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International development

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10 International development

Universidade dos Açores, 1997.

Numa perspectiva totalmente diversa, que não aborda as questões do amor mas centra-se nas questões de linguagem, intertextualidade e convenção literária na épica de Camões, consubstanciando um ponto de vista que poderemos filiar, com algum risco, nos estudos pós-coloniais, ver: João R. Figueiredo – A autocomplacência da mimese: uma defesa da

poesia: os Lusíadas e a vida de Frei Bartolumeu dos Mártires. Coimbra: Angelus Novus Editora, 2003.

944 Como Schleiermarcher – que em 1799 publicara Discursos aos Homens Públicos; Feuerbach - autor de A Essência

do cristianismo, em 1841; Gustav Teichmuller; Grote; Georges Holmes Howison; Borden Parker Bowne, ou, principalmente, Charles, Bernard Renouvier, que escreveu Le Personalisme em 1903, ano da sua morte.

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como instrumento mediador, isentável: «A lirica de Camões é a afirmação de um caracter e dum temperamento essencialmente masculos, duma organização rica em qualidades activas. Entrevê-se, pelo menos, quando não as exterioriza francamente, plenamente, a reacção poderosa de um espirito robusto, que a inteligência e a cultura vastíssimas opulentavam contra a morbida passividade do quebrantamento sentimental»945.

Ao contrário de Fidelino de Figueiredo, o autor de Líricos Amorosos Portugueses não contempla, na diacronia exposta, os neoclássicos, situação que resulta significativa e explica que, no salto sem transições para Garrett e João de Deus, a austeridade meditativa de Herculano se encontre ausente. Os poemas de Garrett escolhidos não servem um nacionalismo ortodoxo, mas plasmam a prática da lírica amorosa. Em Adeus, Prado Coelho lê um apego geralmente pouco acentuado ao querer físico. Na ode Cascais verifica que não há gozo sem dor e prefere claramente esta àquele poema. Em João de Deus (silenciado por Fidelino), o ensaísta destaca três poemas: último adeus; a carta; e o soneto “Foi-se-me a pouco e pouco a alma amortecendo”. Em todos encontra a profundidade do sentimento na simplicidade de expressão e louva ambas. Do ponto de vista metodológico, Prado Coelho materializa uma vontade de o seu labor se constituir e ser reconhecido como científico. O recurso à citação enquanto instrumento de mediação e prova – por vezes portador de exame contrastivo – reforça essa ideia. Todavia este aparato de objectividade compagina-se com a imposição prévia de categorias analíticas e submete-se-lhe: Não existe rigor filológico ou crítica documental. Pelo contrário, prevalecem transcrições de excertos de poemas enquanto exemplos que suportam a argumentação aduzida, tal como fizera Fidelino de Figueiredo. Prado Coelho aprofunda a tendência da leitura da obra dos autores escolhidos como reflexo da sua vida, mas exime-se a apresentar elementos do percurso dos escritores. O Lirismo Amoroso é interpretado à luz dos valores e crenças do ensaísta, anteriormente expostos, que evidenciam o uso prevalecente de determinada noção de verdade que impõe a subjectividade da memória historiográfica ao devir histórico, do qual os poemas citados parecem devolver uma transparência mimética.

A História da Lteratura praticada por Prado Coelho defende o princípio da

evolução de matriz biológica, mas matizado, e com diluição dos sinais próprios de uma

visão defensora da literatura como sistema. A decadência da lírica não é explicitamente tematizada, o que não impede que esta seja encarada como reflexo da História. Os conceitos comuns a românticos e positivistas comparecem,

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nomeadamente o de génio – de forma implícita, através da abordagem de alguns autores em detrimento da de outros –, mas também o de sinceridade, acrescidos ambos do de virilidade.

Ainda em 1912, foram publicados, a título póstumo, trabalhos de Sousa Viterbo, dos quais destacamos, Estudos sobre Gil Vicente que, desde o título, de forma clara e isenta de problemas, revelam a sua natureza. Nada nos é dito sobre o processo de publicação, nem se conhecem as tramitações jurídicas inerentes às autorizações de herdeiros do erudito, falecido dois anos antes.

