3. KONSERNPROBLEMSTILLINGER 29
4.4 I NTERNASJONAL RASJONALISERING GJENNOM PARTNERSKAP
Quem vai ao Centro Cultural Mestre Noza? Há respostas diversas (pois são vários os motivos) para esta indagação e não necessariamente perpassam por uma questão de pura frequência estatística de público, onde se pode dividir em “classes”, como: idade, sexo, escolaridade etc. Não era o objetivo de pesquisa compreender a recepção do público do que é produzido no CCMN, mas sabendo da influência que o público tem sobre a produção – esta, sim, o foco da pesquisa –, é necessário buscar uma mínima noção de quem sejam e o que motiva os frequentadores e compradores do que é produzido ali no CCMN.
Obras feitas em Juazeiro do Norte ganharam espaço dentro de algumas camadas da sociedade cearense transformadas em “arte-decoração”. A exposição de decoração de interiores intitulada Casa Cor mostra bem o acontecimento dessa apropriação imagética por um determinado grupo social. A Ceart, na Praça Luíza Távora, é outro ponto de vista privilegiado, pois não funciona com a criação de um contexto de interconhecimento e os produtos não obedecem a uma apresentação como a de uma exposição artística e, tampouco, amontoam-se entre iguais, que lhe colocariam como uma coleção, como é feito no próprio CCMN.
Feiras, rodadas de negócios, como a promovida pelo SEBRAE, encomendas. São variadas as formas de negociação encontradas pelos artistas do CCMN. Dentre essas, uma começa a ganhar espaço, ao menos no imaginário econômico dos artistas: a internet. Na loja virtual, um site mantido pelo CCMN, são comercializadas e propagadas as obras de alguns membros do Centro, além de expor informações de alguns dos artistas, que, segundo eles, ajudam na venda como: obras, estilo e biografia.
Além da internet, há os que vão in loco visitar o CCMN. Os visitantes consomem enquanto passeiam. Tiram fotos, este é seu consumo mais frequente, um consumo cultural típico de quem visita museus. Consomem histórias, não é raro um potencial comprador querer falar diretamente com o artista que produziu a peça. Quando isso ocorre, normalmente a compra está em meio à sua efetivação. Entretanto, há os que querem conversar com o autor para “barganhar” o preço, negociar o valor da peça. Isto se dá principalmente com peças feitas sob encomenda e é potencializado se a peça tiver um caráter utilitário, como uma placa com o
nome de um sítio ou uma para colocar em casa com algum dizer, como exemplo: Reino dos
Araújo, Aqui mora uma família feliz etc.
Imagem 25 – Turista no CCMN tirando fotografias.
Fonte: Arquivo do autor.
Os turistas que frequentam o CCMN são, em sua maioria, de classe média ou alta. São normalmente levados por pessoas que moram na região, mas não necessariamente de Juazeiro do Norte. É fácil identificá-los com máquinas fotográficas e estilo de vestimenta diferente, bem como o sotaque quando fazem alguma pergunta.
As peças já vendidas pelos artistas, que esperam a coleta da transportadora ou o comprador levá-las, ficam juntas com as que ainda estão expostas para venda. Os próprios artistas fazem as embalagens de envio depois de “lustrar” as peças. Essas embalagens são, em parte, caixas de madeira feitas a partir das sobras de material do próprio CCMN ou de pedaços de madeira oriundos de janelas, estrados de camas, restos de expositores das lojas comerciais situadas no centro da cidade, como já mostrado anteriormente. A embalagem utilizada depende de quem compra, de onde compra e que tipo de transporte irá levar a mercadoria. As embalagens também variam com o pagamento: se a peça foi encomendada, o
artista a envia com todo o aparato de proteção possível, normalmente em caixotes de madeira, os engradados, como eles chamam, a fim de que a peça chegue no melhor estado possível ao destino final. Ressalte-se aqui que, normalmente, as encomendas, quando são feitas, seguem uma negociação em que o comprador paga metade no ato e outra metade na entrega da peça. Assim há todo interesse na satisfação imediata do cliente ao receber a obra.
Imagem 26 – Uma obra embalada para envio a um comprador de Minas Gerais
Fonte: Arquivo do autor.
Entretanto, quando estas peças são compradas no próprio Centro, os clientes sem saber da existência desse aparato ou, às vezes, mesmo sabendo, recebem as peças, por opção ou desconhecimento, envolvidas em folhas de plástico com bolhas de ar – como na imagem acima. Em alguns casos, os compradores levam-na sem nenhum tipo de embalagem ou proteção. Em verdade, esse tipo de observação serve para perceber que não há um padrão que identifique o produto do CCMN após a compra ou o preserve de algum sinistro, passando mais segurança aos compradores no ato da compra.
