Vários autores apontam características básicas do processo de Educação a Distância que, apesar da falta de homogeneidade, permitem uma formulação mais clara do conceito:
§ Perraton (1985) descreve a Educação a Distância como “um processo educacional em que uma proporção significativa do ensino é conduzida por alguém distante em tempo e/ou espaço do aprendizado”;
§ Moore e Kearsley (1996) afirmam que a Educação a Distância é um aprendizado planejado que normalmente ocorre em um local diferente de onde este está sendo ensinado, motivo pelo qual são requeridas técnicas especiais de elaboração do curso, bem como métodos especiais de comunicação eletrônica e por meio de outras tecnologias, e adaptações organizacionais e administrativas especiais;
§ Segundo Sarramona (1986) a EAD é um processo que exige todas as condições inerentes a qualquer sistema educacional, a saber: planejamento, orientação do processo e avaliação;
§ Aretio (1990) destaca que a EAD é um sistema tecnológico e de comunicação de massa bidirecional, que substitui a integração pessoal, em aula, de professor e aluno, como meio preferencial de ensino, pela ação sistemática e conjunta de diversos recursos didáticos e o apoio de uma organização tutorial, que propiciam a aprendizagem autônoma do aluno;
§ Otto Peters (1998) fez exame do conceito do planejamento e da organização a um nível mais elevado da importância na Educação a Distância e atribuiu uma característica "industrial" à área. Peters incluiu os seguintes atributos para destacar as características
econômicas da Educação a Distância: divisão de trabalho, como uma equipe de curso, onde diversos tipos de experts são convidados a participar; produção e distribuição maciça de materiais e informações educacionais, e sensibilidade da “empresa” de Educação a Distância em relação às economias da escala;
§ Nunes (2002) argumenta que não basta um processo comunicativo de mão-dupla. Deve ser organizado um processo sistematizado, bem definido e continuado.
Segundo Keegan (1996), os elementos centrais dos conceitos de EAD são: § separação física entre professor e aluno, que distingue o EAD do ensino presencial; § influência da organização educacional (planejamento, sistematização, plano, projeto e
organização rígida), que a diferencia da educação individual;
§ uso de meios técnicos de comunicação, usualmente impressos, para unir o professor ao aluno e transmitir os conteúdos educativos;
§ comunicação de mão-dupla, onde o estudante pode beneficiar-se da iniciativa no diálogo;
§ possibilidade de encontros ocasionais com propósitos didáticos e de socialização e, § participação de uma forma industrializada de educação, potencialmente revolucionária.
Basicamente, a EAD ocorre quando professores e estudantes estão separados pela distância física, e a tecnologia, como a de voz, vídeo, dados e impressa, é usada como ponte entre os dois.
O Decreto nº 2494 (MEC, 1998) que regulamenta no Brasil os cursos à distância, conceitua este tipo de ensino da seguinte forma: “é uma forma de ensino que possibilita a auto- aprendizagem, com a mediação de recursos didáticos sistematicamente organizados apresentados
em diferentes suportes de informação, utilizados isoladamente ou combinados, e veiculados pelos diversos meios de comunicação”.
Este modelo educacional transforma a relação tradicional na sala de aula. O conceito de autoridade do professor e seu domínio sobre o processo de ensino se transformam em compartilhamento do aprendizado. Surge uma nova interface entre alunos e professores, mediada pelas tecnologias computacionais, como a Internet. Estes conceitos reforçam a idéia de que os alunos aprenderão por fazer e não por memorização, conforme sugerido por muitos autores, entre eles Piaget (1975).
A EAD tem como marcas principais a flexibilidade, a interdisciplinaridade, uma vez que contem em si as multifacetas que fazem uno o processo de ensinar/aprender (UFPR, 1999). Pressupõe a autonomia do aluno, que organiza seu estudo na melhor hora e local para ele, no seu ritmo, contando para tanto, com recursos didáticos, entre eles o tecnológico e também, na maioria dos casos, com um apoio de um tutor ou professor. No item 4.5 a questão da tutoria será melhor detalhada.
