3.2 PROVISION OF RELIEF AND RELATED FORMS OF HUMANITARIA PRESENCE
3.2.1 Approaches
Plantin estuda diversos termos possíveis para designar as emoções. Em uma pesquisa lexicográfica e filológica, o autor se debruça sobre expressões/verbos que remetem às emoções: « pathos, passion, humeur, émotion, sentiment, affect,
éprouvé... » (PLANTIN, 2011a, p. 5). O linguista lembra que, dependendo da época e
da área de conhecimento, usa-se termos distintos e que esse fato implica posicionamentos específicos, pois cada termo tem seus derivados com pesos diferentes e pertencentes a famílias lexicais específicas.34
O linguista alerta, no entanto, para estarmos atentos tanto aos saberes de conhecimento quanto aos de crença, sem nos limitar a um deles. Devemos consultar inclusive dicionários etimológicos, ainda que eles definam a entrada do termo emoção levando em consideração o senso comum. É preciso ter consciência das limitações dos dicionários, que não conseguem acompanhar a evolução da língua e ficam, desse modo, aquém do real e/ou atual significado das palavras.
Ainda que tenhamos assumido que não discutiremos sobre a melhor ou a mais apropriada nomenclatura a ser usada para designar emoção, e ainda que tenhamos decidido tomar certas palavras como equivalentes de emoção, achamos por bem respeitar e considerar a posição de Plantin, apresentando aqui, ainda que suscintamente, parte da pesquisa do estudioso sobre os vocábulos equivalentes ou similares de emoção (e seus derivados emocionado, emocionante, emotivo...) e de
pathos (e seus derivados pathêmico, pathemização, pathético…), vocábulos bastante
utilizados tanto na Retórica e na AD quanto em nossa pesquisa.
Para o teórico, vários termos equivalentes de emoção são utilizados, às vezes, de forma distinta, às vezes, indistinta. Uma das razões que explicam essa mistura, essa (in)distinção, é um problema comum, próprio da “arte”, da “técnica” da tradução: “[...] os tradutores franceses de Aristóteles traduzem pathos por ‘paixão’. Vê-se que
34 Além de Plantin, Anne Coudreuse (2001, 2013) desenvolve uma vasta pesquisa científica sobre a
os fenômenos estudados por Aristóteles na sua Retórica correspondem ao que chamamos atualmente de emoções, bem mais que paixões.”35 (PLANTIN, 2011a, p. 5
– grifos do autor)
O termo pathos vem do grego antigo πάσχειν (no grego moderno πάθος), que significa: “[…] o que sentimos; estado da alma agitada por circunstâncias externas”36;
o termo também possui um sentido de passividade: “[…] pathos é o que vem de fora, bom ou ruim”37 e ainda pathos, em grego, significa “[…] experiência sofrida,
infelicidade, emoção da alma.”38
Plantin nos lembra que a tradução latina da palavra grega pathos foi discutida por retóricos latinos. Cícero, em Tusculanes, traduz o que os gregos denominam pathè como perturbationes (CICERO, 1964, p. 58). Entretanto, o tradutor de Cícero, assim como outros tradutores, não diferencia as palavras affectus e pertubatio e as traduz como paixão, sentimento ou emoção sem nenhum critério específico. Assim, conforme suas afirmações, “[…] essas variações de vocabulário mostram que, acompanhando o termo pathos, surge uma vasta temática ligada ao afeto, com toda a complexidade e dimensão histórica e cultural do termo.”39(PLANTIN, 2011a, p. 6)
Ainda segundo Plantin (op.cit.), o substantivo pathos é um termo genérico de origem grega para designar emoção. Dizemos pathos no singular e pathè no plural.
