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Election monitoring

3.5 CONFIENCE BUILDING MEASURES

4.1.7 Election monitoring

Amossy (2001) discute semelhanças e especificidades de alguns conceitos que se equivalem, guardadas as devidas proporções: topos (e seu plural topoï), doxa,

lugar-comum, estereótipos, ideias preconcebidas (idées reçues) e clichês.80 Vemos

que a autora se esforça, mais uma vez, para mostrar que as premissas, as opiniões, as crenças e os valores socialmente partilhados são fundamentais na troca linguageira, sobretudo no que diz respeito à influência, intencional ou não, sobre os parceiros da enunciação. Assim, as noções de doxa e estereótipo “[...] fundamentam o logos sobre os modos de pensar e de ver da comunidade; articulam-se no pathos, nos modos comuns de sentir que permitem tocar, ao mesmo tempo, a emoção e a razão” (AMOSSY, 2011, p. 131), e contribuem, dessa forma, para o bom funcionamento da persuasão.

78 No original: « […] la rationalité au fondement de l’entreprise de persuasion ne suffit pas pour la

soutenir. En effet, l’image projetée par l’orateur ne doit pas seulement susciter chez l’auditoire un jugement de valeur fondé en raison ; elle doit aussi parler au cœur, elle doit émouvoir. »

79 No original: « […] la dimension affective est nécessaire à l’argumentation, mais en même temps elle

menace de la dissoudre. Pour que l’argumentation puisse se déployer, il faut donc que la présentation de soi de l’orateur dose la rationalité et l’affectivité. »

80

Cabe registrar que não é nossa intenção (re)tomar e (re)discutir nesta tese a taxonomia, as diferentes filiações teórico-metodológicas e as peculiaridades desses termos; decidimos, por razões de economia, tomá-los como equivalentes.

A estudiosa recorre a Barthes para ajudá-la em seu raciocínio sobre a questão da doxa. Essa noção, segundo o autor, significa “Opinião pública, a Mente majoritária, o Consenso pequeno burguês, a Voz do Natural, a Violência do Preconceito.” (BARTHES, 1975). Certamente, Amossy também se vale do

Dictionnaire des idées reçues, de Flaubert, texto no qual o autor reúne, de maneira

irônica, a doxa própria da sociedade francesa do século XIX. Tendo em vista a importância não só do termo idée reçue, criado por Flaubert, quanto do conteúdo da própria obra importante para nossas reflexões, convidamos o próprio romancista para nos explicar o objetivo desse dicionário, que foi publicado postumamente:

Seria a glorificação histórica de tudo o que é aprovado. Eu demonstraria, com este dicionário, que as maiorias sempre tiveram razão, e que as minorias sempre estiveram erradas. Sacrificaria os grandes homens em nome de todos os imbecis, e todos os mártires para dar voz aos carrascos, e tudo isso num estilo exagerado, afetado. Assim, para a literatura, eu escolheria só aquilo que fosse fácil, que o medíocre, estando ao alcance de todos, fosse o único [estilo] a ser legitimado e que deveríamos abominar todo tipo de originalidade como sendo perigosa, imbecil, etc. Essa apologia à fraude humana em todas as suas dimensões, irônica e gritante de ponta a ponta, recheada de citações, de provas (que provariam, evidentemente, o contrário) e textos chocantes (o que seria fácil), teria o objetivo, eu diria, de acabar de uma vez por todas com as excentricidades, quaisquer que fossem. Entraria, assim, na moderna ideia democrática da igualdade, seguindo as palavras de Fourier, segundo as quais os grandes homens serão inúteis; e é com esse objetivo, diria eu, que este livro é feito. Encontraríamos assim, neste dicionário, em ordem alfabética e sobre todos assuntos possíveis, tudo o que se

deve dizer na sociedade para ser um homem conveniente e amável.81

(FLAUBERT, 1980, p. 208 – grifos do autor)

Vemos que Flaubert, assim como Amossy e Barthes, toma a expressão idée

reçue em seu sentido moderno de lugar-comum, de ideias preconcebidas, sempre com

conotação negativa, pejorativa, ou seja, aquilo que deve ser combatido, criticado, questionado e ironizado, como o faz Flaubert em toda a extensão de sua obra.