Características definidoras da EAD, segundo Arredondo (1999)
“Separação professor/aluno: afastamento entre professor e aluno que impede o contato direto,
condição necessária na relação ensino/aprendizagem, segundo o modelo tradicional (presencial);
Sistema multimídia: se o aluno está distante do professor é necessário estabelecer uma relação
didática entre eles de forma a suprir a ação do docente através de outras vias, por isso a EAD tende a ser um sistema multimídia;
Aprendizagem autônoma: na EAD o aluno tem que aprender a estudar sozinho. O trabalho
individual tem aqui um peso decisivo. Esta é uma das principais razões para que o aluno se inscreva num curso a distância: estudar quando quiser e onde quiser;
Organização de suporte: no que se refere ao desenho instrucional. Na EAD tudo está em função
de proporcionar ao aluno os recursos necessários disponibilizados pela instituição, como: material didático, equipe de professores, biblioteca, etc.
Comunicação bidirecional: na EAD não podemos ver a reação imediata do aluno e por isso há
necessidade de multiplicar as formas para receber suas respostas: via telefone, carta, e-mail, fax, utilizar os momentos presenciais, a vídeo conferência e a teleconferência, ou seja, é necessário estar sempre aberto a uma comunicação bidirecional, para ratificar a qualquer momento algum elemento disfuncional do sistema.
Procedimentos industriais. Efeito multiplicador: a ação personalizada “artesanal ou artística” do
ensino tradicional deixa espaço para racionalização de todo o processo. No ensino a distância não cabem improvisações, e tudo tem que ser planejado com tempo. Entretanto este caráter tecnológico é mais um ideal do que uma realidade.
Economia: uma vez produzidos os materiais, estes podem chegar a uma população teoricamente
ilimitada. Os gastos iniciais podem se dividir pelos exemplares e pelos usuários, e isso resulta numa economia patente. O mais caro é o professor, cuja ação é limitada pelo tempo de aula, ou seja, um período determinado.
A comunicação em massa: a Educação a Distância, que por princípio se dirige a uma vasta
Resposta às demandas sociais: os cursos em EAD nasceram com uma vocação para a educação
permanente e é muito freqüente a oferta de cursos de grande atualidade que vão se impondo como panorama cultural e social.
Conversa didática interativa: o material utilizado num curso a distância deve ser produzido e
organizado especialmente para facilitar o estudo autônomo, ou autodirigido, contendo todas as informações e orientações para que o aluno consiga estudar sozinho.
Flexibilidade: dada a variadíssima gama de situações em que se encontram os alunos, as rigidezes
administrativas e de tempo e espaço das aulas convencionais devem ser reduzidas ao mínimo. Flexibilidade nos tempos, lugares, materiais e recursos ao professor.
Tutoria: nos cursos de Educação a Distância quase todas as tarefas dos professores são assumidas
pelo material didático. O professor tutor é o recurso humano mais próximo do aluno e ele deve estar permanentemente pronto para ajudar o aluno, para assessorar num estudo, para motivá-lo, e dar apoio em seu esforço pessoal.
Com a velocidade das mudanças tecnológicas, o sistema educacional é desafiado a ampliar oportunidades, sem aumentar os orçamentos. Os principais desafios da EAD são a construção e planejamento de sistemas de aprendizagem baseados na idéia de elaboração e reelaboração do conhecimento e também utilização de sistemas mais “virtualizados” que possibilitem constantes atualizações, definidoras de tendências (ALONSO, 2002).
Muitas instituições educacionais estão respondendo a este desafio desenvolvendo programas de EAD. Mas, no que concerne ao ensino de Graduação é preciso destacar três aspectos fundamentais da EAD (UFPR, 1999):
§ autonomia do aluno: a independência do aluno na escolha do tempo e local de estudo; a tomada de decisão tão defendida pelos educadores humanistas, inclusive quanto à busca de orientação;
§ a interatividade presente em todos os recursos, desde a sua seleção, operacionalização e avaliação, é uma preocupação de todos os envolvidos com esta modalidade de ensino; § inovação, criatividade e flexibilidade propiciadas pelo uso e adequação das tecnologias,
possibilitando maior engajamento do aluno e compreensão dos conteúdos ofertados. Os programas de EAD podem, de um modo geral (RIZZI, 2002):
§ viabilizar uma segunda chance a pessoas que, já possuindo alguma formação superior, querem estudar em uma faculdade;
§ proporcionar uma boa oportunidade àqueles que estejam em desvantagem por limitação de tempo, distância ou incapacidade física;
§ permitir uma atualização de conhecimento aos trabalhadores em seus próprios locais de trabalho ou em casa.
