3. MODELLUTFORMING OG ØKONOMETRISK SPESIFIKASJON
6.2. En sammenlikning med resultatene fra andre prosjekter
A Londres do final do século XIX era um retrato da nova modernidade, uma metrópole que se inspirava em todos os aspectos do futuro, perseguindo o novo, enquanto rechaçava hábitos e costumes do passado. Em todas as áreas, a Londres pós-Revolução Industrial era um caminho para o desconhecido.
É exatamente nessa brecha entre o que se busca e o que se teme, entre o que se conhece e que não se quer conhecer, que Bram Stoker apostou no sobrenatural, temática recorrente em seus contos e na qual ele apostou fundo em seu romance, mesmo quando o público parecia desconsiderar a sobrenaturalidade como pertencente a um mundo minimamente crível.
Mesmo assim, há que se compreender que a sobrenaturalidade no romance Drácula estaria intimamente relacionada à racionalidade, ao conhecimento científico, ao naturalismo, à religiosidade e à violência, todos os aspectos que permeavam os anseios, temores e pensamentos da sociedade londrina da época, e que representavam a ebulição social e intelectual de então.
De forma nenhuma tratava-se de um sobrenatural ligado aos fantasmas, mas, ao contrário, era um sobrenatural representado pelo terreno, moldado sob as reges da realidade e da naturalidade, relacionado ao cotidiano e inspirado
pelos dois maiores temores do homem moderno: a Morte e o Duplo. A morte significando uma insólita contingência da vida e o Duplo representando a diminuição da importância do EU, preocupação crescente, resultante de um individualismo exacerbado, iniciado ainda no Renascimento e, mais adiante, na Era Vitoriana. Além disso, a duplicata remetia à automação, ao seriado, ao inumano e ao maquinário, conceitos intrigantes que batiam à porta do século XX, o século das máquinas e da substituição do homem, do corpo e da alma.
O motivo para que o sobrenatural estivesse tão próximo da realidade encontra raízes no período Iluminista e na Razão Pura kantiana22 do século XVIII. Desde aquela época, o sobrenatural passou a sofrer com a descrença de uma audiência que tendia a não considerar algo que não pudesse ser observado, testado e comprovado. Tratava-se de uma linha de pensamento que dominava todas as dimensões do conhecimento, da civilidade e da diversão. A ordem natural e a racionalidade eram o motor para o funcionamento do mundo e, sob essa ótica, nada poderia ficar sem uma explicação lógica, nem mesmo as ocorrências de uma narrativa literária.
Em termos gerais, a atitude cética da audiência tipificou as narrativas fantásticas de horror da época, transformando aspectos da realidade, tais como a violência urbana, em fatores muito mais aterradores do que fantasmas e possessões espirituais.
Aliás, a necessidade de observação, bem como de comprovação documental, ditou o formato epistolar da obra de Stoker, totalmente baseada na confecção de diários (hábito muito comum na época e poderoso instrumento de registro do cotidiano), em cartas trocadas (em que se costumavam contar os mais íntimos segredos e temores) e recortes de jornal (o suporte de difusão de informação que gozava da mais alta credibilidade na época).
O formato epistolar confere à história cunho de relato fidedigno baseado em provas e registros reunidos, que conferem veracidade aos mais duvidosos e estranhos fatos narrados. Tamanha era a relevância dessa estrutura que, no
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22 Kant postulava um racionalismo crítico, doutrina que elevava a razão ao patamar de único instrumento para
o conhecimento do real. “Doutrina que privilegia a razão dentre todas as faculdades humanas, considerando-
a como fundamento de todo conhecimento possível. O racionalismo considera que o real é a última análise racional e que a razão é portanto capaz de conhecer o real e de chegar à verdade sobre a natureza das coisas.” (JAPIASSÚ, MARCONDES, 2006. p. 233).
prefácio da primeira tradução do romance, Stoker ocupou-se em advertir o leitor sobre a importância documental do formato narrativo.