Pathético, palavra derivada de pathos, geralmente serve para designar uma classe de emoções; já o termo pathêmico é tido como um neologismo. Pathos é utilizado tanto
na Retórica, como técnica e prova (pistis) argumentativa (juntamente com ethos e
logos), quanto no discurso comum, do cotidiano, para designar um excesso emocional
um pouco artificial. Nas artes, pathos pode caracterizar gêneros nos quais as paixões fortes e grandes sentimentos estão frequentemente presentes, às vezes considerados
35
No original: « […] les traducteurs français d’Aristote traduisent pathos par passion. On voit que les phénomènes étudiés par Aristote dans sa Rhétorique correspondent à ce que nous appelons actuellement des émotions, bien plus qu’à des passions. »
36
No original: « […] ce qu’on éprouve, état de l’âme agitée par des circonstances extérieures. »
37
No original: « […] le pathos c’est ce qui arrive de l’extérieur, bon ou mauvais. »
38
No original: « […] expérience subie, malheur, émotion de l’âme. »
39 No original: « […] ces variations de vocabulaire montrent qu’avec le terme pathos, c’est toute la
exibicionistas e de mau gosto. Como diria o estudioso, “[...] essa condenação das emoções deve ter, ela mesma, algo de passional.”40 (PLANTIN, 2011a, p. 75)
Aliás, essas restrições de sentido nos levam a pensar em Flaubert, que critica veementemente o gênero literário romântico, visto que este explora demasiadamente questões relativas às paixões. Veremos mais adiante como se dá essa crítica um tanto
pathêmica de Flaubert em relação ao pathos. Mas, já podemos ver algo em relação a
um de seus derivados, o adjetivo pathético. Esse adjetivo geralmente possui carga semântica de piedade, de tristeza, aquilo que comove ou causa compaixão e, ainda, aquilo que pode ser considerado inadequado ou impróprio.
Valendo-nos do que foi dito, vemos que Sénard usa, ironicamente, o termo
pathético para (des)qualificar o discurso da promotoria: “Evidentemente, não tentarei
opor às apreciações elevadas, animadas e patéticas com que o ministério público envolveu tudo o que disse com apreciações do mesmo tipo.”41(SENARD, 1857 apud
FLAUBERT, 2007b, p. 331 – grifo nosso). O advogado se mostra, nessa passagem, sarcástico, ao usar a palavra patéticas juntamente com duas outras que carregam, a princípio, em si, positividades – elevadas, animadas, para adjetivar o discurso de oposição a Flaubert. Isso significa que Sénard busca, na verdade, deslegitimar o discurso da promotoria e ridicularizar Pinard e seu discurso “inadequado e impróprio”.
O termo paixão pode ter uma conotação positiva ou negativa, dependendo do contexto. As palavras apaixonante, apaixonado e apaixonar geralmente são usadas no cotidiano com uma significação positiva, ligada ao ato de amar profundamente. No romance Madame Bovary, o termo paixão é usado sob essa perspectiva: “Emma entrava em algo maravilhoso onde tudo seria paixão, êxtase e delírio.”42
(FLAUBERT, 1970, p. 124 – grifo nosso). Evidentemente, nesse trecho, a palavra
paixão não transmite o sentido de sofrimento e de dor.
A positividade geralmente atribuída ao termo paixão faz Plantin lembrar que é raro, nos dias atuais, considerar a tristeza, por exemplo, como uma paixão. Entretanto,
40 No original: « […] cette condamnation des émotions doit avoir elle-même quelque chose de
passionnel. »
41
No original: « Je n'essayerai pas, assurément, d'opposer aux appréciations élevées, animées, pathétiques, dont le ministère public a entouré tout ce qu'il a dit, des appréciations du même genre. » (SENARD, 1857 apud FLAUBERT, 1951, p. 648 – grifo nosso)
42 No original: « Emma entrait dans quelque chose de merveilleux, où tout serait passion, extase et
nem sempre foi assim; segundo a bíblia, o sofrimento físico, espiritual e mental por que passou Jesus, durante sua crucificação, é chamado de paixão de Cristo. Desse modo, paixão já teve e ainda tem, sobretudo para os cristãos, um forte teor teológico ligado à tristeza, ao infortúnio. O termo passional, por sua vez, parece, hoje, ter ligações não-positivas, pois frequentemente é associado a crimes, ações violentas cometidas em nome de uma paixão amorosa.
Quanto ao termo sentimento, Plantin cita François Calori, para dizer que, diferentemente do século XVII, voltado às paixões, o século XVIII seria o século do
sentimento: “[…] se no século XVII tem-se o período das teorias das paixões, no
século XVIII, o sentimento se afirma como uma categoria fundamental do vocabulário afetivo.”43(CALORI, 2002, p. 23 apud PLANTIN, 2011a, p. 8)
Essa diferença de uso dos vocábulos se dá de diversas formas, seja no tempo, seja no espaço. Os dicionários, por exemplo, ao mesmo tempo que tentam fixar os sentidos (monossemia), multiplicam as distinções, registram sentidos variados dos termos ao longo do tempo (polissemia). Ainda segundo Plantin (op.cit.), o termo
sentimento possui vestígios de uma história intelectual complexa, visto que ele é
ligado à intuição, ou seja, à capacidade dos sujeitos de perceber a realidade ou, dito de outra maneira, à consciência que o sujeito tem do mundo, de sua própria existência, das realidades do mundo ficcional/artístico, assim como da moral.
