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A etapa de sugestão do problema Design Science Research consiste em planejar e desenhar o artefato. (FREITAS JUNIOR et al, 2015). Para essa fase, foram elaborados os passos que permitem o acesso e a capacitação dos MEIs para execução do projeto. Assim, descreveu-se um plano inicial (Apêndice B) composto de cinco partes considerando o levantamento realizado na etapa de “consciência do problema”. Os atributos da competência empreendedora com maior número de citações apresentadas pelos MEIs, em razão da pesquisa de campo realizada, estão dispostos no plano inicial (Apêndice B).

Outro resultado importante da etapa de consciência do problema e também para a elaboração do artefato foi a definição da mídia a ser utilizada no estudo. E, dentre os resultados encontrados, o whatsapp foi escolhido, isso em razão do acesso da maioria dos MEIs a esse meio de comunicação e, portanto, terem familiaridade com esse aplicativo.

As abordagens de aprendizagem adotadas no estudo - “aprendizagem situada” e “pedagogia da autonomia” - foram consideradas na elaboração do artefato da seguinte maneira:

a) aprendizagem situada: todos os assuntos tratados foram considerados como aspectos integrantes da prática social dos MEIs; que a interação e colaboração nas atividades propostas fossem fomentadas no decorrer da capacitação; e que todo o conhecimento fosse discutido e refletido em um contexto autêntico, ou seja, relacionados com o contexto de atuação particular de cada MEI;

b) pedagogia da autonomia: foi considerada na reflexão das premissas dessa abordagem para pensar a forma de abordar os MEIs. A pesquisadora iria trabalhar diretamente com os participantes da capacitação e, nesse sentido, era fundamental se portar como mediadora/ orientadora durante o processo; considerando a compreensão de autonomia dessa abordagem em que o sujeito torna-se capaz de resolver as questões por si mesmo, especialmente por estarem em seu próprio contexto.

Conforme já foi descrito no capítulo de metodologia, foi criado um primeiro esboço do artefato (Apêndice B), o qual passou pela avaliação de uma professora com reconhecido saber na área da Educação para contribuir com a proposta. O retorno recebido foi de que a proposta não apresentava os princípios e métodos da Pedagogia da Autonomia (FREIRE, 1996), além da falta de clareza em relação aos pontos apresentados na abordagem da aprendizagem situada (LAVE; WENGER, 1991).

Com base nesse retorno, novas referências foram investigadas, especialmente sobre a Pedagogia da Autonomia, especificamente acerca do uso do método que Freire propôs voltado para a capacitação de trabalhadores. Conforme já foi relatado, foi difícil encontrar trabalhos que apresentassem o desenvolvimento prático da Pedagogia da Autonomia, em que fosse possível visualizar o método e adaptar para a proposta dessa tese. Em especial, foi difícil encontrar referências que apresentassem uma proposta para a qualificação de empreendedores e/ou donos de empresas. Dessa forma, após pesquisas e revisões necessárias, o artefato - método de capacitação (Apêndice C) - foi refeito e embasado nas seguintes referências: Brandão (1985), Brasil (2005), Feitosa (1999) e Freire (2014).

Para melhor aplicabilidade da Pedagogia da Autonomia, fez-se necessário compreender os princípios que versam sobre essa pedagogia e estão ligados diretamente às ideias de Freire. Os princípios são:

a) politicidade do ato educativo: Feitosa (1999) esclarece que a politicidade do ato educativo se dá quando o aprendiz é desafiado a refletir sobre seu papel na sociedade; e ao professor é atribuído o papel de coordenador do debate, problematizando as discussões para as opiniões e relatos que possam surgir.

b) dialogicidade do ato educativo: A dialogicidade, para Paulo Freire, “está ancorada no tripé educador-educando-objeto do conhecimento” (FEITOSA, 1999, p. 3, grifo nosso). O tripé da dialogicidade do ato educativo deste trabalho está na orientadora da capacitação (no caso, a própria pesquisadora, que estimulava o grupo) - MEIs (educandos) - e competências empreendedoras (objeto do conhecimento).

Esse princípio é explicado antes mesmo da prática pedagógica, conhecendo o universo vocabular, bem como as condições de vida dos educandos. Dessa forma, aproxima educador- educando-objeto do conhecimento em uma relação de justaposição, entendendo-se essa justaposição como atitude democrática, conscientizadora, libertadora, daí dialógica. (FEITOSA, 1999). Freire não considerava o método que ele havia idealizado como um método de ensinar e sim um método de conhecer. Esse método é composto por momentos nos quais é possível identificar uma sequência das ações. Assim, os momentos que compõem o método de Paulo Freire são:

a) 1º momento: Investigação Temática - Feitosa (1999, p. 5) explica que o estudo da realidade “não se limita a uma simples coleta de dados e fatos, mas deve, acima de tudo, perceber como o educando sente sua própria realidade, tendo condições de interagir no processo, ajudando-o a definir seu ponto de partida que irá traduzir-se no tema gerador geral”1;

A investigação temática neste trabalho ocorreu durante as entrevistas realizadas com os MEIs na etapa “consciência do problema” (1ª etapa da metodologia de DSR deste trabalho) que buscou, entre outros aspectos, entender as principais necessidades de capacitação destes no que se refere às competências empreendedoras.

