Bram Stoker foi um escritor que maturou seu talento para escrita ao longo de sua vida e das múltiplas atividades que exerceu. Em muitas de suas obras, incluindo o romance Drácula, é possível encontrar pontos de intersecção entre a ficção e as experiências vividas por ele na vida real como, por exemplo, lugares que visitou, pessoas que conheceu, assuntos pelos quais se interessou. Assim, para compreender o caminho percorrido até a publicação de Drácula, é necessário conhecer sua trajetória biográfica.
Abraham Stoker nasceu em 8 de novembro de 1847 em Clontarf, subúrbio de Dublin. Conhecido pelo apelido de Bram Stoker, ocupou-se de diversas atividades antes de escrever o romance que lhe transformou em um dos mais importantes escritores do fim da Era Vitoriana.
Filho de um funcionário público e de uma mulher envolvida em causas sociais, Bram Stoker foi o terceiro de sete filhos, mas, a despeito de sua imagem viril na vida adulta, foi uma criança muito doente, o que obrigou sua mãe a confiná-lo até os sete anos, quando, milagrosamente, ele tornou-se saudável.
A academia sempre esteve presente na vida de Stoker. Ele graduou-se em matemática, era interessado por física, literatura e história e concluiu seu mestrado com honras. Atuou no College Historical Society e tornou-se presidente da University Philosophical Society, onde demonstrou desenvoltura para a escrita com seu primeiro artigo, intitulado Sensacionalism in Fiction and Society.
Ainda jovem, Bram Stoker tornou-se funcionário público e, em 1871, com 24 anos, agregou a suas atividades à atuação como crítico de arte no Dublin
Evening Mail. Inicia-se aí a trajetória de um homem que viverá envolvido com a
literatura e com o teatro, até o final de seus dias.
Em 1872, Bram Stoker publicou, na London Society Magazine, seu primeiro conto, intitulado The Crystal Cup, e, desde então, ele não parou mais de escrever, sendo que, em 1875, três de seus contos são publicados na revista irlandesa Shamrock: The Primrose Path, Buried Treasures e The Chain of
Destiny, sendo, este último, o primeiro do autor com temática sobrenatural.
Em 1876, Bram Stoker inicia uma amizade que transformará o rumo de sua vida profissional. Nesse ano, ele conhece o ator em ascensão Henry Irving, que, na ocasião, estrelava uma produção irlandesa de Hamlet, promovida por Stoker. Os dois tornaram-se grandes amigos, até que Irving o convidou para administrar o
Lyceum Theatre, de Londres. Os anos vindouros serão os mais produtivos de
Stoker, visto que ele passará a conviver com a atmosfera artística e intelectual da moderna Londres.
Bram Stoker larga o funcionalismo público e, antes de se mudar para Londres, casa-se com Florence Anne Lemon Balcombe, ex-pretendente de Oscar Wilde, com quem, mais tarde, tem um filho, a quem dá o nome de Irving Noel Stoker.
Em 1979, o escritor lança The Duties of Clerks of Petty Sessions in Ireland, mais tarde rebatizado por ele de Dry and Dust, e para o qual ele se inspirou em sua vida no funcionalismo público.
Como produtor e gerente na companhia de Irving, Bram Stoker teve a oportunidade de viajar pela Europa e pela América do Norte. A essa altura, Henry Irving era um dos principais atores de sua época, gozando de poder e prestígio.
Se, por um lado, a carreira no teatro concedeu a Stoker a possibilidade de viajar e de prosperar, por outro, ela lhe tirou duas coisas importantes: a convivência com a família, principalmente com seu filho pequeno, e o tempo para dedicar-se a escrever seus romances e novelas. Em função disso, o ofício literário tornou-se atividade a ser desenvolvida no tempo livre; por isso, nessa fase, Stoker passou a dedicar-se aos contos, ou seja, pequenas histórias, mais rápidas e de mais fácil produção.
Como resultado, em 1881, ele publica uma coletânea de contos fantásticos infantis, intitulado Under the Sunset. Nesse mesmo ano, Stoker recebe uma medalha por heroísmo, ao tentar salvar um suicida.
Apesar do tempo escasso, a produção literária de Stoker nunca parou. Para se ter uma noção do quanto o escritor trabalhou ao longo de sua vida, ele conciliou seu atribulado cotidiano no teatro com a publicação dos seguintes trabalhos19: A Glimpse of America (1886), recontando as experiências da turnê de Irving à América; The Snake Pass(1890), uma aventura romântica; The Watter’s
Mou(1895) e The Shoulder of Shasta (1895). Mesmo após a publicação de
Drácula, em 1897, Bram Stoker continuou produzindo com considerável sucesso comercial e de crítica. Seus trabalhos publicados foram: Miss Betty (1898); The
Mistery of Sea (1902); The Jewel of Seven Stars (1903); The Man (1905), também
publicado com o título The Gates of Life; Lady Athlyne (1908); Snowbound: The
Record of a Theatrical Touring Party (1909); The Lady of the Shroud (1909),
história de uma mulher falsamente acusada de vampirismo e Lair of the White
Worm (1911), um curioso conto sobrenatural sobre um verme gigante em
Yorkshire.
