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HOVEDKONKLUSJONER OG AVSLUTTENDE DISKUSJON 93

Nome artístico Verino, assim se apresenta Severino Silva de Souza. Natural de Exu, Pernambuco, foi morar em Juazeiro aos cinco anos de idade acompanhando os pais, por isso sente-se um juazeirense nato. Morou durante quinze anos no bairro dos Salesianos de onde mudou para a Rua Farias Brito, no bairro Romeirão, onde atualmente reside.

Verino começou a trabalhar como artesão no Centro Cultural Mestre Noza no dia 1 de agosto de 1987, lembra a data sem hesitar. Chegou ao Centro indicado por um parente, um tio, que o havia falado da necessidade de um artesão tinha de alguém para fazer o acabamento das peças, lixar, polir e encerar. Na época, aos 17 anos, necessitando de trabalho, topou sem saber direito o que seria o ofício. Passou nove meses na atividade de polidor até começar a fazer suas próprias peças.67

Antes de ir trabalhar no Mestre Noza, já trabalhava com o tio que o indicou para o trabalho no CCMN. “Fazia umas coisas com Durepóxi, umas canetas... era mais umas canetas.” Diz Verino, sem saber como definir ao certo sua produção da época. Seu tio viajava para Teresina e outras capitais e vendia as peças, enquanto Verino as produzia em Juazeiro do Norte. Quando a comercialização começou a ser mais difícil, começou a trabalhar no CCMN. Mas, como toda boa autobiografia, há pontos de contradição e esta não podia ser diferente. Segundo Verino, seu primeiro trabalho foi a produção de alguns artigos em Durepóxi, entretanto depois veio a me contar que havia trabalho desde treze anos com um

67 Há diversas formas de os artistas e artesãos se aproximarem e pertencerem ao CCMN e à AAPC. Uma delas é

começar como polidor, depois conseguir alguém que lhe oriente e só depois produzir suas próprias obras. Entretanto, essa não é a principal forma. Normalmente a pessoa chega a convite de algum outro membro e começa a frequentar – é a forma mais usual de começar no CCMN. Há casos muito atípicos em que a própria pessoa se oferece para expor ali. Já para pertencer à AAPC o artista/artesão deve ter seu nome aprovado em assembleia para fazer parte da associação. Comumente, após fazer parte do CCMN, o artista ou artesão se submete à assembleia para fazer parte da AAPC. Atualmente, não raro, alguns querem apenas fazer parte do CCMN e não se preocupam em se tornarem membros da AAPC. A atual gestão tem impedido esta prática, para expor é preciso também ser associado.

sapateiro que fazia consertos e produzia sandálias, abandonou o serviço, pois a cola de PVC usada estava queimando seus dedos e deixando marcas brancas, ao contar mostrava as mãos com manchas brancas parecidas com pequenas manchas de vitiligo.

No CCMN começou fazendo barrigudas; fazia, em média, umas cinquenta peças por semana com Francisco Araújo, o mesmo artesão que o acolheu para, num primeiro momento, trabalhar com o acabamento de suas peças como polidor e lhe serviu de mestre. Nessa época, finais dos anos 1980, conseguiam vender todas as peças e sempre havia mais pedidos. Mandavam-nas para Recife, Fortaleza e Maceió. Com o tempo, começou a fazer peças diferentes, trabalhou com figuras difíceis de classificar ou, como ele mesmo define, figuras “abstratas”, mas fez também muitos casais de Lampião e Maria Bonita, santos de toda a sorte e modelo. Foi nessa experimentação que encontrou a imagem que tornaria seu trabalho conhecido, o São Jorge, a peça que mais produz. Mas não produz somente São Jorge, me alertou certa vez o próprio Verino, “o que vier, o que encomendarem nós tamo fazendo. Placa para fazenda, empresa, qualquer coisa que pedirem eu faço”.

Mas sua especialidade é mesmo o São Jorge, que, segundo ele, é uma das peças mais difíceis de fazer: “São três peças em uma”, me explicou certa vez, além do mais, não tem muita concorrência, mas, segundo Verino, há um amplo público de compradores, “é venda garantida”, dizia-me ele. Vende principalmente para a Bahia nas cidades de Salvador e Porto Seguro, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Jericoacoara no próprio estado do Ceará, que mesmo sem saber ao certo por que, afirma: “Sempre sai um pra lá”.