O ceticismo racional que permeava o pensamento da época foi, portanto, influência determinante na conformação da personagem título. O Conde Drácula é indiscutivelmente uma personagem sobrenatural. No entanto, não há como negar que essa anomalia está salvaguardada em Drácula pela imagem e semelhança mantida com a figura humana. Verdadeiramente, Drácula é um ex-homem que age e pensa como tal. Ademais, os planos de Drácula são elaborados por ele na mais rígida racionalidade, tanto que as fontes para articulação de suas ações são os conhecimentos advindos dos livros e dos mapas.
Que espécie de homem é esse, ou que espécie de criatura semelhante a um homem é essa? Sinto o pavor deste lugar horrível dominar-me; tenho medo – um medo terrível – e não há possibilidade de fuga. Estou rodeado de terrores que não ouso imaginar. – Jonathan Harker ao ter a primeira visão de Drácula descendo as paredes do castelo. (STOKER, 2009. p. 264)
Logo em seguida ele me deixou, desculpando-se e pedindo que eu juntasse todos os meus papéis. Ausentou-se durante algum tempo, e comecei a folhear alguns dos livros ao meu redor. Um deles era um atlas, que descobri abrir-se facilmente nas páginas que tratavam da Inglaterra, como se aquele mapa tivesse sido muito usado. Ao abri-lo, descobri que em certas partes havia pequenos círculos marcados, e, examinando-os, notei que um ficava nos arredores de Londres, a leste, precisamente onde sua nova propriedade estava situada. Os outros dois eram Exeter e Whitby, na costa de Yorkshire. – Jonathan Harker após conversa com Drácula no castelo do Conde. (STOKER, 2009. p. 252)
Do outro lado da corrente, é também na Ciência e na História que a certeza da vitória do Bem contra o Mal está calcada. Dois médicos, um corretor de imóveis, uma professora com tendências jornalísticas, um jovem aristocrata e dois jovens viris formam a equipe que derrotará o Conde, não há nada mais real e cotidiano do que isso.
Também a aproximação com o leitor dá-se por meio da ambientação do romance. É na própria Inglaterra que a trama desenrola-se, local onde qualquer um dos leitores poderia ter se tornado testemunha dos fatos narrados: “foi aqui, na minha vizinhança, que aquele caso ocorreu”. Mesmo a exoticidade do Conde tem endereço certo e real, e a estranheza da personagem reside no mesmo ponto em que se situa a credibilidade de sua natureza sobrenatural: as distantes terras
do Leste Europeu. A forma como Bram Stoker aborda essa origem distante e fascinante contribui para a atmosfera misteriosa que envolve a personagem Drácula.
Como tinha algum tempo livre quando estava em Londres, visitara o Museu Britânico, e consultara, na biblioteca, os livros e os mapas referentes à Transilvânia. Ocorrera-me que algum conhecimento prévio sobre a região provavelmente me seria útil para lidar com um nobre do local. Descobri que o distrito por ele mencionado fica no extremo leste do país, na fronteira de três estados – Transilvânia, Moldávia e Bucovina -, no meio dos Montes Cárpatos. Trata-se de um dos lugares mais inóspitos e menos conhecidos da Europa. Não consegui descobrir através dos mapas e livros a localização exata do Castelo de Drácula, pois ainda não há mapas dessa região comparáveis com os nossos, descobri que Bistritz, a cidade de distribuição de correspondência da região, mencionada pelo Conde Drácula é um lugar bastante conhecido. – Jonathan Harker no trem a caminho do Castelo de Drácula. (STOKER, 2009. p. 230)
Outra relação interessante com a realidade está nas mortes ocorridas na trama. Todas elas são extremamente violentas e passíveis de tornarem-se reais, envolvem sangue, cabeças cortadas, estacas e punhais enfincados no corpo, além de certa dose de canibalismo. Há, naquelas mortes, particularidades que se repetem, como na ação de um serial killer, afinal, os serial killers eram um dos maiores temores da época, a exemplo do terrível Jack – O Estripador.
Mesmo as técnicas para eliminação do Drácula sobrenatural são humanizadas e violentas, a exemplo da estaca no coração (que já não existe) e o decepamento da cabeça (que já não se conecta com o corpo morto). Portanto, métodos totalmente inócuos para um ser que já está efetivamente morto, mas que, em termos de racionalidade e legitimidade, tornam-se indiscutivelmente simbólicos.