2. Formal and Informal AB Accounts
2.1 Informal AB accounts
Conforme expõe Bourdieu (2008b), um discurso valorizado é aquele produzido por um agente que tem o poder de falar e ser ouvido pelos demais, com isso, passa a exercer um poder majoritário dentro do campo. O agente produtor de discurso valorizado distingue-se entre os demais e usa a linguagem aceita como oficial, autorizada; ele tem capital de autoridade de tal forma que é compreendido, obedecido, acreditado, respeitado e reconhecido no campo pelos demais agentes (BOURDIEU, 1998). Contudo, Bourdieu (2008b) salienta que tanto os discursos valorizados quanto os desvalorizados constituem o campo, um se faz porque há a existência do outro, eles estão em constante embate e disputa por legitimação e reconhecimento. Consonante a isso, um discurso pode tornar-se valorizado e, em outro momento, pode deixar de sê-lo: tais mudanças de posições dentro do campo dependerão das relações de poder entre os agentes de acordo com a realidade social vigente.
Havendo mudanças nas relações de poder entre os agentes, o discurso valorizado e, por conseguinte, o desvalorizado também mudarão. Pelo fato de os discursos fazerem parte da realidade social, à medida que as relações de poder, também chamadas por relações de força, dentro do campo mudam, a realidade é modificada e os discursos também (BOURDIEU, 2008b). Cabe
ressaltar que não são todos os discursos produzidos no mercado linguístico que são consumidos pelos agentes, pois alguns se apresentam desvalorizados para as negociações linguísticas, mas aptos para produção e movimentação nas relações de forças sociais.
Especificamente, tratando sobre os discursos políticos de avaliação, pode-se perceber que em determinado momento histórico o discurso valorizado foi o da avaliação para classificar e controlar e em outro momento esse mesmo discurso passou a ser desvalorizado por agentes que faziam parte do campo da avaliação educacional por meio das práticas simbólicas e linguísticas que atuavam na realidade social. A título de exemplo, cita-se a Comissão Nacional de Reformulação da Educação Superior, criada em 1985, a qual teve a finalidade de elaborar um relatório a respeito da situação da educação superior. Conforme relatam Barreyro e Rothen (2008), o relatório da Comissão direcionava a avaliação para classificar e controlar a qualidade do ensino ofertado, além da diversificação do tipo de Instituição de Ensino Superior (IES). Por sua vez, no período do Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (PAIUB), são apresentados outros discursos acerca da avaliação. Saul (1991), ao desenvolver uma proposta de avaliação em um programa de pós-graduação na década de 1980, construiu o paradigma da avaliação emancipatória, o qual possui três vertentes teórico-metodológicas, que são: a avaliação democrática; a crítica institucional e criação coletiva; e a pesquisa participante. Nessas negociações linguísticas da avaliação, o paradigma avaliação emancipatória passa a atuar nas trocas linguísticas e simbólicas dos agentes como uma perspectiva de avaliação participativa e formativa, que descreve a realidade social e visa transformá-la.
Nessa conjuntura histórica, havia negociações dentro do campo da avaliação educacional envolvendo discursos para uma avaliação emancipatória, mas também discursos para uma avaliação classificatória e de controle da qualidade. As tensões nas relações de poder aumentavam, pois, cada agente de determinada concepção de avaliação buscava ter seus discursos políticos valorizados em detrimento da desvalorização do outro. Compreende-se, assim, que o discurso desvalorizado pode ser tanto aquele considerado trivial, rotineiro, coloquial, pois é popular e facilmente encontrado no mercado linguístico, como também pode ser aquele que antes era valorizado (raridade/legítimo), passando a ser desvalorizado devido aos dinamismos da realidade social. Os agentes educacionais produtores de discurso desvalorizado falam, escrevem, expressam seus posicionamentos, no entanto, não são reconhecidos e não têm legitimidades pelos demais.
Os discursos políticos valorizados e os desvalorizados não se reduzem apenas ao uso perfeito da gramática, é imprescindível que estejam incluídos no universo de um “patrimônio social” (BOURDIEU, 2008b, p. 42). Esse patrimônio social estabelece as distinções entre os agentes, o que gera o lucro de distinções nas trocas simbólicas. Esse lucro de distinção não é apenas o conhecimento gramatical, mas a valorização, a raridade dos produtos produzidos, isto é, do discurso. O patrimônio social pode ser adquirido por meio de acesso ao restrito, ao que é valorizado socialmente, ao que não é fornecido apenas pelo sistema escolar, conforme elucida Bourdieu (2008b).
O mercado linguístico do campo da avaliação educacional é um espaço complexo, de conflito e oposição. Contraditoriamente, é um espaço que propicia a unificação e a transformação dos discursos. Isso porque o agente produtor, seja do discurso valorizado, seja do desvalorizado, busca, dentro desse mercado, o reconhecimento, a legitimação, tanto por pares quanto por concorrentes, para validar o produto de bem simbólico e linguístico (BOURDIEU, 2008b). Eles, os discursos políticos (des)valorizados, são de extrema importância para o mercado linguístico, dinamizam-no, por meio de embates e de unificação, como já mencionado, eles podem apresentar-se aptos para a produção e movimentação nas relações de forças sociais no campo (BOURDIEU, 2008a, 2008b).
Há um fator interessante no mercado linguístico em que agem os discursos valorizados e os desvalorizados: é a denegação presente nas estruturas linguísticas, isto é, uma forma de falar, que na verdade busca negar o que se está dizendo. Para Bourdieu (2008b, p. 141), na denegação, ao se imputar descrédito às “significações primeiras, que continuam a funcionar como suporte oculto de inúmeras relações constitutivas do sistema patente, tem-se possibilidade de alçar o jogo duplo, por assim dizer, ao segundo grau”. Em outras palavras, a denegação é uma forma linguístico-simbólica dita, que, diante da realidade social das trocas linguísticas e simbólicas, difere da maneira com que podem agir os agentes educacionais, pois, na verdade, aquilo que foi dito possibilita uma outra prática que estava implícita no dizer. Por esse motivo, Bourdieu (2008b) salienta que esse é um jogo duplo.