1A expressão tema gerador geral está ligada à ideia de Interdisciplinaridade e está presente na metodologia freireana, pois tem como princípio metodológico a promoção de uma aprendizagem global, não fragmentada. (FEITOSA, 1999, p. 6).

Considerando os resultados dessa primeira etapa, foi possível identificar necessidades de desenvolvimento da competência empreendedora apontadas pelos próprios MEIs - especialmente aspectos relacionados aos negócios e à gestão, tais como: habilidades operacionais de negócios, habilidades de gestão e habilidades financeiras e orçamentárias. Foram encontradas outras necessidades nas categorias de competências empresariais, competências conceituais e de relacionamento e, ainda, competências de relações humanas. Ressalta-se que nem todas essas habilidades foram trabalhadas na capacitação. O foco foi no desenvolvimento da Competência de Negócio e Gestão por terem sido as mais citadas pelos participantes.

b) 2º momento: Tematização - implica na seleção dos temas geradores. Feitosa (1999, p. 7) aponta que “através da seleção de temas e palavras geradoras, realiza- se a codificação e decodificação desses temas buscando o seu significado social, ou seja, a consciência do vivido”. O conhecimento do tema gerador geral permite ao facilitador (educador) avançar além do limite em que os MEIs (educandos) têm da sua própria realidade, compreendendo melhor essa realidade, refletindo e intervindo criticamente;

Os temas geradores devem ter uma ilustração (desenho, fotografia e/ou vídeo) para que, com isso, seja possível suscitar debates no grupo. De acordo com Feitosa (1999), essa ilustração tem como objetivo a codificação, ou seja, a representação de um aspecto da realidade, de uma situação existencial construída pelos educandos em interação com esses elementos, ou até mesmo com a realidade em que se encontram.

Seguindo esses preceitos, na elaboração do plano de capacitação selecionou-se temas geradores que emergiram da etapa de consciência do problema, a partir das necessidades de capacitação indicadas pelos próprios MEIs, considerando assim o seu “contexto”, ponto de partida da aprendizagem situada e da pedagogia da autonomia. A escolha dos temas geradores partiu do conceito de que “educação autêntica, repitamos, não se faz de A para B ou de A sobre B, mas de A com B, mediatizados pelo mundo” (FREIRE, 2015, p. 116). Os temas geradores selecionados são apresentados no Quadro 22 (na sequência).

Foi pensada uma sequência para o desenvolvimento da capacitação com base nos temas geradores, mas não necessariamente seguiu-se essa ordem. A escolha para a disposição das unidades temáticas foi feita pelos próprios participantes na medida em que o curso foi se desenvolvendo, prevalecendo a proposta que vai ao encontro da necessidade do MEI, de forma situada, ou seja, a própria realidade e contexto.

Nesse sentido, a premissa “ensinar exige saber escutar”, de Freire (2014), fortaleceu a decisão de não seguir rigidamente os temas inicialmente identificados ou de sugerir o ordenamento rígido do plano, mas de permitir o surgimento de novos temas geradores, conforme o pensamento de Freire (2014, p. 121) “[...] é preciso que o educando vá assumindo o papel de sujeito da produção de sua inteligência do mundo e não apenas o de recebedor da que lhe seja transferida pelo professor”.

c) 3º momento: Problematização - É distanciar-se da educação bancária. É ajudar os aprendizes a elaborar problemas de forma que lhes permitam pensar, refletir com objetivo de contribuir com a sua capacidade crítica. “Na verdade, nenhum pensador, como nenhum cientista, elaborou seu pensamento ou sistematizou seu saber científico sem ter sido problematizado, desafiado” .(FREIRE, 1982, p. 54). Dessa forma, o 3º momento na sugestão do artefato foi a elaboração de questões problematizadoras. A proposta era de ter um ponto de partida por meio das questões problematizadoras e, assim, permitir a reflexão por parte dos MEIs na construção da sua aprendizagem, possibilitando-o pensar da seguinte maneira: Eu me considero uma empresa? Como de fato faço isso na minha empresa? Essas perguntas provocadoras visavam possibilitar a formação de novas questões problematizadoras formuladas pelos próprios MEIs, colaborando com o seu processo de construção do conhecimento.

