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A princípio buscou-se contextualizar historicamente o objeto deste estudo, apresentando a conjuntura em que as fontes históricas estão inseridas. No período em questão, existiram crises internas e a intervenção militar que marcaram o processo dessa experiência educacional considerada inovadora pela existência de um currículo flexível.

Para proceder com a análise de dados obtidos no decorrer da pesquisa utilizou-se uma coleção de slides cedidas pelo ex-professor Joseangelo Pompeu, doravante mencionado como Pompeu, a coleção supracitada contém cinco caixas com registros da prática realizada no trabalho de estudo do meio realizado pelos alunos e professores do João XXIII, porém apenas a primeira caixa, a de inscrição número 1, possui uma sequência escrita contendo a data e localização dos registros fotográficos, o que permitiu tomá-la como objeto histórico e fonte primária para a pesquisa. Uma vez que as demais caixas da coleção não apresentam essas informações. Os slides foram selecionados, um a um, tratam-se dos fragmentos de sequências

de um dado estudo do meio, os quais permitiram realizar uma análise mais detalhada da sequência, bem como tornou possível descrevê-la por meio dos dados registrados.

Como durante algum tempo na historiografia a imagem ficou em um segundo plano, muitas vezes servindo como um documento complementar para a construção de uma narrativa de cunho positivista, baseada no encadeamento factual e biográfico (LIMA; CARVALHO, 2015). Cabe salientar que o uso das fontes visuais não foi empregado como um documento complementar do tema ginásios vocacionais, mas como uma fonte primária e um recurso metodológico para a construção da narrativa das práticas de estudo do meio que se realizavam no ínterim assinalado. Sabe-se que:

Toda fotografia é um resíduo do passado. Um artefato que contém em si um fragmento determinado da realidade registrado fotograficamente. Se, por um lado, este artefato nos oferece indícios quanto aos elementos constitutivos (assunto, fotógrafo, tecnologia) que lhe deram origem, por outro o registro visual nele contido reúne um inventário de informações acera daquele preciso fragmento de espaço/ tempo retratado. O artefato fotográfico, através da matéria (que lhe dá corpo) e de sua expressão (o registro visual nele contido), constitui uma fonte histórica. (KOSSOY, 2014, p. 49).

A hipótese em questão era que esse conjunto de slides pode revelar concepções e práticas sobre o estudo do meio que acontecia no recorte temporal que vai do início da década de 60 até os anos 70 nos GVs. Nesse sentido buscou-se um fragmento, um resíduo da prática do estudo do meio nos vocacionais de Americana para poder tratar da experiência nesses espaços.

Desse modo, nesse processo, há o fotógrafo que retratou com uma intenção, a fotografia em si mesma, bem como o olhar do expectador da imagem em contextos específicos. A discussão sobre a função social da fotografia pode contribuir com a análise das fotos sobre o estudo do meio, bem como o resgate da memória pessoal de Pompeu sobre as fotos auxilia na composição da narrativa com detalhes acerca da prática, datas e local de realização. Além do material fotográfico analisado acrescentam-se os questionamentos suscitados pela pesquisadora – efetuadas na entrevista com o ex-professor Pompeu – os quais se centraram na prática existente dentro de uma cultura escolar que não só reproduz o que é oficial como também produz e resiste ao cotidiano.

Se por um lado, a fotografia possui uma natureza ficcional porque cria realidades. Essa não somente é produzida com certa finalidade e, dessa maneira, não deve ser olhada apenas enquanto produto de um processo ou fim, mas como parte de um ciclo que é anacrônico. Na foto há elementos estruturantes, o olhar do fotógrafo e a leitura do expectador; tudo isso

ocorre em tempos distintos com dados subjetivos que devem ser levados em consideração. (KOSSOY, 2014)

Em relação à natureza ficcional, há um caráter de representação que é inerente à fotografia. Uma característica que deve ser considerada é o processo de construção de realidades ou ficções, pois se trata de um registro que é obtido a partir de um processo de criação tanto por parte do observador da foto quanto por parte de quem fez o registro, ou seja, existe uma intenção ou finalidade anterior, a elaboração criativa ao longo do processo e o uso que se faz do documento. Ela tem um papel ideológico muito vinculado à ideia de memória que não pode ser colocado à margem. (KOSSOY, 1999)

Já sobre a natureza histórica, cabe contextualizar a imagem num contexto de produção e também à finalidade dela. É necessário buscar elementos para a sua compreensão como objeto de estudo e fonte histórica. Parece necessário, tendo em vista a fotografia enquanto uma fonte histórica visual, indagar essa fonte. Ela contém o recorte espacial em um dado momento de ocorrência ou interrupção temporal. A representação se dá a partir da realidade e ela é o assunto representado. De acordo Kossoy (1999), a segunda realidade5.

O valor documental advém do fato que essa imagem congela uma cena e esse espaço e tempo congelado pode ser questionada pelo pesquisador. Tendo em vista o conteúdo do documento, a fotografia pode ser vista como fonte multidisciplinar e importante para as mais diversas áreas do conhecimento prestando-se à recuperação de informações assim que submetidas a um prévio exame técnico-iconográfico e interpretativo (KOSSOY, 2014).