Mas o que é de se esperar, não acontece. O pessoal religioso que anda por Juazeiro, os católicos e, principalmente os romeiros, não compra, pois “é caro demais para eles. Romeiro só compra é promessa68, é perna, é cabeça, essas coisas.” A última encomenda de São Jorge que recebeu foi para o Museu Afro Brasil em São Paulo, uma imagem de 1,10m, colorida. Coisa diferente, pois segundo ele, as pessoas gostam mais sem pintar, acham mais “original”. Além disso, a peça quando é pintada pode esconder falhas na madeira ou talho do artesão: “[...] Você não consegue detectar quando é uma peça pintada quando há remendos, ou partes feitas separadamente e depois coladas.” Esse discurso em defesa da madeira sem pintar é comum entre a maioria dos membros do CCMN. Para Verino, um artista com técnica

68 Promessa é a palavra utilizada pelos membros do CCMN para se referir as peças de ex-votos. Ex-votos são

pedaços do corpo que são colocados no altar das igrejas ou dos santuários para pagar o que fora prometido a um santo(a), ou nossa senhora ou mesmo um padre que foi perseguido pela igreja e que é considerado um santo popular como é o caso do Padre Cícero. O pagamento da promessa se dá da seguinte forma: o indivíduo promete que se melhorar de algum problema que tenha tido no pé, devido a um acidente ou qualquer outra coisa, irá a determinado local e colocará um pé em gratidão e reconhecimento pela cura. Os ex-votos em Juazeiro são em madeira normalmente.

aprimorada faz a uma peça num só bloco de madeira sem colar ou encaixar pedaços o que, para ele, é um diferencial.

Quanto ao seu envolvimento na AAPC, não revela ter exercido qualquer cargo político, limita-se a dizer “já dei umas ajuda aí”. Essas ajudas a que se refere ocorreram na época em que Lourdes Batista esteve à frente do CCMN. Ele atuava como tesoureiro. Segundo ele, dos coordenadores do CCMN era quem mais bem se relacionava com os artesãos, comprava as peças dos artesãos e se relacionava com os compradores de fora. Hoje, segundo ele, a AAPC e o CCMN perderam muito com a gestão atual. Atualmente, o que é mais comum de se ver são os artesãos procurando outras atividades e deixando a arte, pessoas que antes sobreviviam daquilo já não conseguem mais fazê-lo.

A crítica de Verino a atual gestão vai além e ele discorre como, na sua perspectiva, a fragmentação do grupo do CCMN foi ocorrendo em virtude de posicionamentos administrativos que desestimulam a continuidade do exercício da profissão, ao menos ali e com Hamurabi à frente. Verino narra a seguinte queixa-situação:

Hoje até pra entrar na gerência em dia de pagamento tinha que ter uma senha, isso foi afastando o pessoal. O artesão está em extinção, aqui era lotado principalmente em dia de sábado, tinha muita gente mesmo, era dia de pagamento. Hoje você vem aqui tem uns poucos e os que vêm sempre estão se lamentando. Sem dinheiro para pagamento. As reuniões só tem hoje mesmo para mudar de diretoria, outras, além disso, aí... o que for discutido acabou e o pessoal já esquece não bota em prática.

Confessa ainda uma tristeza em ver como era o tratamento dado não só aos membros, mas também às peças/obras produzidas ali e como é hoje: “O desprezo, muitas vezes você vê uma peça quebrada o pessoal da diretoria era pra dizer: vamo pegar aqui, vamo consertar, ao invés disso joga no monte”. O “monte” é um amontoado de peças que fica escondido atrás das salas num ambiente não visível aos transeuntes e que equivaleria a um depósito.

Para Verino, o único incentivo que fizeram foi o de tentar reciclar as peças “encalhadas”, sem vender e transformá-las em novas:

O incentivo foi pegar as peças cortar pra fazer outras, quer dizer não te dá respeito nenhum ou pela aquela peça, pelo trabalho que foi realizado ali, inclusive Ednaldo, o neto de Manoel Graciano, que é conhecido como Chiquim levou várias peças e estava cortando as peças dos colegas... tu tá cortando a peça do próprio artesão que consideração é essa? Podendo restaurar e cobrar pelo restauro, não foi o presidente que mandou eu cortar. Ainda assim, não se considera oposição à atual gestão. Quando perguntado se isso seria um ponto de argumentação para criticar de forma a concorrer politicamente com

Hamurabi, diz: “De jeito e maneira eu só lamento essas coisas porque eu acho que devia ser melhorado era pra vendo uma peça quebrada reunir o pessoal restaurar, e se a pessoa tá perdendo aquele tempo que fosse remunerado pelo tempo que todo mundo precisa.”

Sua crítica é embasada em fatos ocorridos há não muito tempo. Verino afirma lembrar o tempo em que havia trabalhos de Manoel Graciano e Mestre Nino parados no CCMN e alguns artesãos defendiam que fossem cortados, pois, segundo ele, daria um monte de santinho. “Hoje, as peças de Manoel Graciano e Nino são as mais valorizadas dentro da produção artística região.” Como bem frisa:

Quem sabe uma dessas que estão aí amanhã não estão como as deles? Não vai ter o seu valor futuramente? Pra ser cortada eu acho isso... uma falta de respeito [...] Quando artesão vê sua peça ali jogada ele fica insatisfeito é questão de respeito. Diomar, mesmo já pegou umas peças no lixo restaurou e vendeu como se fosse dele. O rateio, a divisão do sábado é para ser feita em cima da venda da semana.

