• No results found

Begreper tilknyttet makt

3.1 Innledende tanker:

8.2.1 O corpo e o atleta

O corpo é uma rede de experiências simbólicas pelo qual interagimos com o mundo. O homem se faz presente no mundo por meio dele, emprestando a ele uma intencionalidade que ultrapassa o material e o biológico. Revela um complexo sistema de valores acumulados ao longo da vida (LE BRETON, 2003). A compreensão humana do mundo está vinculada à compreensão de sua condição, à sua existência corporal e à cultura. O corpo sempre será um tema propício a uma análise antropológica. Por meio dele, o homem vive e acumula experiências e sentidos, encarnando todo o simbolismo da existência humana. O corpo do atleta é um corpo muito particular, do qual muito se exige.

O corpo do atleta é muito forte, sofre o castigo do treinamento e vai eliminando essas dorzinhas. (ATLETA 7).

Tem hora que o corpo está pedindo para parar, mas você tem que vencer pela sua família, pela sua vida, por você, pelo país. A vontade de ser campeão sobressai! (ATLETA 4).

Para o atleta de alto rendimento, o corpo é o seu instrumento de trabalho, dispondo dele para ir ao limite e mesmo superá-lo.

Eu aprendi ao longo dos anos que o corpo é o meu instrumento de trabalho é preciso cuidar muito bem dele. (ATLETA 1).

Meu corpo foi um instrumento de trabalho não só fisicamente, mas também mentalmente. (ATLETA 6).

O esporte te prepara para ir ao extremo, principalmente o de alto rendimento porque ninguém chega ao alto rendimento se ele não trabalhar acima de 100%. (ATLETA 3).

A gente busca exatamente sair da zona de conforto, o atleta amador só corre na zona de conforto. (ATLETA 5).

Quase inevitavelmente na rotina e trajetória destes corpos, estará presente a permanente ocorrência de lesões físicas, dor, distúrbios psicológicos. Na busca incansável por desempenho, o atleta em muitas oportunidades irá dispor incondicionalmente dele, conduzindo-o ao limite, competindo com lesão, competindo

com dor e tentando superá-la, mesmo que isso venha a significar um permanente prejuízo futuro.

No próprio corpo você vai encontrar seu limite, mas dentro do jogo nem sempre seu limite é suficiente. (ATLETA 2).

Se trabalhar a 80% você não vai chegar nunca a um título internacional. O limite do corpo é sempre ultrapassando, por isso temos sequelas. Todos os atletas de alto rendimento, independente das atividades esportivas, todos eles, vão ter sequelas no futuro. (ATLETA 3)

O esporte é uma das formas mais significativas de aprendizado corporal. Nada é simultaneamente tão livres e controladas quanto as habilidades de um atleta.

No esporte, você cria a automatização dos movimentos para poder pensar em outras coisas. (ATLETA 2).

O esquema corporal no esporte de elite compreende as habilidades exigidas para o bom desempenho do atleta, e estas podem ser transformadas, criadas e moldadas dependendo da interação com os outros jogadores, uma vez que o significado do ambiente que cerca uma interação social constitui a “fachada” dos comportamentos humanos.

Já joguei com dor porque muitas vezes a equipe precisa de você e você precisa jogar. (ATLETA 9).

Com o enfoque do Interacionismo Simbólico, percebemos com mais clareza como o corpo é representado cotidianamente. Isso fica bem evidente entre os atletas quando percebemos um relacionamento paradoxal com seu corpo. Por vezes, eles o entendem como uma máquina, instrumento de trabalho, treinado e disciplinado para o objetivo fim; um corpo dissociado do homem que assegura sua existência.

Eu vejo meu corpo como uma máquina, claro que é, mas uma máquina que tem que estar sempre muito bem cuidada. (ATLETA 1).

Acho que meu corpo é como uma máquina. Eu sei que se ele ficar quinze dias parado não vai funcionar da mesma maneira, então eu tenho que treinar ele. (ATLETA 9).

O atleta vai se sentir mal somente quando estiver machucado. Antes não, as coisas vão acontecendo, vai levando! Ninguém pode estar no esporte pensando no que vai acontecer. Se vai se lesionar. Não condiz com o esporte. No esporte tem que ir para frente sempre. (ATLETA 3).

Por outro lado, quando lesionados e com o aparecimento da dor, há um estreitamento de vínculos, uma relação mais íntima entre o atleta e seu corpo. O sofrimento e a insegurança os aproximam.

Olha, passa um bocado de coisa na cabeça quando você se machuca. (ATLETA 2).

8.2.2 A dor e o atleta

Nosso trabalho tem mostrado que os significados da dor são oriundos de uma construção social e os modos de exteriorização dela são próprios do grupo social e da sociedade em que o indivíduo está. As interações sociais e o ambiente esportivo como um produto cultural atribuirão a ela significados próprios.

As nossas dores são diferentes das dores de pessoas normais. Não só no meu caso, mas na maioria dos atletas de ponta, é uma amiga não é? A gente vive com a dor, ela dá os parâmetros se a coisa está boa ou não. Eu convivi durante muitos anos com as dores. (ATLETA 2)

A gente acha que a dor da gente é sempre maior. Ela é nossa companheira. Você levanta com dor, mas não deixa de fazer o que tem que fazer. (ATLETA 1).

O atleta desenvolve uma capacidade muito grande de absorver a dor. (ATLETA 7).