Através do acompanhamento das vendas de peças de arte produzidas no CCMN, pude perceber que, durante o ano em que ganhou espaço diferenciado na feira de decoração Casa Cor, os resultados de faturamento chegaram a dobrar em relação ao histórico dos anos anteriores. A variável de exposição em tal evento pode ser considerada dependente, já que, na medida em que o espaço na exposição diminuiu, o faturamento acompanhou tal redução de maneira direta.
A explicação aventada para o aumento de faturamento nesse ano específico pelo coordenador do CCMN, Hamurabi Batista, foi de que estaria ligado à retomada da parceria que o Centro mantém com o SEBRAE, fragilizada durante um tempo por questões de afastamento institucionais e, segundo ele, foi a primeira providência que tomou quando assumiu e isso, sim, seria o grande responsável pelo aumento das vendas e do faturamento. Segundo Hamurabi, a grande vantagem desta pareceria é o network41, ou seja, a rede de relacionamentos que o SEBRAE mantém em todo o Brasil, que facilitaria o contato do CCMN com os clientes.
Entretanto, há uma questão ainda não elucidada para Hamurabi: por que as vendas voltaram a se estabilizar nos anos seguintes apesar da parceria com o SEBRAE ter se mantido, inclusive com a realização de mais duas rodadas de negociação fomentadas pelo órgão para promover a arte e artesanato local? É a partir dessa relação que acredito poder inferir que há uma relação entre o aumento das vendas e do faturamento com a exposição das peças na Casa Cor. Indo além, pode-se inferir que tal aumento se deu porque o tipo de arte produzida pelo CCMN se enquadrou, nesse momento, como uma arte que tem cunho decorativo, uma arte voltada para a classe média em preço e gosto estético.
Essa inferência baseia-se na análise de Bourdieu (2010) acerca da variação, da diferenciação, do gosto estético de acordo com a classe. Em sua análise, Bourdieu, referindo- se ao público de museus, demonstra que a classe média tem seu interesse voltado para objetos mobiliários, como objetos de decoração, e peças históricas ou folclóricas quando vão ao museu. Bourdieu (2010) afirma que:
Se puede suponer que lós museus que yuxtaponen obras de diversas ordenes, desde la pintura hasta el mobiliario, tienen em realidad dos públicos (o más) que diferen por su composición social y por sus gustos. Por ejemplo, el mobiliario, que forma parte das experiências y de lós intereses estéticos cotidianos, puede, mejor que la pintura – para la cual no siempre se está preparado -, atraer a las classes medias, en las que desde algunos años se há
41 É bastante interessante o fato de Hamurabi usar esta palavra hoje tão cara à área da Administração de
desenrrollado el gusto por la decoracion de la vivienda. Del mismo modo, como atestigua la difusión de las revistas de divulgación histórica, lós objetos históricos o folclóricos pueden satisfacer una demanda relativamente importante en esas classes.42 (p. 48).
Por analogia, pode-se inferir que o caso do CCMN é semelhante ao que fora observado por Bourdieu em relação ao público de consumo de museus. No caso de Bourdieu, sua percepção depreendeu da frequência, enquanto consumo cultural, dos museus na França. Nesta pesquisa, percebemos pelas pessoas que frequentavam o centro e pelas informações passadas pelos artistas sobre as feiras que iam. Além disso, corroborou com esta constatação as informações dadas por Vicente Gregório do SEBRAE, quando, em entrevista no escritório de seu hotel, informou que o artesanato da região fazia parte de toda decoração de seu hotel, que ali existia um potencial enorme para esse tipo de produção de peças, para botar guardanapos, jogos americanos etc.
É interessante perceber o posicionamento de Vicente Gregório: em nenhum momento ele se referiu à produção do Centro Cultural Mestre Noza, ou qualquer outra produção de Juazeiro do Norte, como arte, mesmo nos momentos em que lhe dirigia um comentário ou perguntava citando especificamente como a arte do CCMN no intuito de auferir se isto o induziria e abriria espaço para perguntar-lhe o que ele consideraria arte dentre as produções locais. A percepção clara é que, enquanto narrou o envolvimento da produção do CCMN com o SEBRAE, refletida a postura que acabara de tomar, falando como proprietário de um hotel que valoriza as coisas da terra feitas manualmente como artigos decorativos, identitários do local e que chama a atenção de quem não é da região.