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VEDLEGG 1. Kort dokumentasjon av konstruksjon og oppdatering av

2.4. Eksogene variable

O Romantismo e, posteriormente, o Gótico refletiram em suas narrativas uma das mais importantes rupturas que o homem vitoriano estabeleceu com a Idade Média: a relação com a morte.

Conforme abordado no capítulo anterior, a morte, na Idade Média, não era somente tema de angústias individuais e medos coletivos, era também o duto

distribuidor entre os polos que compunham o principal eixo dual da filosofia religiosa cristã: Paraíso e Inferno, isto é, Salvação e Condenação.

Acima de tudo, a morte era discutida abertamente e, justamente por isso, era tema para a arte, tanto a sacra quanto a popular. A morte, na Idade Média, estava no teatro, na literatura, nos cânticos religiosos, nas gravuras e pinturas, nas paredes das igrejas e nas lápides dos cemitérios. A morte era tema de conversa. Fazia parte das preocupações da vida.

No entanto, no século XVIII, o homem causou uma ruptura com a morte e suas representações, de tal forma que o tema tornou-se um tabu, um assunto proibido, aquele que, ao lado do sexo, passou a ser o maior problema com o qual o homem moderno teve de lidar. Esse rompimento foi tão intenso que “a partir do

século XIX, as imagens da morte são cada vez mais raras, desaparecendo completamente no decorrer do século XX; esse silêncio significa que esta rompeu seus grilhões e se tornou uma força selvagem e incompreensível”, (ARIÈS, 2003.

p. 159).

Os dias de grande guerra terminaram. O sangue é algo muito precioso nestes dias de vergonhosa paz, e as glórias das grandes raças são como uma lenda. – Drácula em conversa com Jonathan Harker em seu castelo.(STOKER, 2009. p.258)

A morte passou a ser um drama na exata medida em que o individualismo ganhava força e que o corpo adquiria importância e, quanto mais as imagens da morte se extinguiam da representação artística e religiosa ─ silenciando o tema ─ mais elas migravam para o imaginário, resultando em uma série de medos infundados e fantasiosos como, por exemplo, o da morte aparente e o do sepultamento ainda com vida, conforme mostra Philippe Ariès:

Efetivamente, existe uma ponte entre os dois mundos, que é o medo de ser enterrado vivo e a ameaça da morte aparente. Estes surgem no testamento na segunda metade do século XVIII e duram até a metade do século XIX. Entendia-se por morte aparente um estado muito diferente do nosso atual estado de coma. Era um estado de insensibilidade que se assemelhava tanto à morte quanto à vida. Vida e morte eram, então, igualmente aparentes e confundíveis. O morto podia despertar desejo, mas o vivo também podia ser encerrado na prisão do túmulo e acordar em meio a indizíveis sofrimentos.(ARIÈS, 2003. p. 157)

Seria uma pouco provável coincidência se Bram Stoker não tivesse se deixado influenciar pelas questões relativas à morte e aos mortos, que atormentavam o homem à porta da modernidade. Mortos-vivos e cadáveres que exerciam uma influência sensualizada, conservando a boa aparência e irrompendo em práticas quase sexuais, eram um reflexo dantesco do medo que permeava a sociedade à época do romance. Não só a personagem título incorpora essas questões como algumas passagens representam, literalmente, o temor em questão, além de materializar uma espécie de atração macabra que os corpos mortos exerciam sobre as pessoas:

Van Helsing foi até o caixão de Lucy e eu o segui. Ele se curvou e tornou a afastar a aba de chumbo; fiquei chocado, num misto de surpresa e desânimo. Ali estava Lucy, e seu aspecto era idêntico ao da noite anterior ao funeral. Estava, se possível, mais bela e radiante do que nunca, e eu não podia acreditar que estivesse morta. Os lábios estavam vermelhos, ainda mais vermelhos do que antes, e havia um delicado rubor em sua face. – Dr. Seward descrevendo o momento em que adentrou a sepultura de Lucy Westenra. (STOKER, 2009. p. 436)

Eu sabia que havia pelo menos três sepulturas a encontrar – sepulturas habitadas. Procurei, procurei e encontrei uma delas. Lá estava ela, em seu sono de vampira, tão cheia de vida e voluptuosa beleza que estremeci como se tivesse ido ali cometer um assassinato.” – Van Helsing narrando a caça às vampiras de Drácula. (STOKER, 2009. p. 616)

O corpo era, de fato, um motivo de desconforto nos séculos XVIII e XIX, muito em função da intensa repressão sexual que mantinha os corpos cobertos e distantes a todo custo.