Todavia, é lícito aventar a hipótese de envolvimento de Pedro de Azevedo – figura influente na Sociedade Portuguesa de Estudos Históricos e no respectivo órgão de informação – na decisão de escolha editorial dos estudos de Viterbo, elogiado por ele em sessão ocorrida na Academia de Ciências de Lisboa, em 1911: «o método que seguia Viterbo nos seus estudos era de uma rigidez absoluta. Os documentos eram dissecados; as partes assim arrancadas do formulário sofriam confronto com os dizeres dos historiadores que tinham tratado da matéria, confronto que admitia poucas hipóteses e não dava margem a fantasias mais ou menos susceptíveis de crédito. Revelava-se neste processo o médico com o seu positivismo científico, onde não há conjecturas senão as estritamente necessárias e sujeitas sempre aos factos; como a História não admite o experimentalismo, em lugar desse método entra o documento genuíno não sujeito a dúvidas»946.

As ideias defendidas pelo arquivista sobre o intelectual portuense encontram expressão nos Estudos sobre Gil Vicente, nos quais se nota, na prática, um respeito efectivo pelo apuramento de factos positivos, baseado em documentos escritos.

Neste trabalho, Sousa Viterbo procura estabelecer e fixar um método, de raiz erudita, isento de intervenções especulativas por parte do historiador, na análise do

Auto da Barca do Inferno, centrada na origem e proveniência do texto. Viterbo começa

por afirmar a superioridade do auto citado face ao Auto da Alma, preferido por outro estudioso referido, Ducarme. O erudito portuense cruza os textos vicentinos com interpretações realizadas no dealbar da época contemporânea. Informa que o Auto da

Barca do Inferno foi representado pelo poeta junto de D. Maria em 1517. Coloca a

possibilidade de as apresentações terem extravasado a Corte, ao encontro de serões, mas não é assertivo nesta matéria. Deixa de parte uma polémica sobre a biografia de Gil Vicente em torno da existência de dois homónimos, o ourives e o dramaturgo, ou sobre a concentração na mesma pessoa dos misteres apontados.

946 Pedro Azevedo – Boletim da segunda classe a Academia de ciências de Lisboa, vol. 4, fasc. 4, 1911. Op. Cit. Citado

por Ruy de Abreu Torres – Viterbo, Francisco Marques de

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Sousa Viterbo terá iniciado os estudos em análise em 1887, segundo nota do editor, que ressalva a incompletude do texto, ao qual cremos poder aplicar-se o diagnóstico segundo o qual, nas últimas três décadas de vida do autor, o médico cedeu o posto ao erudito, frequentador dos principais arquivos, circunstância que pode explicar a admiração de Pedro de Azevedo, que se situa na mesma linha do intelectual portuense. Conforme sublinha Ruy de Abreu Torres, «desde 1892, e já muito antes,

desde que se operou na sua orientação literária aquela derivação para os estudos positivos da nossa História passada, Sousa Viterbo enquadrou-se no limitado mas glorioso número de investigadores que passavam seus dias nos escuros e poeirentos gabinetes da Torre do Tombo, notáveis eruditos que se davam, ao mesmo tempo, à «escavação das suas obras, verdadeiros técnicos do ofício historial»947.

Sousa Viterbo exibe preocupação com um escrúpulo documental, bem patente na seguinte passagem, na qual dúvida que a representação dos autos vicentinos se tenha limitado à corte, mas evita ser assertivo por não possuir documentos cabais sobre esta matéria. As fontes escritas são encaradas como bases e garantia da objectividade almejada, e o que dela se obtém é aparentado com a verdade, ainda que não nestes termos: «Se as peças de Gil Vicente fôram representadas unicamente na

côrte, ou se receberam tambem a sua consagração do publico, não o sabemos claramente porque nos faltam os elementos comprovativos»948.

