• No results found

Ikke-kvantifiserte effekter

In document Effekter av energiforskningen (sider 28-33)

2. Hovedfunn

2.3 Ikke-kvantifiserte effekter

A primeira iniciativa de sistematização do método de ginástica brasileira foi o guia de Capoeira ou Ginástica Brasileira no ano de 1907, cujo autor assumia sob as inicias de O D C. Seu seguidor foi Anibal Burlarmaqui, que retomou, em 1928, com seu

trabalho Ginástica Nacional (Capoeiragem) Metodizada e Regrada, a tentativa de fazer da capoeira a ginástica nacional. Contudo, foi o professor Inezil Pena Marinho o grande organizador, com sua obra Subsídios para o Estudo da Metodologia da Capoeira do Treinamento da Capoeiragem, cujo objetivo era transformar a capoeira em uma prática esportiva para afirmar um projeto de sociedade que utilizava os elementos da cultura popular na constituição de uma identidade voltada para os mecanismos políticos do nacionalismo através do patriotismo .

Um outro fenômeno hegemônico que vai se articular com a indústria do turismo é a “esportivização” da capoeira. Inspirada no ideário político: “Brasil, ame-o ou deixe- o”, o esporte foi utilizado para veicular um discurso capaz de conduzir a juventude a não se envolver nos problemas políticos que o país enfrentava com a ditadura militar.

Nas primeiras décadas do século passado, mais aproximadamente a partir 1930, com o Estado Novo, o Brasil erguia-se em um ideário de modernização e industrialização. Neste momento, havia a pretensão das elites brasileiras de formar um “homem forte”, capaz de suportar o combate, a luta e evitar os vícios que deterioravam a saúde do corpo. Dessa forma, a ginástica, o desporto e todas as práticas corporais serviam como mecanismo de veiculação para tal ideologia.

Paralelos ao processo de importação dos métodos ginásticos oriundos dos países europeus que já circulavam nas instituições escolares, já existiam iniciativas, cujo objetivo era criar um método de ginástica genuinamente brasileiro.

Na cidade de Salvador, o fenômeno da esportivizaçao da capoeira vai tomar fôlego nas décadas de 60 e 70, quando, tendo como protagonista o Mestre Carlos Senna, começam as competições com a presença de agremiações exclusivamente do âmbito da capoeira, mudam-se totalmente as formas de procedimentos, criam-se regulamento, organizam-se campeonatos e constituem entidades responsáveis pelo gerenciamento dessa “nova” modalidade esportiva, organizam-se campeonatos com regras definidas na busca do padrão de um atleta, ao invés do capoeirista, e a medalha, é a forma de premiação pelos resultados obtidos, Dessa forma, surge a veiculação de um “novo” paradigma alicerçado na eficácia e no rendimento.

No capítulo II - Desportividade no seu art. 4ª - “A Confederação Brasileira de

limpa e cavalheira, com a observância irrestrita de todas as suas leis e regulamentos, no sentido de evitar-se, com a máxima precaução, as lesões ocasionadas por infração

desses dispositivos legais192.” O gerenciamento da capoeira enquanto modalidade

desportiva, preocupava-se apenas com a competição em si. A exigência de uma capoeira limpa e cavalheira retrata o sentimento de que os competidores deveriam agir de acordo com o regulamento e não poderiam, em hipótese alguma, utilizar elementos da capoeira que era praticada baseando-se nas antigas tradições.

Esse “novo modelo” da capoeira esportiva precisou modificar a sua estrutura para concorrer no mercado com as outras lutas que vinham ganhando prestígio na sociedade baiana e ocupando os espaços institucionais. Na tentativa de poder disputar essa fatia do mercado, a capoeira incorporou à sua estética elementos como graduação através das “fitas”, “cordas”, semelhante à utilização de faixa no Karatê e no Judô.

Mestre Itapoan comentou que Mestre Senna, idealizador da “capoeira estilizada”, justificava o uso da fita como instrumento da graduação: “A fita verde era o grau

máximo da academia dele [...] ele dizia o seguinte, cordão era pra enrolar pão, corda é de amarrar jegue, faixa é das outras lutas orientais e fita é único simbólico nobiliárquico, porque no balé a classificação é de fita, no vela é fita azul” Para Senna, a opção pela

fita reportaria aos significados de uma prática social mais nobre, próxima às atividades praticadas pela elite baiana. A iniciativa era de organizar a capoeira para que ela fosse “bem vista”, servindo de referência para a juventude. Os jornais noticiavam constantemente os eventos esportivos realizados pela SENAVOX:

Alcançou pleno êxito o I torneio de Capoeira realizado na sede do clube Baiano de Tênis, sob os auspícios do Centro de Instrução SENAVOX e orientação do professor Carlos Sena. O referido torneio que foi dividido em três partes – fita, peso e absoluto – teve como vencedor os jovens atletas”193