81

No original: « Ce serait la glorification historique de tout ce qu’on approuve. J’y démontrerais que les majorités ont toujours eu raison, les minorités toujours tort. J’immolerais les grands hommes à tous les imbéciles, les martyrs à tous les bourreaux, et cela dans un style poussé à outrance, à fusées. Ainsi, pour la littérature, j’établirais, ce qui serait facile, que le médiocre, étant à la porté de tous, est le seul légitime et qu’il faut donc honnir toute espèce d’originalité comme dangereuse, sotte, etc. Cette apologie de la canaillerie humaine sur toutes ses faces, ironique et hurlante d’un bout à l’autre, pleine de citations, de preuves (qui prouveraient le contraire) et de textes effrayants (ce serait facile), est dans le but, dirais-je, d’en finir une fois pour toutes avec les excentricités, quelles qu’elles soient. Je rentrerais par là dans l’idée démocratique moderne d’égalité, dans le mot de Fourier que les grands hommes deviendront inutiles ; et c’est dans ce but, dirais-je, que ce livre est fait. On y trouverait donc, par ordre alphabétique, sur tous les sujets possibles, tout ce qu’il faut dire en société pour être un

A pesquisadora atenta, ainda, para o fato de que os topoï, que contam com um lastro nas representações ideológicas, geralmente se dirigem tanto à razão (logos) quanto à emoção (pathos), isso porque “[...] não basta sacudir as mentes: é preciso também tocar o coração.” (AMOSSY, 2011, p. 145). Isso explica o deslocamento das tópicas do campo do logos em direção ao do pathos:

Ter-se-á notado, a essa altura, que os lugares-comuns não apelam somente à razão. Eles aliam, estreitamente, o logos ao pathos, na medida em que o uso da força bruta e a tentativa de legitimá-la com vãs afirmações provocam, suspostamente, a indignação, sentimento que, segundo Aristóteles, é despertado em decorrência de um triunfo sem mérito. (AMOSSY, 2011, p. 142)

Continuando seu raciocínio a respeito da relação entre pathos, logos e topoï, Amossy recorre, mais uma vez, a Boudon, para quem “[...] a lógica dos sentimentos morais, no fundamento de todo sentimento de justiça, principalmente quando ele é intensamente sentido, sempre é possível, pelo menos em tese, revelar um sistema de razões sólidas.” (BOUDON, 1994, p. 30 apud AMOSSY, 2011, p. 142). Assim, tanto para Boudon quanto para Amossy, o lugar-comum, na esfera do sentimento, não é aquilo que deve parecer plausível, razoável, racional a todos os homens de bom senso, mas sim aquilo que deve desencadear a mesma reação afetiva, emocional no auditório.

Além de Boudon, Amossy retoma as reflexões de Plantin, que também se dedica aos estudos dos efeitos pathêmicos pela via das tópicas. Ambos os autores concordam que é justamente no campo das opiniões partilhadas, dos clichês, dos estereótipos, que é elaborada a “simbiose” logos ⟷ pathos, relação esta que permite a efetivação da persuasão, seja ela intencional ou não.

Na esteira dos conselhos de Plantin e de Charaudeau a respeito do que os estudiosos do discurso devem ou não fazer ao tratar das emoções, Amossy sugere que é preciso levar em conta as situações de comunicação, observar nelas aquilo que provoca as reações afetivas e, enfim, relacionar tudo isso ao contexto sociocultural no qual os sujeitos da enunciação estão inseridos. Continuando seus conselhos, Amossy fala da importância de levar em consideração também os clichês nos estudos das emoções e a responsabilidade “política” no trato da questão:

No discurso cotidiano, assim como nos textos literários, todos os elementos portadores de doxa [devem ser] levantados e submetidos a uma crítica suscetível de lhes desvendar o substrato ideológico. É para contribuir com esta empreitada

de denúncias que diversas noções são forjadas: são elas o cliché, o banal, o lugar- comum em seu sentido moderno, a ideia preconcebida, o estereótipo [...] limito- me a dizer que a presença desses conceitos permite cercear a banalidade (como o pecado da estética), o impensado e a força da opinião dominante (como mentira ideológica). (AMOSSY, 2011, p. 133)