O Quadro 22 permite visualizar os temas geradores e as questões problematizadoras utilizadas no método de capacitação (artefato). As divisões da capacitação em unidades estão embasadas no trabalho de Brasil (2005), objetivando a elaboração de uma oficina de capacitação pedagógica para a formação de multiplicadores no SUS (Sistema único de saúde). O trabalho de Brasil (2005) foi um dos poucos trabalhos encontrados que aplicavam a pedagogia da autonomia na realização de uma capacitação para trabalhadores.

Quadro 22 – Temas Geradores e Questões Problematizadoras de cada unidade do método de capacitação (artefato)

UNIDADE TEMAS GERADORES QUESTÕES PROBLEMATIZADORAS

UNIDADE I Como estabelecer minha empresa? - Ser um MEI; - Vantagens e Desvantagens em ser um MEI; - Direitos e Obrigações do MEI;

- O que é uma empresa.

1. Como você se tornou MEI

(Microempreendedor Individual)?

2. Como está sendo sua experiência como MEI? 3. Você sabe o que significa uma EMPRESA? 4. Você sabe o que precisa fazer para proteger os seus direitos como MEI?

5. Você conhece todos os seus deveres como MEI, e o que acontece se estes não forem cumpridos? UNIDADE II Como cuidar da minha documentação de MEI?

- Emissão de Nota Fiscal (Comércio e Prestação de serviço);

- Declaração Anual; - Alvará (este assunto é tratado visando a proteção dos direitos do MEI de forma que eles saibam que deverão se manter em dia com os órgãos públicos).

1. O que você sabe sobre o Imposto de Renda? Você fez a declaração de renda neste ano? Informe como você fez a declaração? Precisou da ajuda de alguém para fazer a declaração?

2. Como foi sua experiência em solicitar e retirar o alvará como MEI? Você sabe que o alvará deve ser retirado anualmente?

3. Você emite Nota Fiscal? Tem alguma dificuldade na emissão da Nota fiscal?

UNIDADE III Como controlar o dinheiro do meu negócio? - Processo de gestão financeira; - Tipos de Receitas e Despesas; - Capacidade da empresa de arcar com as despesas; - Como economizar; - Investir e/ou reinvestir.

1. Como você controla o seu dinheiro? Tem alguma anotação? Tem algum controle de compras e de vendas e outras despesas do seu negócio?

2. Quais são as suas dificuldades em relação aos controles do dinheiro da sua empresa? 3. Você enfrenta alguma dificuldade para economizar? Gostaria de saber como;

4. Você sabe como investir suas economias? Que dificuldades enfrenta?

UNIDADE IV Como obter empréstimos e lidar com as instituições financeiras? - Os diferentes tipos de empréstimos;

*a abordagem desse tópico visa ajudá-los a compreender a aquisição de empréstimo como possibilidade de investir na empresa e não em pagar dívidas;

1. Você já realizou algum empréstimo no banco? Como foi sua experiência, conte aqui; 2. Quais são os problemas que você enfrenta com os bancos?

- Como utilizar a máquina de débito e crédito;

* quais as vantagens; * qual o custo de manutenção;

* apresentar diferenças entre as máquinas;

3. Na sua empresa você utiliza máquina de cartão de crédito/débito? Se sim, como fez para adquirir a máquina?

4. Quais as suas dificuldades na utilização da máquina?

- Abertura e controle de conta jurídica e conta de pessoa física.

5. Como são suas atividades bancárias? Possui conta no banco? É conta pessoal ou da empresa? UNIDADE V Como cobrar meus clientes e evitar calotes? - Vendas a prazo; - Controle / registro dos clientes e das contas a receber; - Negociação em cobranças de clientes.

1. Na sua empresa, como você faz com as vendas a prazo? Como você controla essas vendas?

2. Você realiza algum cadastro de seus clientes, avaliando a sua capacidade de pagamento em dia?

3. Como você faz a cobrança dos clientes? Quais dificuldades enfrenta para fazer isso?

As questões problematizadoras foram apresentadas com o objetivo de despertar a consciência crítica do MEI a respeito do seu negócio e da maneira como administrá-lo. Os temas geradores ajudaram na condução do raciocínio do módulo. As formas de postagem dos temas geradores e questões problematizadoras no whatsapp foram realizadas pelas duas partes do processo: educador (facilitador) e educando (MEI), respeitando a autonomia e os saberes dos educandos. Dessa maneira, com diálogo e interação foi possível que os assuntos fossem sendo introduzidos e utilizados para explicar e também refletir sobre algo novo que surgiu. Em qualquer momento poderia surgir um novo tema gerador, fazendo com que o facilitador incentivasse a reflexão sobre o novo assunto apontado.