O autor sustenta que Gil Vicente também era conhecido do público em geral através de formas indirectas, como cópias ou a impressão de textos. Assevera que esta fama era internacional e estranha a atitude alegada de alguns eruditos castelhanos, que denuncia, ancorado na importância das provas: «A fama do nosso poeta não se circunscrevia ao nosso paiz e as suas obras eram apreciadas no extrangeiro, em Hespanha sobretudo, embora lhe commettessem a injustiça de lhe occultarem o nome. Temos aqui deante de nós mais de um testimunho comprovativo, sendo para admirar que elles tenham escapado não só aos bibliophilos hespanhoes, que primeiro os deram inconscientemente a conhecer, mas aos que se tem dedicado especialmente ao estudo de Gil Vicente»949.

Sousa Viterbo, médico de profissão, não pôde aplicar o método experimental aos trabalhos historiográficos, mas tenta um arremedo, ao centrar-se nos documentos − cuja origem e autenticidade procura estabelecer − que cruza com bibliografia sua contemporânea, de modo a aferir a fiabilidade de ambos. Inocêncio Francisco da Silva

947 Ruy de Abreu Torres – Viterbo, Francisco Marques de. In Joel Serrão (org.) – Dicionário de História de Portugal, vol

VI. Porto: Figueirinhas, [s.d.], p. 338.

948 Francisco de Sousa Viterbo – Estudos sobre Gil Vicente: a trilogia das barcas. In Revista de História, vol. 1, n.º 3.

Lisboa: Clássica Editora, 1912, p.147.

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também foi alvo de críticas, uma vez que não citou, no seu dicionário, as edições impressas mais antigas de Gil Vicente, publicadas após a morte do autor, no século XVII.

Sousa Viterbo pôs em causa o seu erudito compatriota, mas de forma breve e lacónica, sem a amplitude da crítica anterior, o que indicia que o método científico procurado é mais importante do que a afirmação explícita da Nação como critério da História literária posta em prática, mas não se assiste à anulação daquela noutras ocasiões patenteada, como denota esta passagem autobiográfica: «Na minha faina de explorar e trazer a lume todas as formas de capacidade mental portugueza, para assim tirar a resultante que caracteriza o génio nacional e para mostrar ao mesmo tempo a quota, com que contribuímos para a soma da civilização universal, tenho procurado os sinais do nosso espírito inventivo, e resta-me testemunhar, pelos dados obtidos, que a colheita não tem sido, nem das mais fartas, nem das mais esperançosas»950.

A escrita do colaborador da Revista de História encara o tempo histórico de modo estritamente cronológico, submetendo-o a uma exegese documental, fixada em duas datas, alheia a qualquer noção mais alargada de período, de época histórica ou de corrente literária. Gil Vicente comparece isolado do seu contexto literário nacional e internacional, com excepção do limitado enquadramento social, consubstanciado na referência crítica ao Santo Ofício ou na sugestão da proximidade de algumas passagens vicentinas, influenciadas alegadamente pela doutrina protestante. A censura inquisitorial deixou passar algumas, representadas perante a Corte. O erudito revelou distanciamento sério para com o Tribunal da Fé, pelo que é lícito considerar que, nesta matéria, se afasta de alguns epígonos do tradicionalismo conservador mais radical.

Viterbo contribui para a canonização de Gil Vicente – através da comparação com um clássico grego – cujo trajecto confunde com o do teatro em Portugal, do qual não destaca nenhum nome contemporâneo do dramaturgo estudado: «As obras do Plauto português são uma inexgotavel mina e quem se der ao trabalho de a explorar ha-de colher os mais preciosos minerios, quer as considere sob o ponto de vista poetico e litterario propriamente dito, quer sob o ponto de vista das tradições e dos costumes. A vida portugueza do século XVI estampa-se alli em toda aquella variedade de caracteres, tão admiravelmente desenhados, desde a figura ideal da alma até á figura eminentemente prosaica do ratinho»951.

950 Cit. Joaquim Veríssimo Serrão - História e Conhecimento Histórico. Lisboa: Verbo, 1968, p. 298. 951 Francisco de Sousa Viterbo – Estudos sobre Gil Vicente…, p. 147.

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Em 1913 não foram publicados, na Revista de História, artigos de História literária, incidentes sobre a temática da História da Literatura. A situação alterou-se no ano seguinte, no qual foram dados à estampa três trabalhos, todos da autoria de Fidelino de Figueiredo, que assim retomou a preponderância anteriormente esboçada. No mês de Março foi impressa, por sua iniciativa editorial, a carta de Eça de Queiroz a Fialho de Almeida acerca de Os Maias, escrita em Bristol, a 8 de Maio de 1888, com introdução do director da Revista de História.