As imagens em questão foram delimitadas para além de sua natureza ficcional, sendo abordadas também em sua natureza histórica, uma vez que foram porque produzidas em uma conjuntura específica - debatida no capítulo anterior - e explicitada em registro escrito com data e local. Essas cenas, enquanto fontes históricas, também possuem um valor documental à medida que se referem a uma experiência educacional: a do estudo do meio nos ginásios estaduais vocacionais que abrangeu a década de 60.

      

5 A primeira realidade é a realidade de assunto em si. É a história particular do assunto independente da

representação e diz respeito ao contexto do assunto no momento do ato do registro. Também, são as ações e técnicas usadas pelo fotógrafo que culminam com a gravação da aparência do assunto sobre um suporte fotossensível. A imagem fotográfica contém uma história oculta e interna – é a realidade interior. Ela é, por um único momento, parte da primeira realidade – o instante do registro, quando é gerada. Findo o ato, a imagem obtida já passa a ter outra realidade, a segunda realidade. (KOSSOY,2014) 

2.1.1 Sobre a fotografia

Nos séculos XIX e XX, o advento da fotografia esteve associado a alguns usos sociais. O retrato é um deles, no sentido da autorrepresentação social e também na construção de uma identidade. As fotos de família produzidas em ateliês fotográficos e também os retratos como instrumento de documentação no campo científico foram, nesses períodos, pontos fundamentais no sentido do controle estatal por instituições.

Trazendo ao limite a discussão entre realidades e ficções, outra função social atrelada à fotografia estaria relacionada aos objetos da natureza para a classificação de plantas e animais, bem como imagens de paisagens. Mais uma vez, ressaltando, a natureza ficcional que cria realidades, pois, ficções.

Boris Kossoy (1999), entre outros pesquisadores, trabalhou analisando fotos que compuseram uma ideologia a ser representada. Essa ideologia por vezes aparece em imagens que criam uma dada cidade ou um dado Estado nação. As imagens foram muito utilizadas, por exemplo, na propaganda totalitarista da Alemanha e União Soviética. No Brasil, por meio das fotos de Taunay, para construir a ideia de um país muito parecido com a Europa e, outras vezes belo por seu exotismo, bastante romantizado.

Para o historiador que mobiliza fontes fotográficas na sua investigação sobre a sociedade, as análises raramente se restringem a uma única imagem. Trabalha-se, em geral, com séries documentais, pois só por meio da recorrência é possível aferir o alcance de determinadas soluções formais e temáticas socialmente adotadas. Em outras palavras, trata-se de identificar aqueles elementos que constituem padrões visuais em funcionamento na sociedade. Assim, diante de fontes fotográficas, o historiador não pode prescindir de métodos de análise que partam das especificidades da imagem, mas que devem alcançar sempre uma perspectiva plural, quer dizer, relacionando-a com outras. Além disso, as fontes fotográficas sozinhas não se bastam. A problemática histórica é que deve guiar a abordagem das fontes (LIMA; CARVALHO, 2015, p. 45).

Em uma sociedade de emergente industrialização, essa invenção burguesa se tornou um grande negócio, substituindo, dessa maneira a pedra litográfica. Cada vez mais utilizada, foi ampliando as funções sociais ao longo da história. A fotografia pode ser vista como um monumento à medida que cria verdades ou ideologias. (KOSSOY, 1999) Em contrapartida, pode ser analisada enquanto fonte primária por seu valor documental e por sua natureza histórica, além de ficcional.

A memória coletiva e a sua forma científica, a história, aplicam-se a dois tipos de materiais: os documentos e os monumentos.

De fato, o que sobrevive não é o conjunto daquilo que existiu no passado, mas uma escolha efetuada quer pelas forças que operam no desenvolvimento temporal do mundo e da humanidade, quer pelos que se dedicam à ciência do passado e do tempo que passa, os historiadores. (LE GOFF, 2010, p. 525 grifos do autor).

Desse modo, pode ser um documento/monumento se é lido ou analisado como prova ou testemunho de uma verdade. Pouco a pouco, a imagem foi adquirindo relevância na historiografia enquanto documento e fonte histórica visual (LIMA e CARVALHO, 2015) pois atua na memória e história, as palavras que devem vir justapostas.

Utilizar as fontes fotográficas para a pesquisa histórica, portanto, significa inicialmente entender que tamanha diversidade de usos gerou arquivos e coleções que podem ser encontrados não somente em instituições de guarda (arquivos, museus, bibliotecas etc), mas também nos seus locais de origem de produção ou no final do caminho de sua circulação (LIMA; CARVALHO, 2015, p. 34-35).

O contexto de produção, circulação, consumo, descarte e institucionalização deve sempre estar associado à fotografia. Devido aos usos sociais que se deram ao longo da história, elas se encontram em locais específicos de acordo com a finalidade, pois o texto da imagem fotográfica é o seu modo de apropriação como artefato.

Nessa dissertação, optou-se olhar para o acervo de um ex-professor dos ginásios vocacionais. Os slides foram feitos ou encomendados com uma finalidade, a qual não é possível saber apenas por eles mesmos; e, em paralelo, resgatam a memória daqueles que viveram essa experiência e contextualizam as práticas de um estudo do meio que existiu nos vocacionais. Esse é um material que não foi guardado por um agente histórico do contexto em questão e também é uma fonte que pode ser analisada como documento histórico porque possui história e memória.