Conforme o Depec (2009), apresentamos, no Gráfico 4, a cadeia produtiva do couro, em que a indústria calçadista está inserida. Essa cadeia se inicia na pecuária, com o abate e o descarne, passando pelo tratamento dos curtumes, vendidos em pele para a produção de calçados, móveis e artefatos. De acordo com o MDIC (2012), nos últimos anos, o setor se atualizou tecnologicamente, alcançando a segunda colocação em produção mundial de couros, e a quarta em exportações, sendo atualmente responsável por 13% da oferta internacional de calçados. A indústria calçadista faz parte também da cadeia produtiva petroquímica, que contribui com borracha, plásticos, sintéticos e adesivos, e da cadeia têxtil, que participa com a demanda por tecidos e outros elementos, como palmilhas, formas, componentes metálicos e embalagens.
Gráfico 4 – Cadeia produtiva do setor de calçados
Fonte: Adaptado de Depec (2009).
De acordo com o BNDES (2006), o padrão de concorrência da indústria calçadista tem se alterado nas últimas décadas; a qualidade, o design e os prazos de entrega se tornaram o mote de competitividade do setor. Por ser um produto fortemente influenciado pela moda, a
demanda das empresas apresenta alta sensibilidade às mudanças e, por questões de sobrevivência, uma rápida adaptação a elas é necessária.
De acordo com Prochnik et al (2005), o processo produtivo do calçado de couro é composto por seis etapas – design; modelagem; corte; costura; montagem e acabamento. Entre essas etapas, de acordo com Ibetec (2014), o número de operações varia com o design, as quais estão entre trinta, e podem superar duzentas operações. O número de operações determina o tempo do modelo, termo frequentemente usado entre os produtores, para se determinar os recursos necessários para a produção de um par. Não existe um padrão do número de operações entre os calçados femininos, masculinos ou infantis. Essas operações estão associadas, também, ao volume de produção, quanto maior a produção do dia, maior a obrigatoriedade de se trabalhar em série, aumentado, dessa forma, o número de operações.
No caso de Jaú e de Santa Cruz do Rio Pardo, o volume produzido estimula a polivalência de função, minimizando o número de operações, deixando entre trinta e cinquenta operações por calçado produzido.
De acordo com o Sindicaljaú (2014), algumas fases do processo produtivo, tais como costura e montagem, continuam sendo artesanais, e isso demanda uma mão de obra com habilidade, afastando as possibilidades de automação e favorecendo a entrada de empresas de pequeno porte pelo baixo investimento necessário e pela fragmentação do processo. De acordo com o BNDES (2006, p. 1), “[...] mundialmente a indústria de calçados tem características de produção localizada, estimulando, com isso, as aglomerações geográficas”.
Ainda, conforme o BNDES (ibid.), é oriunda da Europa a introdução de avanços tecnológicos no setor calçadista. No Brasil, essa introdução se deu entre 1860 e 1920, transformando a produção artesanal em produção fabril. Entre 1920 e 1960, houve regionalização da produção e estagnação em termos de avanços tecnológicos. Na década de 1960, o Brasil começou a exportar calçados para os Estados Unidos e esse processo fez com que duas aglomerações já existentes ganhassem especialização: a do Vale dos Sinos, em calçados femininos, e a de Franca, em calçados masculinos, que passaram, nos anos 1970, a ter muita importância nas nossas exportações.
O estudo aponta que o Brasil obteve avanço tecnológico, nos anos 1980, na produção de calçados esportivos, enquanto que os produzidos em couro continuaram, praticamente, sem evolução no que se refere ao processo produtivo.
A pressão da concorrência, principalmente externa, fez com que algumas das empresas do Sul e do Sudeste se deslocassem para o Nordeste, nos anos 1990, em busca de mão de obra de menor custo e de incentivos dos governos estaduais. Como muitas dessas empresas
produziam para o mercado externo, isso acabou favorecendo a exportação e minimizando os custos de logística, uma vez que a produção ficou mais próxima dos Estados Unidos, o principal importador, e da Europa.
O Brasil produz calçado em quase todos os estados. No Nordeste, os fabricantes de calçados estão concentrados no Ceará, na Paraíba e na Bahia, enquanto que, no Sul e no Sudeste, eles se encontram no Rio Grande do Sul e em São Paulo.
A Tabela 7 aponta a situação do setor calçadista do Brasil, os dados gerais dos últimos quatro anos.
Tabela 7 – Dados gerais dos últimos quatro anos
Fontes: Abicalçados (2012b).
Notas: (1) Valor da Produção = volumes produzidos no ano, multiplicado pelos preços médios dos produtos fabricados, sem impostos. O que equivale à receita operacional líquida. (2) Produção destinada ao mercado interno = produção – exportações. (3) Consumo parente de calçados = produção + importações – exportações. (*) Estimativa PNAD. (**) Censo.