Na referida peça textual preliminar – que preferencialmente nos ocupa, dado que nos revela o pensamento de Fidelino de Figueiredo –, o autor refere-se à importância do documento escolhido e prolonga a atitude de Sousa Viterbo de apreço por este tipo de fonte só que não se atém na respectiva análise erudita, nem se concentra no enquadramento genealógico ou tipológico da carta, pertencente ao domínio da epistolografia, sobre o qual paira total silêncio no que tange à sua descrição, caracterização ou à elaboração de qualquer raciocínio sobre a matéria.

Relativamente à fixação da História Literária como domínio a caminho de desejada cientificidade, a posição de Fidelino de Figueiredo é bem outra e diferente da evidenciada por Sousa Viterbo, dado que confere maior atenção ao contexto social de elaboração de obras literárias e á relevância das relações entre escritores para explicá-las: «A convivencia entre os escriptores é um dos capitulos menos conhecidos da sua História litterária, não só porque as investigações escassamente o têm devassado, mas tambem porque a documentação, que a esse respeito poderia elucidar, tem sido desperdiçada. E todavia não é sem importancia o conhecimento das relações, que entre si mantivéram os auctores. Por elle somos informados com factos concretos ácêrca da sua biographia e do seu caracter, somos guiados na perquirição das fontes e das influências e obtemos grande numero de dados que vêm prestar á História litteraria o cunho da ressurreição concreta, que ella com todas as Sciencias Historicas, deve manter»952.

O director da Revista de História delimitou, nesta breve declaração, pela primeira vez no periódico, o lugar da História Literária − assim a designou expressamente por mais de uma ocasião − no conspecto de um campo cientifico mais vasto em formação. Demonstrou estar consciente das necessidades daquele domínio específico pouco abordado pelos estudiosos que precederam o ensaísta e pelos seus contemporâneos que, mesmo quando se debruçam sobre o tema, deixaram de lado alguns documentos relevantes. Em poucas linhas ficou lavrado um quase manifesto em favor da

952 Fidelino de Figueiredo – Carta de Eça de Queiroz a Fialho de Almeida acerca dos Maias. In Revista de História, vol.

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revitalização daquele ramo da História, expresso num tom a lembrar parte ínfima mas relevante do léxico de Michelet.

Fidelino de Figueiredo centra-se em alguns elementos da análise do meio literário, e não adquire o texto introdutório a fisionomia de outros trabalhos seus, que complementam a procura da cientificidade com a progressiva afirmação da autonomia do texto literário, trabalhado pelas suas qualidades intrínsecas, concitando a imaginação do estudioso e o recurso a um modo de dizer determinado pela conjugação da qualidade estética do discurso com a sua utilidade. Para usar uma expressão de José Cândido Martins, a crítica e superação da razão positivista, não se efectivam, em nosso entender, de forma clara, no prelúdio fideliniano a uma epístola de Eça, na qual, curiosamente, o autor dos Maias responde a Fialho de Almeida, criador de Brasil-Portugal e o País das Uvas e critica-o por não ter apreciado aquela obra queirosiana pelo seu valor específico, mas sim em função da conservação de uma pretensa moral lisboeta.

Sob o ponto de vista de construção do cânone literário, Fidelino de Figueiredo consagra a sua atenção a um tempo social no qual considera que Eça foi cordial para com Fialho e exime-se a referir eventual ironia e sarcasmo presentes na sua expressão. Esta possível manipulação torna-se reveladora de empatia conhecida para com Eça de Queiroz e é passível de indiciar identificação com a última fase do escritor aparentada com o Fradiquismo, aprofundada noutras investidas intelectuais do autor de Espírito Histórico, que na ocasião em análise poupa referência a géneros, correntes literárias, períodos ou épocas históricas, situação que parece contraditória com a vontade inicialmente expressa, e parcialmente elaborada, de concretizar um exercício de reflexão sobre a História literária.

