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A comunicação é a razão de ser de um espaço de memória. Ela envolve as estratégias desde a estruturação do projeto até a divulgação.

Comunicar-se, no sentido experiencial, é se vincular, tornar comum, compartilhar, intercambiar. A comunicação, assumida como trabalho específico ou relacionado com alguma outra tarefa do tipo cultural – muitas vezes pode transformar-se em produção de mensagens, manipulação de instrumentos ou canais, estratégias informativas (MATA, 1985, tradução nossa)47.

Sítios de consciência como a Villa Grimaldi são hoje espaços destinados a usar o lugar de memória como ferramenta pedagógica, através da comunicação

47 Comunicarse, en el sentido experiencial, suele ser vincularse, poner en común, compartir,

intercambiar. La comunicación asumida como trabajo específico o relacionado con alguna otra tarea de tipo cultural - suele transformarse en producción de mensajes, manejo de instrumentos o canales, estrategias informativas (MATA, 1985).

experiencial, promovendo a cultura dos direitos humanos e a reparação simbólica. Diferentemente dos meios de comunicação tradicionais, como o rádio, a televisão, dos impressos (como livros, jornais e revistas), das redes sociais virtuais e dos aplicativos, os sítios de consciência só podem ofertar seu conteúdo de forma presencial. Este é o seu principal viés. Trata-se de um espaço lúdico e experiencial que envolve o interesse do indivíduo por completo num certo momento.

Estes locais são referidos como exemplos de uma nova museologia (FERNÁNDEZ, 1999). Segundo esta interpretação, o sítio de consciência é um meio de comunicação. A justificativa é a de que o meio veicula uma mensagem grave, mas de forma sutil (SOUSA, 2009, p. 13). A mensagem do sitio de consciência é algo inerente a ele, o que o distingue de um meio de comunicação tradicional.

Mario Chagas (1996), segundo uma definição poética de "O que é um museu?” feita para o Instituto Brasileiro de Museus – IBRAM, diz que “os museus são pontes, portas e janelas que ligam e desligam mundos, tempos, culturas e pessoas diferentes; mas, na verdade, os museus são conceitos e práticas em metamorfose”. Essa dinâmica constante se deve aos estreitos laços que as práticas museológicas mantêm com a comunicação. Ao “ligar e desligar mundos”, o visitante tem a oportunidade de experienciar o momento da visita de forma única. Ele integra o espaço de memória e ali permanece em contato com aquele “mundo”. A atenção capturada do público lhe é exclusiva. Logo, sendo o sitio de consciência um meio, um canal, é um artifício de alta relevância, pois, através dele, a mensagem ganha uma visibilidade constante. Ela recebe um endereço físico. No momento da visitação, o museu é totalmente envolvente.

Público é o agrupamento espontâneo de pessoas adultas e/ou grupos sociais organizados, com ou sem contiguidade física, com abundância de informações, analisando uma controvérsia, com atitudes e opiniões múltiplas quanto à solução ou medidas a serem tomadas frente a ela; com ampla oportunidade de discussão e acompanhando ou participando do debate geral, através da interação pessoal ou dos veículos de comunicação, à procura de uma atitude comum, expressa em uma opinião ou decisão coletiva, que permitirá a ação conjugada (ANDRADE, 1975, p. 39).

De acordo com a afirmação de Andrade (1975), o público tem a capacidade e está disponível à interação proporcionada por tais locais de celebração e recordação. É o público de um memorial – comunidade, turistas, familiares e amigos

das vítimas e interessados em geral – que gera a demanda pela existência de um local como esse. Para Wainberg, “é a atração o reduto da diferença e a promotora da tensão (turística)” (2003, p. 15). O público que visita um sítio de consciência busca informações a respeito de uma experiência traumática vivida por outros seres humanos. Mas há um delicado limite na construção de um memorial, que fica no limite entre em ser um meio educativo ou mera fantasia.

O que motiva fluxos e fluxos de turistas a visitar antigos campos de concentração? Será que realmente necessitamos “ver para crer”, para não correr o risco de repetir a história? Em Auschwitz, na Cracóvia, dizem ser comum presenciar-se crises de revolta e indignação (OLIVEIRA, 2003, p. 25).

Ao envolver o turismo, alguns autores como Oliveira (2003) alertam para o limite que há entre a seriedade de um memorial e a espetacularização de uma tragédia. Foi este tipo de consideração que impediu, por exemplo, a construção de um shopping center próximo a Auschwitz. Le Goff (1988) comenta o consumo da memória como objeto:

busca, salvamento, exaltação da memória coletiva, não em seus eventos, mas, após um longo tempo, menos busca por essa memória em textos e comemorações, é uma associação de olhar histórico. Conversão compartilhada pelo público em geral, obcecado pelo medo de uma perda de memória, de uma amnésia coletiva, que se expressa desajeitadamente na "moda retrô" cruelmente explorada por comerciantes de memória, a memória tornou-se um dos objetos da sociedade de consumo que estão vendendo bem (LE GOFF, 1988, p. 170, tradução nossa)48.