Com êxito invulgar, foi realizado no mês de agosto passado na sede do clube Baiano de Tênis no seu mês de aniversários o primeiro torneio interclube, sob a orientação e responsabilidade do Centro de Instrução Senavox, o precursor da capoeira como esporte. Assim sendo, a capoeira, depois de árduo trabalho do jovem esportista Carlos Sena, a sua maioridade, estando atualmente a merecer os maiores encômios de pessoas de todos os matizes194

192 Confederação Brasileira de Pugilismo – Regulamento Técnico da Capoeira, p. 2. 193 PRIMEIRO Tornei de Capoeira. A Tarde, Salvador, 17 set. 1964.

194 I TORNEI Inter – Clubes de Capoeira foi encerrado brilhantemente. Diário de Noticiais, Salvador 24

Interessante perceber que, em 1964, no começo da ditadura militar, a capoeira já apresentava uma certa organização como modalidade esportiva com as devidas categorias de fita, peso e absoluto, o que leva a crer que as primeiras iniciativas da capoeira esporte em Salvador antecediam os anos de 1960. Outro aspecto importante a ser ressaltado é em relação ao local do evento, o Clube Baiano de Tênis, que, na época, tinha entre os seus associados, pessoas representantes da elite baiana.

A realização das competições no referido clube refletia a necessidade de dar um determinado status social à capoeira. Se por um lado divulgava a capoeira como instrumento de “aceitação social’ pela classe dominante por ser uma atividade boa para a melhoria das capacidades físicas, espelhada no ideário esportivo, por outro lado, as formas de jogo vão sendo modificadas, distanciando-se, cada vez mais, dos modelos praticados pelos antigos Mestres e afastando-se, também, das pessoas simples e moradoras, na sua grande maioria, dos bairro “periféricos’.

Teses são projetadas na tentativa de regulamentá-la como modalidade esportiva. Os discursos valorizavam a idéia do corpo atleta, aquele que, a despeito de tudo, consegue obter o sucesso da vitória e da glória, a ostentação dos títulos recebidos com suas medalhas e troféus. O treinamento desportivo como paradigma para melhoria do desempenho físico e a inserção, cada vez maior, dos elementos ginástico na capoeira.

Se por um lado havia toda essa vontade de legitimá-la, por outro havia posições contrárias que não aceitavam o modelo proposto, criticando veementemente essa posição, mesmo com a participação de velhos mestres que, geralmente, eram convidados para compor o cenário dos campeonatos, os congressos técnicos, as bancas julgadoras e outras atividades; mas isso não significava dizer que eles estavam de acordo com o que estava ocorrendo, pois “eles, depois condenavam o resultado de

tudo aquilo que eles avalizavam: capoeirista transformados em gladiadores; a roda em ringue; o jogo em “combat” e outras coisas mais e más195.”

Essa injunção era a pressão das circunstâncias históricas que estavam sendo inter-cambiadas entre os grupos que defendiam a capoeira como “esporte nacional”

195 ABREU, Frederico. O ABC da capoeira: os manuscritos do Mestre Noronha/ Daniel Coutinho.

com suas formas e organização e que se nutria dos saberes dos velhos mestres afro- descendentes para autenticar e chancelar seus eventos; no entanto, os antigos mestres atribuíam outros significados ao acontecimento. Para eles, as formas praticadas pela capoeira esporte não representavam o significado histórico que eles tinham com sua arte.

Michel de Certau refaz a idéia de “sucesso” dos colonizadores em relação à imposição cultural ao povo indígena “muitas vezes esses indígenas faziam das ações

rituais, representações ou leis que lhes eram impostas outras coisas que não aquelas que o conquistador julgava obter por elas. Os indígenas as subvertiam, não rejeitando-a diretamente ou modificando-a, mas pela maneira de usá-la para fins e em função de referências estranhas ao sistema do qual não podiam fugir196 ”.

Comparando-se esse fato a realidade da capoeira, a presença dos Mestres nos eventos não significava que eles concordavam com o que vinha ocorrendo; os desejos eram outros bem diferentes daqueles atribuídos pelos organizadores, até porque, nas suas práticas diárias, nos seus barracões, nas suas academias e nos seus terreiros, não se constituíam a vertente da capoeira esporte. Aprenderam a lidar com os discursos dominantes da indústria do turismo e do fenômeno esportivo. Neste jogo de disputa, a “cultura popular” vai sendo recontextualizada e reconceptualizada a todo momento. Bom, se, por um lado, a capoeira esporte aumentava a visibilidade da capoeira, por outro, ela não correspondia os anseios dos antigos Mestres.

Capítulo 2

In document Effekter av energiforskningen (sider 28-33)