Nessa linha de raciocínio, podemos afirmar que os sentidos em geral, e, mais particularmente, aqueles fixados nos/pelos dicionários, variam segundo as condições de produção e de recepção textual/discursiva. Em algumas definições dicionarizadas de sentimento, vemos a presença de outros termos semelhantes aos que usamos nesta tese. Por exemplo: “[…] fala-se de afeições, movimentos da alma, paixões [...] particularmente, [no caso de] afeições boas, de bem querer, tenras [...] especialmente a paixão do amor.”44(Dictionnaire de la Langue Française, Littré [1863-1872] apud PLANTIN, 2011a, p. 9). O termo sentimento também pode carregar o sentido de opinião, de estado de espírito, manifestação de um sistema de valores, ligado à subjetividade e ao afeto. Entretanto, para o linguista, esse termo, juntamente com seus
43
No original: « […] si la période précédente [i.e. le XVIIe siècle] est bien l’âge des théories des passions, le sentiment s’affirme désormais [i.e. au XVIIIe siècle] comme catégorie fondamentale du vocabulaire affectif. »
44 No original: « […] se dit des affections, des mouvements de l’âme, des passions… Particulièrement,
sentidos “novos”, “(re)atualizados” precisam ser (re)trabalhados no campo da argumentação.
Finalizando esse apanhado de correlatos, abordamos o termo emoção, que traz em si dificuldades de demarcação de uso e elucidação de sentidos. Ainda que seja complexo definir o termo, sentimos emoções o tempo todo, as nomeamos, muitas vezes, indistintamente, com um leque de outros termos. Além dessa problemática lexical que envolve as emoções, o supracitado teórico lembra que:
[…] todos nós sabemos o que são as emoções por tê-las já sentido. Todo mundo sofre ou lida, de modo mais ou menos saudável, seus estados emocionais, com seus humores, organiza suas paixões e as expõe em função de sua ou de suas culturas e das situações de interlocução das quais participa.45 (PLANTIN, 2011a, p. 127)
Depreendemos, de nossas leituras, que emoção provém do latim emotione, que significa movimento, comoção, ato de mover, gesto. Vemos, desse modo, que a palavra tem origem comportamental. O latim marcou a evolução do termo em algumas línguas modernas. Assim, temos: em francês: émotion; em italiano:
emozione; em espanhol: emoción; em inglês e em alemão: emotion; em polonês: emocja; em romeno: emoție e em português: emoção. Podemos observar que a família
lexical de termos derivados é extensa e semanticamente homogênea:
comover/emocionar, comovido/emocionado, comovente/emocionante, emotivo, emocional…Vemos, ainda, que os sentidos do termo emoção mudam, evoluem, se
expandem e, em razão disso, são (re)apropriados em situações novas e distintas. O termo emoção passa a agregar, por exemplo, características psíquicas. Segundo um glossário de psicologia, o termo emoção se liga ao
[...] estado sentimental momentâneo em que o indivíduo tem seu organismo excitado. As emoções dizem respeito a experiências emocionais, a comportamentos emocionais, e também a alterações fisiológicas que correspondem ou são provocadas diretamente pela própria emoção. Trata-se de sentimentos que podem levar a ações.46
45
No original: « […] tout le monde sait ce que sont les émotions pour les avoir éprouvées, tout le monde subit ou gère de façon plus ou moins hygiénique ses accès émotionnels, ses humeurs, organise ses passions et les expose en fonction de sa ou de ses cultures et des situations d’interlocution auxquelles il participe. »
Essa definição nos motiva, nos estimula (pathemicamente) a tratar de aspectos (extra)linguísticos quando abordamos o universo flaubertiano. Pinard, por exemplo, acusa Flaubert de mostrar Emma Bovary, ainda adolescente, como alguém que não está pronto para sentir certas emoções: “Nessa idade em que a jovem não está formada, em que a mulher não pode sentir essas emoções fundamentais que lhe revelam um mundo novo, ela se confessa.”47 (PINARD, 1857 apud FLAUBERT,
2007b, p. 306 – grifos nossos). As alterações fisiológicas, as excitações dos advogados no julgamento e de Flaubert em suas cartas, e até mesmo as de Emma no romance, suas experiências, são, pois, comportamentos emocionais que os fazem agir – o homem e sua personagem – e mais que isso, falar, escrever. Nossa análise busca levar em conta esse todo.