A associação feita por Le Goff (1988) com a sociedade de consumo clama pelo pensamento crítico que deve acompanhar a materialização da memória. Ofertar um objeto, seja um lugar, seja um item palpável, sem propósito não caracteriza as intenções dos sítios de consciência. No caso de lugares de memória, existem legislações em cada país que autorizam a nomeação desses espaços como museus. Observa-se então que é necessário haver uma legitimação, uma

48 Recherche, sauvetage, exaltation de la mémoire collective non plus dans les évenements mais

dans le temps long, quête de cette mémoire moins dans les textes et la fête, c’est une conversion du regard historique. Conversion partagée par le grand public, obsédé par la crainte d’une perte de mémoire, d’une amnésie collective, qui s’exprime maladroitement dans la « mode retro » exploitée sans vergogne par les marchands de mémoire, la mémoire étant devenue un des objects de la société de consommation qui se vendent bien (LE GOFF, 1988, p. 170).

comprovação da história de eventos que aquele sítio testemunhou. A capacidade de um sítio de consciência como um meio de comunicação transmitir seu conteúdo de maneira pedagógica e didática valida o valor que ele apresenta à sociedade.

Parece, entretanto, que a verdadeira tarefa do museu é a da transmissão, entendida como uma comunicação unilateral no tempo, com o objetivo de permitir a cada um se apropriar da bagagem cultural que assegura a sua humanidade e sua inserção na sociedade (DESVALLÉES e MAIRESSE, 2013, p. 37).

Se a tarefa do museu é a de enquadrar a memória, educar e transmitir, o elo entre a museologia e a comunicação está nele concretizado.

Gráfico 2 – Diagrama do museu cibernético

Fonte: DELOCHE (1989).

No gráfico 2, o autor sugere uma centralização na criação como construção museológica. Analogamente, na relação então proposta poderia ser acrescentada a palavra “comunicação” e, assim, formar um novo diagrama voltado ao sítio de consciência. Esse sistema dinâmico remete à afirmação sobre a metamorfose do museu de Chagas (1996), para surpresa de muitos que acreditavam que o acervo e a reserva técnica patrimonial eram estáticos, parados no tempo e no espaço. É nessa emissão e recepção que a sociedade forma um vínculo com o lugar de memória. Graças a essa dinâmica, o museu se reinventa e o público retorna para acompanhar as novas atividades e exposições.

A aplicação do termo “comunicação” aos museus não é óbvia, apesar do uso que o ICOM faz dela em sua definição de museu adotada até 2007, que determina que o museu “adquire, conserva, estuda, comunica e expõe o patrimônio tangível e intangível da humanidade e de seu meio ambiente, para fins de educação, estudo e lazer (DESVALLÉES e MAIRESSE, 2013, p. 35, grifo nosso).

Na citação de Desvallées e Mairesse (2013) observa-se que a palavra “comunica” aparece como sendo um dos alicerces de um museu. As menções à educação e ao lazer remetem ao olhar do sítio de consciência como canal de comunicação.

A comunicação aparece simultaneamente como a apresentação dos resultados da pesquisa efetuada sobre as coleções (catálogos, artigos, conferências, exposições) e como o acesso aos objetos que compõem as coleções (exposições de longa duração e informações associadas). Esta perspectiva vê a exposição não apenas como parte integrante do processo de pesquisa, mas, também, como elemento de um sistema de comunicação mais geral,

compreendendo, por exemplo, as publicações científicas

(DESVALLÉES e MAIRESSE, 2013, p. 35, grifo nosso).

Além da constatação da comunicação em diversos âmbitos institucionais, de uma forma geral ela se tornou uma parte contundente da estruturação de um museu. Seguindo esse raciocínio, entende-se que “o museu comunica de maneira específica, por meio de um método que lhe é próprio, bem como utilizando todas as outras técnicas de comunicação, correndo o risco, talvez, de investir menos em suas características mais específicas” (DESVALLÉES e MAIRESSE, 2013, p. 37).

Os museus e os memoriais interligam emissores e receptores. Ligados à globalização, à mundialização e inerente ao capitalismo, os dispositivos de comunicação como os museus e memoriais interligam emissores e receptores. Se a comunicação é um grande dispositivo de informação para o jornalismo, de promoção para a publicidade, é um dispositivo que conecta públicos para as relações públicas, é, portanto, capaz de ser utilizado não somente a favor das grandes organizações e da mídia, mas principalmente a favor da sociedade.

Diversos museus – pelo menos os maiores – possuem um departamento de relações públicas, ou um “departamento de programas públicos”, que desenvolve as atividades destinadas a comunicar e a atingir os diversos setores do público, que são mais ou menos bem definidos, por meio de atividades clássicas ou inovadoras (eventos, encontros, publicações, animações “extramuros”, etc.) (DESVALLÉES e MAIRESSE, 2013, p. 37, grifo nosso).