Os atletas são agentes sociais trabalhando ativamente, no sentido de atingir suas metas através de habilidades adquiridas ao longo de extenuantes treinamentos. A dor tem um profundo impacto sobre a prática esportiva de alto rendimento. Impõe severa tensão emocional, física e social sobre o atleta quando afastados, uma vez que o seu desempenho é de significativa importância na competição.

Aquela equipe precisa estar completa, para treinar e jogar. O atleta é pressionado pelo patrocinador que quer resultado, o técnico também corre o risco de perder seu emprego, os atletas correm o risco de serem dispensados. Há uma pressão e muitos atletas treinam sem condições de estar em atividade. (ATLETA 10).

Quando estou machucado, me sinto sim pressionado a voltar logo, ainda mais no nosso grupo que é um grupo vencedor. E um jogador que sai pesa bastante. A pressão é intensa. (ATLETA 9).

Devido à incerteza quanto ao momento do acometimento pela dor, os esportistas de alto rendimento são mais ou menos conscientes do prejuízo de seus

corpos e apenas consideram a necessidade de mantê-los em um estado livre de acidentes.

O atleta tem mais capacidade de absorver a dor, e ele recebe pancadas o tempo todo e aquilo passa a ser uma regra, você sabe que vai levar pancada. (ATLETA 7).

A incapacidade de competir se torna particularmente importante neste ambiente, e o atleta é constantemente sacrificado para o sucesso da organização desportiva em que se encontra. Para ele, a dor é uma constante em suas vidas, convivendo com o permanente risco de seu surgimento em treinos ou competições e por isso não pode sempre se afastar cada vez que ela aparecer.

Você convive com dores que são crônicas, não tem como parar toda hora para cuidar disso. (ATLETA 10).

Nos esportes individuais, a decisão de competir ou não com a presença de dor frequentemente é tomada pelo próprio atleta, ao contrário dos esportes coletivos carregados de grande influência dos seus componentes. Isto provavelmente se deve ao fato de ser possível, dentro das equipes, uma substituição por outro atleta em melhor condição.

Me sentia totalmente sozinha nesse processo. Nessa hora é você e você. Interessante que é característica marcante essa individualidade, depende de você. (ATLETA 6).

Quando estou com uma dor eu passo para a equipe médica e se ele falar que dá eu vou. (ATLETA 9).

Quando possível a decisão por parte do atleta, alguns elementos contribuem para a tomada de decisão no que diz respeito a interromper os seus treinamentos por estarem sentindo dor.

Eu não gosto de dor, mas sei conviver com ela. Na minha cabeça se eu perder um treino para mim é muita coisa e eu quero estar melhorando a cada dia. Você fica mais treinado para suportar a dor. (ATLETA 9).

Não raro, a decisão pelo afastamento acontece especialmente pelo medo que cerca o atleta de ser acometido por uma lesão ainda mais extensa e grave, que o manterá futuramente por um tempo maior afastado das competições.

O atleta tem que estar consciente de quando a dor é um sinal e de que pode vir depois as consequências piores. (ATLETA 5).

A experiência dolorosa pode ser problematizada em alguns grupos de atletas e normalizada em outros. O efeito dela é, pois, variável e os participantes de diferentes modalidades esportivas podem vivenciá-las de formas distintas.

O limiar da dor do atleta é geralmente muito mais alto. (ATLETA 5). Eu estou mais treinando para suportar a dor. (ATLETA 9).

A dor no ombro de um corredor pode não retirá-lo da competição, porém ela pode interromper a temporada ou a carreira de um jogador de voleibol. No esporte de alto rendimento, como sempre sugere a perspectiva interacionista, a situação em que ela acontece deve ser especialmente considerada.

Quando me machuquei na véspera do mundial, eu não tinha que dar tanta importância, a minha vontade de vencer não poderia ser suprimida por essa dor! (ATLETA 6).

Os pontos comuns, na percepção e interpretação da dor pelos atletas de alto rendimento, incluem o fato de considerarem-na particular e bem distinta da de outras pessoas. Afirmam serem treinados para suportá-la e possuírem uma maior tolerância à sua presença.

Vou ao dentista e não peço nem anestesia. Eu não tenho medo da dor, entendeu? Acredito que suporto mais a dor que as outras pessoas. Com certeza! (ATLETA 3).

Eu não tenho tanta tolerância à dor quanto eu tinha quando treinava, então acho que a dor é tão treinável, a gente busca exatamente isso. (ATLETA 5). Você tem que saber lidar com essa dor para não atrapalhar sua competição. A gente consegue fazer isso, mentalmente (ATLETA 4).

O treinamento esportivo ajudou bastante. A dor sempre esteve presente no meu corpo. (ATLETA 3).

Eu não gosto de dor, mas sei conviver com ela. (ATLETA 9).

Afirmam, ainda, que não estabelecem apenas um relacionamento negativo com este complexo fenômeno, mas admitem que a dor em muitas oportunidades serve como parâmetro de um bom treinamento, de uma condição competitiva melhor e até mesmo como resultado por terem desempenhado da melhor maneira o seu papel de atleta de elite.

Geralmente a gente fica meio masoquista! Se você fizer o exercício e não tiver uma dorzinha você sente a falta. (ATLETA 3).

A dor do treinamento é até gostosa, é uma dor que eu encaro muito naturalmente. (ATLETA 6).

Sentindo a dor durante o treinamento, você sente que está treinando mais, fazendo as coisas melhores, entendeu? (ATLETA 3).

Eu trabalho com a dor nesse sentido, tento superar aquela que é superável. (ATLETA 5).

A dor do alongamento é necessária, até faz sentido, existe uma dor que é natural do esporte. (ATLETA 3).