional abrange a menção de aspectos emocionais em

eventos específicos, tais como certos adjetivos, substantivos e verbos que possuem carga de emoção descritiva.

Claudia Caffi e Richard Janney (1994) defendem, assim como Charaudeau e Plantin, que a emoção é parte integrante do sistema linguístico e comunicativo. Depreendemos, daí, que o estudo das pathemias requer não uma teoria nova e única para tal fim, mas a integração de diferentes abordagens, de diferentes áreas de conhecimento – Sociologia, Psicologia, Linguística, Semiótica –, em um quadro teórico complexo que leve em conta as interações entre os indivíduos. Entretanto, conforme afirma Caffi, “[...] ainda hoje faltam trabalhos que organizem os conhecimentos adquiridos em diferentes contextos e que levem em conta as múltiplas interconexões entre os diferentes fatores em um nível macroscópico e microscópico.”31(CAFFI, 2000, p. 90). Diante disso, a autora conclui que

A comparação entre as abordagens dos mesmos fenômenos por parte de diferentes disciplinas permitirá a uma abordagem pragmática sistêmica construir um saber integrado, ligando variáveis interdependentes (variáveis linguísticas, psicológicas e sociológicas), conectando, caso a caso, os efeitos difíceis de tratar no nível relacional e emotivo aos mecanismos específicos das micro-escolhas linguísticas (neste caso, nas escolhas 'mistas'), e, finalmente, tentando explicar as razões de tais efeitos.32 (CAFFI, 2000, p. 100)

Antes de passarmos para a próxima subseção, cabe registrar que, dos estudos que compõem o universo de pesquisa de Plantin, percebemos um ponto em comum deste pesquisador com todos os teóricos aqui citados, qual seja, a distinção entre

discurso emotivo e discurso emocional.33 Essa distinção, entretanto, não representa o

31 No original: « […] aujourd’hui encore il manque de travaux qui organisent les connaissances

acquises dans différents cadres et qui tiennent compte des interconnexions multiples entre les différents facteurs à un niveaux macroscopique et microscopique. »

32 No original: « La comparaison entre les traitements des mêmes phénomènes de la part de différentes

disciplines permettra à une approche pragmatique systémique de construire un savoir intégré, en reliant des variables interdépendantes (variables linguistiques, psychologiques et sociologiques), en ancrant, cas par cas, les effets inférables sur le plan relationnel et émotif aux mécanismes spécifiques des micro- choix linguistique (dans le cas présent les choix ‘mitigés’), et enfin en essayant d’expliquer les raisons de tels effets. »

único aporte efetivo do pesquisador para os estudos da emoção. Passemos, na sequência, às contribuições do teórico para o avanço dos estudos sobre o pathos.