Além disso, desde a Revolução Industrial, o corpo assumiu uma posição de destaque na sobrevivência pessoal, uma vez que, na vida operária, passou a ser do esforço físico que se conseguia o fruto do trabalho. Manter o corpo forte e sadio, em plenas condições de atividade, tornou-se questão primordial para burgueses e operários.

Da relação conscientemente funcional com o corpo, isto é, com a máquina que os mantinha em operação, retornou à baila a má impressão em relação à decomposição da carne morta. Novamente, relacionado à morte é considerado macabro e soturno, fazendo com que a atmosfera em torno de algo tão cotidiano, torne-se cada vez mais pesada de se conviver.

À luz do dia, cheio de grinaldas de flores, o túmulo já parecera soturno e assustador o suficiente. Agora, porém, alguns dias depois, quando as flores pendiam mortas, o branco enferrujara e o verde se transformara em marrom; quando as aranhas e os besouros haviam retornado aos seus domínios habituais; quando a pedra descolorida e a argamassa onde a poeira se incrustava, e o ferro oxidado e úmido e o bronze embaçado e a prata manchada refletiam o brilho débil da vela, o efeito era mais sórdido e miserável do que se poderia imaginar. Transmitia de forma convincente a ideia de que não era apenas a vida – a vida animal que se acabava. – Dr. Seward descrevendo o momento em que adentrou o túmulo de Lucy Westenra pela primeira vez. (STOKER, 2009. p. 174)

A sordidez da morte, aliada à uma certa crise da religião que se impunha da disputa entre protestantismo e catolicismo, fez com que o homem afastasse a crença no além morte, passando a encará-la não só como a falência do corpo, mas, principalmente, como o fim absoluto. O indivíduo teve de aprender a conviver com a iminência de seu próprio óbito, ao mesmo tempo em que era cotidianamente privado da companhia do outro. A morte era uma certeza sofrível.

A total racionalização do corpo fez com que, pela primeira vez, na sociedade ocidental, a morte fosse entendida como uma ruptura. Não mais passagem para a vida eterna, não mais possibilidades de além vida: a morte é um fim. A experiência do óbito passa a ser traumática porque subentende não só o fim da matéria, mas de tudo. Além de intensificar a angústia do homem diante de seu próprio desaparecimento, essa nova percepção traz o entendimento do fim do outro, da impossibilidade de reencontrar os entes amados em outra esfera. (SCHMITT, 2010. p. 167)

No contexto da valorização do corpo, da repugnante decomposição da carne e infalibilidade da morte, o processo de luto adquiriu importância, de forma que os funerais, bem como os cemitérios e os túmulos familiares, passaram a representar o momento de convivência com o indivíduo que se foi, mesmo após a morte. Fotos e flores compunham o jazigo, mantendo uma evanescente referência à vida daquela pessoa.

A ideia de espaços destinados aos cemitérios com pedaços de terra pertencentes a uma determinada família e que eram visitados constantemente como uma deferência ao morto impingiu o silêncio da morte ao cotidiano da cidade e das famílias, sem que, no entanto, ele fosse discutido abertamente. A morte transforma-se em presença desagradável que se tenta, mas não se consegue, ignorar. Todo o ritual do luto, incluindo a vestimenta preta (austera,

sóbria e, até certo ponto, mórbida), torna-se de vital importância para a convivência com o terrível tema da morte.

Na narrativa de Stoker, todas os pontos relacionados à morte, aos cemitérios, aos túmulos e ao luto receberam profundo destaque, de forma que, incontestavelmente, é dali que a narrativa emerge e é ali que ela se conclui.