Além da temática sobrenatural, muitos dos trabalhos de Bram Stoker versavam sobre romance e história, no entanto, em 1910, ele publicou um famoso livro de não ficção intitulado Famous Imposters,sobre fraudes históricas, além de um conto que se revelava uma paródia sobre Elizabeth I.
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Apesar do extenso portfólio, o maior sucesso de Bram Stoker, em vida, foram os dois volumes publicados por ele sobre as memórias e experiências ao lado de Henry Irving, intitulado Personal Reminiscenses of Henry Irving, publicado pouco depois da morte do ator em 1905.
De fato, a forte parceria e a profunda amizade entre Stoker e Irving permaneceram inabaladas até a morte do ator. Após a perda do amigo, Bram Stoker iniciou um caminho para a decadência, pois, mesmo mantendo sua produção literária, o escritor passou a enfrentar problemas financeiros e de saúde.
Bram Stoker morreu em Londres, em 20 de abril de 1912. Em 1914, sua mulher, Florence, publica uma coletânea de contos inéditos de horror e fantasia, escritos pelo marido, entre eles: Dracula’s Guest e The Judges House.
FIGURA 43 - Bram Stoker aos 37 anos FIGURA 44 - Capa do livro Dracula’s Guest an Other
Weird Stories. London: Routledge, 1914
Bram Stoker começou a trabalhar no romance Drácula20 em 1890, data das primeiras anotações do autor sobre o assunto. Foram sete anos de trabalho, nos quais se debruçou em enorme quantidade de material coletada por ele durante esse período. Dos assuntos de interesse para Bram Stoker e de uma pitada de suas experiências pessoais, surge a narrativa de Drácula.
O nome Drácula aparece para o autor em uma visita à biblioteca de Whitby, Yorkshire, durante uma viagem de verão. Na ocasião, Stoker teve contato !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
20 Chama-se atenção para o fato de que, a partir deste ponto do trabalho, haverá divergência na grafia da
palavra Drácula: quando for Dracula, sem acento, fará menção ao título original da obra em inglês e quando a palavra estiver acentuada poderá se referir tanto à personagem quanto à obra traduzida para o português. Essa diferenciação é importante para manter a legitimidade dos fatos que se associam à obra original.
com esse nome em um livro escrito em 1820, por William Wilkinson’s, sobre um príncipe da Transilvânia. “Naquele momento, Stoker batizou a criatura inspirada
pelo livro de Count Wampir” (KINGLER, 2008, p. XXXVIII).
Parece claro que Stoker fez uma deferência especial à localidade que lhe apresentou Drácula, colocando em seu romance a cidade de Whitby como a porta de entrada de Drácula para a Inglaterra, a exemplo da inspiração do autor na vida real.
O título do romance parece ter sido um ponto relevante para Stoker, visto que, até a época do lançamento da primeira edição, é possível encontrar anotações do autor com nomes diferentes. O manuscrito estava batizado de Un-
dead (não- morto ou morto-vivo) e existem anotações que revelam a possibilidade
de o romance ter sido intitulado The Dead Un-dead (o morto não-morto).
Exemplo disso é o fato de tanto a primeira versão do texto para o teatro, como o contrato assinado entre Stoker e a editora Constable & Co. (editora responsável pelas primeiras edições do romance), apresentavam o título The Un-
dead.
Independente do tempo levado e da quantidade de opções consideradas pelo autor, a decisão deve ter ocorrido antes da primeira aparição da história para o público, pois “não há histórico do romance com qualquer outro nome que não
seja Dracula.” (KINGLER, 2008, P. 2).
A primeira edição de Dracula, lançada em 1897, foi modesta, “apenas
3.000 unidades foram impressas e vendidas” (KLINGER, 2008. p. XXII). No
entanto, a segunda edição, impressa alguns meses após a primeira, conseguiu angariar fãs entre críticos e leitores. A despeito de alguns críticos que classificaram a obra como “altamente sensacionalista”, “nonsense” “sentimentalista”, “chocante e repulsiva” e, ainda, “pouco recomendado para quem sofre dos nervos”; Dracula recebeu resenhas calorosas como, por exemplo: “Uma longa história escrita com seriedade. O autor leva os leitores a se renderem
à imaginação”, (The Daily News – London, 27 de maio de 1897); “Rico em sensações. Poderoso e Horroroso”, (The Daily Mail – London, 1 de junho de 1897;
“Além de excelente, é uma das melhores obras na linha do sobrenatural jamais
escrita”, (Pall Mall Gazette – London, 1 de junho de 1897)21.
Em 1899, Dracula foi lançado nos Estados Unidos e, assim como na Inglaterra, o romance suscitou uma série de críticas que se revezavam entre elogios e depreciações.