Com relação à produção, os valores faturados, têm se mantido estável, após um significativo aumento entre 2009 e 2010. Entretanto, o número de pares produzidos tem diminuído, o que significa que os preços estão aumentando para compensar a perda de mercado. O número de empregos, também, cresceu com a chegada de novos entrantes no período, correspondendo a 3% dos empregos com carteira de trabalho assinada no setor privado em 2012 que, de acordo com o IBGE (2013), era de 11.287.000 de pessoas. As exportações diminuíram em pares e em valores, enquanto as importações aumentaram em
DESCRIÇÃO 2009 2010 2011 2012
POPULAÇÃO (Milhões) 193,7* 190,7** 192,4* 193,9*
PRODUÇÃO (Milhões de pares) 813,6 893,9 819,1 864,3
(Milhões de US$)1 9.485,4 12.345,3 12.994,7 12.226,8
PRODUÇÃO(destinada ao mercado
interno) 2 (Milhões de pares) 687,1 751,0 706,1 751,1
(Milhões de US$) 8.125,4 10.858,3 11.698,5 11.133,9
IMPORTAÇÃO (Milhões de pares) 30,4 28,7 34,0 35,6
(Milhões de US$) 296,5 304,6 427,8 508,6
EXPORTAÇÃO (Milhões de pares) 126,6 143,0 113,0 113,3
(Milhões de US$) 1.360,0 1.487,0 1.296,2 1.092,9
CONSUMO Aparente3
(Milhões de pares) 717,4 779,6 740,1 786,7
CONSUMO per capita (pares) 3,7 4,1 3,8 4,1
EMPREGO 319.174,0 348.691,0 342.218,0 334.055,0
pares e em valores. O consumo aparente, que é a produção nacional somada às importações e subtraída das exportações, e o consumo per capita se mantiveram praticamente estáveis, apresentando um leve crescimento. A produção, destinada ao mercado interno, tem apresentado um leve decréscimo em valores desde 2010, mas estável em número de pares.
O que chama atenção é o aumento da importação, particularmente em valores e uma baixa nas exportações em valores, afetando a balança comercial do setor, mas que ainda permanece positiva.
De acordo com MDIC (2014), como apresenta o Gráfico 5, o Brasil enfrenta, nesse setor, uma concorrência acirrada com China, Vietnã e Indonésia. No ano de 2013, o país importou 50 milhões de pares e realizou um pagamento de US$ 656,3 milhões. Somente o Vietnã, a Indonésia e a China, apoderaram-se de 80% de nossas importações, o Vietnã com 47%, a Indonésia com 18% e a China com 15%. Isso indica um aumento de 80% em valores e de 40% em quantidade nas importações em relação ao ano de 2010.
Gráfico 5 – Importações em milhões
Fonte: MDIC (2014).
Os maiores importadores de calçados do Brasil são os Estados Unidos, seguidos da Argentina e da Alemanha. Entretanto, conforme a Abicalçados (2012a), a valorização do real, a concorrência dos países asiáticos e a crise financeira internacional têm prejudicado o desempenho da balança comercial do setor. As exportações de calçados tiveram uma queda nos últimos quatro anos de 30% em valores e de 16% em quantidade, o pior resultado desde a década de 1990.
Os Gráficos 6 e 7 mostram as nossas exportações por destino, no ano de 2011, em valores absolutos e relativos.
Vietnã; 307 Indonésia; 119 China; 96 Paraguai; 31 Camboja; 21 Itália; 20 Índia; 14 Tailândia; 10 Argentina; 9 Taiwan (Formosa); 7 Outros; 22
2013 - Importações em milhões
Gráfico 6 – Exportações por destino US$ Gráfico 7 – Exportações por destino %
Fonte: MDIC (2014) Fonte: MDIC (2014)
O Brasil tem plena capacidade de atender todo o mercado interno de calçados. Entretanto, o setor está sendo prejudicado pelas importações de produtos semelhantes com preços bem inferiores. Com medidas antidumping contra a China, o Brasil conseguiu estabilizar as importações de calçados vindos desse país. Entretanto, em 2011, houve um súbito aumento de 40,4 % em valores e de 18,5% em quantidade das importações de calçados de países asiáticos, devido a uma evidente prática de circunvenção por esses países.
De acordo com a Abicalçados (2012b), entre os anos de 2002 e 2011, houve um aumento acumulado nas importações de 850,8% em valor e de 566,8% em quantidade.
O Mapa 1 mostra a porcentagem de participação de cada região no total do comércio exterior brasileiro de calçados em 2011.
Estados Unidos; 192 Argentina; 164 Alemanha; 80 França; 70 Paraguai; 59 Angola; 52 Bolívia; 46 Colômbia; 40 Chile; 40 Peru; 33 Rússia; 31 Austrália; 30 Outros; 425
2013 - Exportações por destino em US$ milhões Estados Unidos 15% Argentina 13% Alemanha 6% França 6% Paraguai 5% Angola 4% Bolívia 4% Colômbia 3% Chile 3% Peru 3% Rússia 2% Austrália 2% Outros 34% 2013 - Exportações por destino %
Mapa 1 – Comércio exterior em 2011
Fonte: Abicalçados (2012b).