Na busca por confluências entre termos e conceitos afins que expliquem a emoções no discurso, Amossy (1984, 1991, 1999, 2005a, 2010b) discute, ainda, a relação entre estereótipo e as provas retóricas, tendo em vista a necessidade de pensar as representações coletivas cristalizadas e a atividade de estereotipagem exercidas pelos sujeitos falantes. Os estereótipos permitem designar os modos de raciocínio próprios a uma sociedade e os conteúdos globais do setor da doxa na qual eles se situam. Daí acreditar que o pathos, assim como o ethos, passa, necessariamente, por um processo de estereotipagem. Estereótipos e emoções se deixam apreender tanto no nível da enunciação (um modo de dizer), quanto no do enunciado (conteúdos, temas). Ambos ultrapassam o nível do verbal, do linguístico, e alcançam o extra-verbal, agindo sobre os interlocutores, moldando formas de viver, de ser, espelhando o universo sociodiscursivo, refletindo e refratando a imagem dos sujeitos que se (inter)influenciam.

Segundo Amossy, “[…] não é a doxa que aliena o sujeito, mas ao contrário, é o que lhe permite construir-se como ser social em relação com uma alteridade constitutiva.” (AMOSSY, 2011, p. 133). Isso acontece porque as normas sociais influenciam e são influenciadas pela doxa ou, dito de outra forma, as idées reçues balizam as formas de ver, de pensar e de se relacionar de uma coletividade, em um tempo e um espaço específicos, particulares. Essa mesma coletividade é a responsável pela manutenção, pela cristalização da doxa, ou, ao contrário, pela sua reformulação, transformação e/ou até mesmo sua extinção.

Como fator determinante no estabelecimento do pathos e do ethos, a doxa compreende os saberes de crença partilhados entre os interlocutores. Assim, quando Flaubert, por exemplo, escreve suas cartas, ele tem objetivos específicos, dentre os quais citamos o desejo, a busca por reconhecimento, a legitimidade de sua fala, a admissão e a aceitação de suas teses, seus pontos de vista, a expressão de seus sentimentos, dentre outros. A situação de comunicação específica do gênero carta e a cenografia que o (de)marca e é (de)marcada por ele e por seus interlocutores (posições sociais específicas/receptores legítimos) criam um espaço de espelhamentos entres os sujeitos, a língua, a linguagem e o mundo.

Os sujeitos de uma coletividade, via de regra, pensam e agem seguindo categorias sociais, étnicas, políticas específicas, particulares. Eles tendem a partilhar as mesmas representações e estereótipos e tentam se ajustar a eles, seja corroborando- os e, por conseguinte, cristalizando-os, seja refutando-os e, por conseguinte, deslocando-os, rompendo com eles. O estereótipo possui, assim, lastro nas representações sociais partilhadas e está relacionado a modelos culturais pregnantes, mesmo tratando-se de modelos contestatórios. Para Amossy,

[...] a estereotipagem é a operação que consiste em pensar o real por meio de uma representação cultural preexistente, um esquema coletivo cristalizado. Assim, a comunidade avalia e percebe o indivíduo segundo um modelo pré-construído da categoria por ela difundida e no interior da qual ela o classifica. (AMOSSY, 2005d, p. 126)

Para seguir essa linha de raciocínio, diríamos, então, que uma simples palavra discursivizada pode ser o suficiente para evocar uma representação estereotipada. Um gesto qualquer, desde que socialmente reconhecido, logo, partilhado, pode suscitar emoções as mais variadas e (im)previsíveis, seja individual, seja coletivamente. A construção discursiva, os imaginários sociodiscursivos, os estereótipos, a construção da imagem que os sujeitos têm ou adquirem na interação (ethos prévio e discursivo) contribuem, portanto, para estabelecer o pathos e a troca verbal do qual ele é parte integrante. Trata-se de elementos que se (inter)influenciam, visto que o discurso permite aos sujeitos a (inter)ação.

Finalizamos esta subseção lembrando que, no capítulo de análise, trabalharemos com exemplos retirados do corpus para ilustrar a reflexão de Amossy sobre estereótipos. Eles nos possibilitam perceber os modos de raciocínio próprios a Flaubert e à sociedade burguesa francesa da segunda metade do século XIX. Eles nos propiciam, ainda, observar como e por que pensa, age e se emociona Emma Bovary e a sociedade ficcional na qual ela está inserida. Tanto Flaubert e os advogados (no mundo real) quanto Emma e demais personagens (no mundo ficcional) avaliam, percebem o outro e a si próprios segundo um modelo pré-construído, estereotipado de mundo, de sociedade por eles mesmos difundida e no interior da qual eles mesmos classificam tais estereótipos.