As questões problematizadoras basearam a reflexão crítica por parte do MEI e do facilitador da unidade, bem como a apresentação de conteúdos a respeito de como ele pode superar as dificuldades enfrentadas no seu negócio. Dessa maneira, diversos materiais audiovisuais (fotos, memes) utilizados para o desenvolvimento da capacitação foram produzidos de acordo com os temas geradores sugeridos, também novos temas que os MEIs propuseram. Os vídeos foram criados pela pesquisadora ou foram utilizados materiais já disponíveis na Internet, quando oportuno.

Além da postagem de material pela orientadora, houve o incentivo aos participantes da capacitação (MEIs) para que produzissem e compartilhassem material correspondente aos “temas” geradores (Ex.: fotos do seu negócio, vídeos, links), e isso ocorreu basicamente na 2ª capacitação, como segue na Figura 4:

Figura 4 – Postagens de material pelos participantes (MEIs)

Fonte: Elaborada pela autora com base nos dados da pesquisa.

A Figura 4 demonstra alguns dos materiais postados pelos participantes da 2ª capacitação. Observa-se que dentre os materiais tem-se: propagandas de um dos negócios e também a sugestão da máquina de cartão de crédito.

A formatação das mensagens com os temas, perguntas problematizadoras, comentários e conteúdos a respeito do assunto em questão para as postagens no grupo do whatsapp foram elaboradas considerando as limitações da tecnologia móvel, como o pequeno tamanho da tela da maioria dos dispositivos. (EL-HUSSEIN; CRONJE, 2010). Os textos eram curtos, em média 150 caracteres, e foram postados gradativamente pela pesquisadora. Dessa maneira, a postagem em pequenas unidades de informação visava favorecer o desenvolvimento da capacitação da literatura sobre affordances (CHURCHIL, D.; CHURCHIL, N., 2008; LIAW; HATALA; HUANG, 2010; RAMBE; BERE, 2013; WILLEMSE, 2015), além disso, buscava não gerar sobrecarga e dificuldades derivada das limitações ergonômicas do m-learning (ex.: tamanho da tela do smartphone) embasados nos seguintes referenciais: Hashemi et al. (2011), Piasecki-Kahle, Miao e Ariss (2012) e Saccol, Schlemmer e Barbosa (2011).

Assim, de acordo com a proposta metodológica da Pedagogia da Autonomia de Freire (1996), da aprendizagem situada de Lave e Wenger (1991) e, também, da literatura sobre affordances e limitações do m-learning, foi construído o plano de capacitação para os MEIs, conforme ilustrado na Figura 5. Vale destacar que cada unidade percorreu o mesmo ciclo.

Figura 5 – Processo de capacitação - visão geral

Fonte: Brasil (2005) adaptada pela autora

Dessa maneira, elaborou-se o artefato - método de capacitação (Apêndice B), e juntamente com o plano de capacitação algumas decisões foram tomadas, como segue:

a) primeiramente, abriu-se uma primeira turma com 30 alunos, sendo avaliada ao final. Conforme resultado da avaliação os ajustes no plano foram realizados e, posteriormente, foi aberta a segunda turma, com 45 alunos. Essa decisão de abrir primeiramente um 1º grupo com 30 alunos foi em razão de experimentar o método de capacitação - artefato para, após, realizar a melhoria e replicar em uma nova turma; b) o Qipu ([2017]) é um aplicativo gratuito que auxilia os empreendedores no controle de

despesas e receitas e ajuda a lembrá-los de suas obrigações. O aplicativo foi recomendado aos MEIs como um recurso auxiliar na capacitação. Fez-se a sugestão aos participantes que colocassem em prática o que aprenderam, no entanto, não funcionou como planejado, o que será explicado no momento da avaliação da DSR. Para finalizar o esclarecimento do desenho do artefato (plano de capacitação), apresenta-se a figura 6, que explica o funcionamento das unidades, dando visibilidade na relação estabelecida entre elas, permitindo que no momento sugerido pelos MEIs ocorra o desenvolvimento da unidade solicitada. Como já mencionado, apesar do método de capacitação (artefato) conter um ordenamento (I, II, III, IV e V), não necessariamente o

desenvolvimento ocorreu nessa sequência, exceto a sugestão para que o início da capacitação transcorresse com a Unidade I, e a execução das unidades seguintes seriam escolhidas pelos educandos (MEIs), podendo ser alteradas conforme a necessidade e curiosidade dos membros.

Figura 6 – Desenvolvimento do plano de capacitação

Fonte: Elaborada pela autora.