“Só fico entristecido, mas não sou oposição. A gente ficava feliz quando via muita gente trabalhando, cada vez mais gente, uma coisa de 25 anos não é de 25 dias”. Entristece por ver alguns abandonando e outros pensando em abandonar, mas que desde já não andam mais pelo CCMN. Alguns que arrumaram outro emprego e não estão conseguindo conciliar as duas atividades.

Quando inquirido se se imagina fazendo outra coisa, é enfático: “Enquanto tiver dando pra mim não penso em sair daqui”. Aliás, Verino nunca chegou a trabalhar com outra coisa que não tenha sido atividade manual. Tendo abandonado a escola na 5ª série, ciente de que “nunca deu pros estudos”, foi logo cedo trabalhar e reconhece que, quando pôde, não fez muito esforço para trabalhar e estudar e sempre se dedicou mais ao trabalho.

É casado, uma única vez e com a mesma mulher teve quatro filhos. O filho mais velho está próximo de completar dezoito anos, que é o mesmo tempo que Verino está casado; o mais novo tem seis, “Todos estudando, todos criados na base do artesanato”, relata orgulhoso. A esposa não tem emprego fixo e às vezes faz uns arranjos de flores, artesanalmente também, mas se dedica mais à casa e às crianças: “Quer trabalho maior que esse?” brinca Verino.

Apesar de toda a situação narrada por Verino, das dificuldades encontradas na sua profissão, ele afirma que se algum de seus filhos quisesse seguir seus passos ele incentivaria, mas o que vê é que nenhum deles quer ou ao menos se interessa. Sabe disso porque, às vezes, trabalha em casa para ver se seus filhos se interessam, se aproximam. Não vê menção da parte de nenhum dos quatro. Apesar de dizer que apoiaria se um de seus filhos enveredasse pelos

seus caminhos, é sincero ao complementar a narrativa de sua iniciativa, afirmando que prefere que eles arrumem emprego melhor, que terminem os estudos.

Tem casa própria e para ele, “tem artesão que não tem casa própria, mas não é por que não ganha é por que gasta com outras coisas. Muitos daqui são desorganizados dizem que gastam de 500 reais em farra com motos eu não faço isso”. Muitos ganham dinheiro, aliás, segundo ele, todo artesão tem uma oportunidade de ganhar algum dinheiro na vida e se estabilizar, alguns conseguem antes dos outros.

Discorreu, então, quando aconteceram suas oportunidades. A primeira ocorreu quando vendeu um casal de lampião para um cliente de São Paulo. Segundo Verino, tal cliente tinha um museu particular e muito dinheiro e, por entender, por ter museu, sabia o quanto valia as peças, mas, ainda assim, pagou um valor muito bom pelas peças. Foi esse cliente, com essa compra que o ajudou a comprar uma casinha em que reside hoje e custava o equivalente a dez, quinze mil reais: “Tem pessoas que vêm de fora e ajuda o artesão”.

Em verdade, Verino confessa que se não fossem “os de fora” não sabe como estaria o negócio do CCMN. Estima que 80% do que produz é vendido “para fora” do estado. “Por mais que a cidade cresça, o pessoal que gosta, que compra mesmo, é o pessoal de fora.” E foi numa venda para pessoas de fora que teve sua segunda oportunidade de ganhar dinheiro. Tal fato se deu com uma encomenda de ex-votos, que ele narra da seguinte forma:

Aqui teve uma época, foi uma época boa que eu particularmente, acho que foi a época que eu mais ganhei dinheiro. Chegou uma encomenda se eu não tô enganado foi da Alemanha, 5 mil ex-votos de tudo perna cabeça... era de três tamanho 20, 25 e 30 centímetros e os valores na época parece que era coisa 3,5,7 reais para cada um desses tamanhos e eu e Eugênio foi quem produzimos mais e em 7 dias eu ganhei 3200 reais.

A solução para que novos negócios tão lucrativos continuem a acontecer, é manter um bom relacionamento com os clientes de fora, mostrando novidades através de catálogos na internet. Segundo, é necessário focar este trabalho de aproximação em galerias, donos de loja, pessoas que sempre compravam e que não estão mais comprando.

Ele acha importante mostrar aos alunos para, quando crescerem, ser compradores. Entretanto, faz ressalva à forma como os estudantes são levados para lá. Sua preocupação é com um grupo de estudantes que vão até o CCMN para acessar a internet, que funciona desde que o CCMN tornou-se ponto de cultura. “Tem uns que vêm, observam e depois voltam só pra roubar. Antes da internet, não vinha esses menino de jeito nenhum, computador tinha só dois que era mais pros trabalho da associação”, diz, completando que a internet deveria ser

mais fiscalizada, pois já ocorreu o roubo de uma máquina digital, de um celular de dentro da sala da coordenação.

Por fim, pergunto se o artesanato mudou com crescimento da cidade. Para ele não há uma relação e justifica dizendo: “O artesão não mudou muito pelo seguinte, a maioria dos artesãos que trabalha aqui não tem estudo então continua na mesma de sempre”.