Para as IES que vêm trabalhando em projetos de EAD, o grande desafio é o desenvolvimento de espaços flexíveis de ensino-aprendizagem, nos quais possam ser utilizados os recursos e mídias disponíveis, sem necessidade de grandes investimentos.
Para estruturar um curso a distância é necessário ter uma visão sistêmica sobre a Educação a Distância. Deve-se analisar o que caracteriza um sistema de Educação à Distância, como: as fontes de conteúdo, o desenho instrucional, as tecnologias de informação e comunicação, distinguindo tecnologia e mídia; a interação entre todos os envolvidos e o papel dos instrutores; os alunos nos seus ambientes de aprendizagem e o gerenciamento e a administração do curso.
A representação desta análise sistêmica é apresentada na figura 6:
Figura 6: Visão Sistêmica de um Sistema de Educação a Distância
Fonte: baseado em MOORE e KEARSLEY (1996)
A EAD deve considerar as individualidades quanto a forma de aprender. O ensino a distância deve ser flexível para atender as mais variadas características individuais (BOLZAN, 2002).
Algumas lições-chave para a estruturação de um curso a distância, segundo Evans (2002) podem ser destacadas neste momento:
§ os processos para desenvolvimento dos cursos em EAD devem incorporar planejamento e projeto (desenho) educacional;
§ a equipe de curso deve ser composta por um time especializado, que serão responsáveis pelos componentes-chave do curso;
Especialistas em conteúdo Impressão, Áudio, Vídeo, Computador, Satélite, etc Gerenciamento Central Coordenação Coordenação Regional Regional Unidade de Tecnologia Unidade de Suporte aos alunos Unidade de Planejamento Unidade de monitoria e treinamento Centros de Estudo Projetos Propostas
Alunos
Instrutores Tutores Curso/programa Unidade de elaboração Comitê de Aconselhamento (seleção de projetos) Especialistas em conteúdo Impressão, Áudio, Vídeo, Computador, Satélite, etc Gerenciamento Central Coordenação Coordenação Regional Regional Unidade de Tecnologia Unidade de Suporte aos alunos Unidade de Planejamento Unidade de monitoria e treinamento Centros de Estudo Projetos PropostasAlunos
Instrutores Tutores Curso/programa Unidade de elaboração Comitê de Aconselhamento (seleção de projetos)§ deve-se ter sempre em mente a importância da interação da teoria-prática;
§ estruturar sistemas de avaliação e de garantia de qualidade, que com freqüência devem ser integrados;
§ a administração, a biblioteca e o sistema de suporte devem estar engrenados para as pessoas que estejam fora dos muros da instituição;
§ lembrar-se de que a EAD está abraçando as mídias on-line e integrando-as organicamente em sistemas e práticas.
Segundo Moore e Kearsley (1996) o modelo do processo de um sistema instrucional deve ser realizado da seguinte forma (figura 7):
Figura 7: Modelo do processo de Desenho de um Sistema Instrucional
Fonte: baseado em MOORE e KEARSLEY (1996)
A idéia básica é que o desenvolvimento de um sistema instrucional pode ser dividido em fases ou estágios e cada um deles envolve um certo número de procedimentos. Associando o modelo de Moore e Kearsley (1996) com a taxonomia de Bloom (1956), que é um sistema de classificação que permite aos educadores/professores comunicarem com maior precisão, metas e resultados aos seus alunos, conclui-se que na fase de desenvolvimento do modelo instrucional é
Implementação Avaliação
Análise
Desenho
muito importante que os professores criem objetivos de aprendizagem que sejam consistentes com as metas instrucionais e desenvolvam itens de avaliação/testes de acordo com os objetivos estabelecidos.