A pulsão interpretativa comparece, todavia, num trabalho fideliniano, também publicado na Revista de História, dedicado a identificar, analisar e avaliar as

Características da Literatura Portuguesa. Este estudo coloca-nos problemas quanto à

classificação da sua natureza. Por um lado, debruça-se sobre temporalidade ampla, abrangendo diversos autores e obras pertencentes a diversos séculos, situação propícia a uma inclusão na História da Literatura pelo favorecimento de vasta síntese ancorada em visão panorâmica. Mas, complementarmente, a metodologia comparativa utilizada é permeável à aplicação a priori de certos adjectivos - que representam categorias previamente definidas - com os quais se concretizam juízos de valor acerca das vicissitudes inerentes ao transcurso das épocas históricas: Fidelino de Figueiredo parte do princípio que a determinados grupos, géneros e correntes literários correspondem diferentes facetas que encarnam o Espírito Histórico Português.

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Estamos, na nossa perspectiva, perante uma História (crítica) da Literatura Portuguesa, assente na tipificação de certos ideais do foro identitário, decorrentes de determinadas leituras. Esta taxonomia abre-se a certo hibridismo, mas não deixa de salvaguardar o que consideramos a subordinação fideliniana a uma abordagem de longo curso. Para o autor, a noção de valor alberga certo grau de contingência, mas cita Taine para destacar a necessidade de um padrão para controlar a variabilidade. De certo modo, Fidelino de Figueiredo encara o modelo do francês como demasiado rígido ou fixo, mas não nega o seu relevo enquanto instrumento de aferição.

No entender do estudioso português, é moral o fundo comum para além das diferenças individuais, das épocas e dos gostos. Fidelino de Figueiredo considera − como Brunetière, mas de modo alegadamente menos intransigente, ou essencialista – que a literatura de um país possui características fundamentais ou um ideal que as sintetize. Defende que Portugal não dispõe de unidade veiculada pela tradição, ou força reivindicada pela psicologia, portadoras de uma característica diferenciadora do povo português, a exemplo da que Brunetière divisou para a literatura francesa.

Todavia, o historiador da Literatura português destaca seis aspectos identificadores da nossa literatura, que parecem entendidos como constantes e transversais a épocas históricas: predomínio da lírica; abundância da épica (concebidas ambas como algo mais do que os géneros literários que representam a referência à primeira prolonga temática versada em artigo anterior e demonstra a sua relevância para o autor); escassez do teatro; carência de espírito crítico e filosófico; separação dos públicos e ausência de ligação entre a cultura erudita e a popular; forte pendor místico.

Centrar-nos-emos nas três derradeiras características enunciadas, dado que julgamos serem mais relevantes para enquadrar, de forma ampla, o pensamento fideliniano, no que tange ao âmbito intelectual e cultural, que ultrapassa a abordagem de temáticas literárias. A crítica funciona como eixo propulsor e agente aglutinador dos esforços do director da Revista de História, que repudia o seu atraso e esclarece as funções que devem caber ao crítico literário: orientar e guiar opiniões; fazer teoria. Para tal são necessárias plasticidade e argúcia. Fidelino de Figueiredo lamenta a falta de objectivação − nos princípios e no concreto-das ideias clássicas e românticas. Esta observação transcreve-a da sua Crítica Literária como Ciência, obra da qual o artigo publicado na Revista de História recebe, prolonga e amplia pressupostos e conclusões, de modo a reiterá-los, sublinhá-los e conferir-lhes ressonância, passível de favorecer a transmissão e inculcação dos pontos de vista do autor, com vista à eliminação de certos vícios e à implementação de mudanças no discurso crítico. Por outro lado, o autor considera que o exercício crítico erra porque não concilia a

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erudição com a vida, os costumes, a moral. Aponta que as élites perseveram num nocivo desdém pelo público e na recusa dos temas populares. Identifica excepções harmoniosas: a literatura trovadoresca, Alexandre Herculano, Oliveira Martins ou Rebello da Silva.

Fidelino de Figueiredo avalia os hábitos de leitura coevos e conclui: os Lusíadas são mal ensinados, Camões é popular enquanto símbolo da pátria; Júlio Dinis é alvo