Outra grande vantagem deste meio de comunicação é o uso pedagógico da visita coletiva a um sítio de consciência.

[…] No caso de uma mensagem midiática, o suporte utilizado não constitui um simples meio, neutro e transparente. O suporte se apropria da mensagem, impõe suas próprias formas e lhe outorga

efeitos de sentido, também estritamente específicos (LOCHARD;

BOYER, 2004, p. 10, tradução nossa)49.

Segundo Verón (1980), todos os suportes de sentidos acessíveis socialmente, como estampas de camisetas, placas, tatuagem e tantas outras manifestações de pertencimento, vindas dos públicos real e ideal50, compõem o conjunto denominado mídia. Um lugar de memória, portanto, pode ser visto também como um canal de comunicação. A reconstrução do passado através deste meio de comunicação e de educação coletiva oportuniza às novas gerações um contato mais estreito com a história.

A história é percebida como uma série de épocas separadas pela descontinuidade. Cada época se distingue por formas dominantes de meios de comunicação que absorvem, registram e transformam a informação em sistemas de conhecimento, em consonância com a estrutura de poder institucional da sociedade em questão (INNIS, 2011, p. 53).

A interatividade faz parte das estratégias dos novos formatos de museu. É um diferencial, pois, já que seu objetivo é a promoção da reflexão, é preciso proporcionar um ambiente dinâmico que impacte o público e o faça sentir parte dessa proposta de conscientização. Para Chang-Tai Hung (2011), “ver e, até mesmo, tocar memoriais é uma maneira de se conectar com os mortos e também é um gesto que pode diminuir a dor da perda"51 (p. 218, tradução nossa). Le Goff (1988) destaca a construção de monumentos aos mortos entre as manifestações da memória coletiva que, para ele, são significativas.

49

[…] en el caso de un mensaje mediático, el soporte utilizado no constituye un simple vehículo, neutro y transparente. El soporte se apropia del mensaje, le impone sus propias formas y le otorga

efectos de sentido, también sumamente específicos (LOCHARD; BOYER, 2004, p. 10).

50 Seminário: Analyse des dispositifs et des discours médiatiques, com o Professor Guy Lochard,

realizado em 18 de março de 2013, registrado em anotação pela autora.

51 Seeing, even touching memorials is a way of connecting with the dead and also a gesture that may

Ali a comemoração fúnebre encontra novo campo. Em vários países, o Túmulo do Soldado Desconhecido é erguido buscando empurrar os limites da memória associada ao anonimato, proclamando sobre o corpo não identificado a coesão da nação na memória comum (LE GOFF, 1988, p. 161, tradução nossa)52.

Wainberg (2010) diz que “(...) com tais recursos à sua disposição, os antepassados conseguem comandar em algum grau a vida dos vivos. Tudo o que nos chega do ambiente à consciência é sempre contrastado com este pano de fundo disposto em nossa alma” (WAINBERG, 2010). Ou seja, o imaginário é capaz de processar as informações adquiridas em um espaço de memória, elevando-as à criação de consciência a respeito do tema proposto. Ainda segundo Wainberg (2010), “socializar as novas gerações significa mostrar de onde viemos e o que nos foi legado no campo da ciência, dos costumes e do pensamento”. Essa consciência, passada de geração em geração, auxilia na propagação da educação para a paz, veementemente pregada nos sítios de consciência.

Precisa-se da memória e da musealização juntas para construir uma proteção contra a obsolescência e o desaparecimento, para combater a nossa profunda ansiedade com a velocidade de mudança e o contínuo encolhimento dos horizontes de tempo e de espaço (HUYSSEN, 2000, p. 28).

Segundo Martino (2005), estudar a cultura é uma forma de entender os efeitos da mídia, neste caso, dos sítios de consciência, na sociedade. É, também, estudar um lugar de fusão e encontro entre diferentes culturas.

O objeto de estudo desse centro é o cotidiano, que é influenciado pelos meios de comunicação. Diante disso, os estudiosos analisam a cultura como uma forma de entender a influência da mídia na cultura de uma sociedade, e também como sendo parte de um complexo cultural maior. Por outro lado, a proposta é estudar a cultura como um lugar de luta entre diferentes culturas, vinculadas a diferentes camadas da sociedade (MARTINO, 2005, p. 28-29).

É importante a realização de ações voltadas à compreensão do “outro”, tanto as realizadas nos espaços de memória como as que são desenvolvidas em outros

52 La commémoration funéraire y trouve um nouvel essor. Dans plusieurs pays un Tombeau au soldat

inconnu est érigé cherchant à repousser les limites de la memóire associée à l’anonymat, proclamant sur le cadavre sans nom la cohésion de la nation dans la mémoire commune (LE GOFF, 1988, p. 161).

ambientes pedagógicos. Nesta dissertação, ao citar os sítios de consciência como um meio de comunicação acessível a toda a população, pretende-se mostrar que esses lugares de memória são capazes de comunicar sobre certos eventos traumáticos que impactaram a humanidade e que também podem contribuir para a educação em direitos humanos.