Como vimos acima, os textos de Robert Venturi, Denise Scott Brown e Ste- ven Izenour tiveram grande influência no Departamento de Design e quando passarmos a abordar alguns dos exercícios dados aos alunos na época, es- pecialmente os de sequência vernacular, veremos que a leitura desses textos trazia referência e reflexão aos alunos e aos docentes.
Para a introdução dos conceitos de arquitetura de Robert Venturi, uma das principais referências do período de transição e da reflexão à influência do ver- nacular na escola, utilizaremos dois importantes textos: Complexidade e Con-
tradição em Arquitetura e Aprendendo com Las Vegas em coautoria de Denise
Scott Brown e Steven Izenour.
No primeiro texto, de 1966, a visão da complexidade e contradição verifica- se em relação à estrutura e à forma. Venturi (1995) percebe que a arquitetura deve ser de inclusão e não de exclusão, como era praticada pela tradição mo- derna. No texto, a crítica parte principalmente dos pressupostos de Mies van der Rohe do “menos é mais” e da análise de obras de outros arquitetos moder- nos como Le Corbusier, Alvar Aalto e Louis Kahn, nas quais foi possível verificar elementos contraditórios e simbólicos, principalmente, quanto à incorporação da pintura mural em algumas obras de Le Corbusier57. Venturi (1995) propõe a
arquitetura do “todo difícil” em oposição à “fácil unidade de exclusão”.
Aprendendo com Las Vegas, resultado de um estudo realizado em 1968,
publicado em 1972, trabalha com questões simbólicas e a busca da linguagem arquitetônica a partir de referências da cultura popular. Em entrevista a Barbara- lee Diamonstein, no programa American Architecture Now, em 1984, os autores, Denise Scott Brown e Steven Izenour, tratam da problemática do título do livro, apresentando que não se trata de um livro sobre Las Vegas, mas sobre a conexão do simbolismo com a arquitetura. Foi Denise Scott Brown quem convidou Venturi a visitar Las Vegas e, como afirmam na entrevista, foram inspirados pelos artigos
56 Tradução e adaptação do original em entrevista enviado por email em abril de 2011: At that time architecture and design appeared to be in transition from pure modernism to what we now call postmoderism. I felt as if I had one foot in the modern- ist tradition, as exemplified by the Swiss masters Armin Hoffman and Josef Müller-Brockmann and the other foot looking for the next foothold. For me, at the time, the influences included Swiss designer-educator Wolfgang Weingart, and the Punk move- ment, polar opposites on the design spectrum.
Product design was under the sway of practitioners such as Dieter Rams, Richard Sapper, and Mario Bellini. Ettore Sottsass had not yet formed his influential postmodern work group, Memphis.
I did not have an idea of what was to come but it was clear that a new movement was developing in all the design disciplines. 57 Exemplo de projeto de Le Corbusier: Ministério da Educação no Rio.
88
de Tom Wolfe sobre a cidade e pela pop art como expansão da sensibilidade.
Podemos, talvez, associar a influência de Tom Wolfe não só a respeito da narrativa sobre Las Vegas, como também sobre a nova abordagem inaugurada na mesma época por alguns jornalistas, o New Journalism. Essa abordagem não buscava tratar a notícia de maneira imparcial, como ideal do jornalismo tradicio- nal e objetivo, mas a tratava de modo subjetivo, imprimindo as interpretações do autor ao texto, levando em consideração a sua experiência e sua vivência (dis- ponível em: http://www.tomwolfe.com/KandyKolored.html acesso em 18/10/2010). Podemos verificar também a redação do livro Medo e delírio em Las Vegas por Hunter S. Thompson, cuja concepção de “jornalismo gonzo”58, uma variante do New Journalism, nos ajuda a entender o contexto da redação de Aprendendo com Las Vegas.
Com ironia, os autores na introdução de Aprendendo com Las Vegas, mos- tram como foi difícil conseguir recursos para a pesquisa, pois havia dificuldade de reconhecer o valor desse projeto, uma vez que tomava como base um dos maiores exemplos da decadência cultural norte-americana.
Na mesma entrevista, Barbaralee Diamonstein questiona os conceitos de “edifícios feios e ordinários”59. Denise Scott Brown responde que se alguém
quer ser revolucionário, deve fazê-lo sendo ordinário.
Análises de “Complexidade e Contradição” e “Aprendendo com Las Vegas”
Complexidade e contradição em arquitetura foi publicado pela primeira vez
em 1966, pelo Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA). Segundo Nesbitt (2008: 91), é curioso notar que a própria instituição que ajudou em 1932 a promover o estilo Internacional, promovia, agora, sua “ruptura”. Nesse livro Robert Venturi trabalha questões relativas ao abandono do simbolismo pelos arquitetos, afirmando que: “Os arquitetos já não podem se deixar intimidar pela linguagem puritanamente moralista da arquitetura moderna ortodoxa.” (VENTURI, 1995: 1)
Ele acredita que se deve passar a praticar o que ele considera “arquitetura de complexidade e contradição”, que não significa incoerência e arbitrariedade, embora possa parecer. Trata-se de arquitetura cujas partes, mesmo que plurais, se inter-relacionam em busca de uma unidade:
Uma arquitetura de complexidade e contradição tem uma obrigação especial em relação ao todo: sua verdade deve estar em sua totalidade ou em suas implicações de totalidade. Devem consubstanciar a difícil unidade de inclusão, em vez da fácil unidade de exclusão. Mais não é menos. (VENTURI, 1995: 2)
58 Descrição no obituário de Thompson para a Economist. Disponível em: http://www.economist.com/node/3690414 - acesso em 02/11/2011
89
Para tanto, o autor critica a posição de Mies van der Rohe, de que “menos é mais”, que caracteriza a arquitetura de exclusão. A ideia aqui é a de se traba- lhar a arquitetura inclusiva em que há lugar para o fragmento, a contradição, a multiplicidade e a improvisação. O autor inverte o argumento de Mies e conclui que: “A simplificação espalhafatosa significa arquitetura insípida. Menos é uma chatice”. (VENTURI, 1995: 6)
Venturi (1995) percebe também que a simplificação e a exclusão não eram regras e verifica a exceção:
Os melhores arquitetos do século XX têm geralmente rejeitado a simplificação – isto é, a simplicidade pela redução – a fim de promover a complexidade no todo. As obras de Alvar Aalto e Le Corbusier são exemplos. Mas as características de comple- xidade e contradição em suas obras são frequentemente ignoradas ou mal compre- endidas. (VENTURI, 1995: 7)
Em seguida, fizemos um diagrama com exemplos ilustrados por Venturi (1995) para demonstrar a inversão da relação de complexidade e simplicidade quanto ao objeto. Para ele há essa dualidade, um objeto pode ser simples quanto ao meio ou forma, embora complexo quanto à finalidade a que se pro- põe, ou seja, sua função.