As relações sociais na modernidade sofreram profundas mudanças em razão das transformações nas estruturas produtivas e nas relações de produção. O ser humano, embora criador, antes era subordinado à diversificação da natureza; com o avanço do capitalismo, em especial na sua fase industrial monopolista, a produção e o consumo fragmentaram-se cada vez mais, afastando mais os lugares, não existindo mais um mesmo local de origem. A força motriz de todo esse processo é a capacidade de inovação e de disseminação da técnica. Muda- se, assim, a realidade social: antes o ―natural‖ dominava o ―social‖; essa realidade inverte-se, graças às novas formas de energia e às novas técnicas, o social passa a intervir, buscando dominar todas as fases da produção material e cultural, gerando uma nova configuração do território e uma nova percepção dos agentes no mundo.
O espaço está sempre mudando a sua estrutura e suas relações. A questão subjetiva da idolatria à ciência e os avanços objetivos tecnológicos criam um ambiente social (estrutural e cognitivo), continuamente alterado pela técnica. A dinâmica do sistema de inovação faz com que a tecnologia mais recente seja rapidamente trocada, revalorizada ou desvalorizada, e o produtor submete-se ao objeto produzido.
Objetos técnicos concretos, universalizados, sistêmicos, informados, intencionais são mais numerosos e diversos que em qualquer outro momento da história. O número e a qualidade de fluxos que os atravessam é exponencialmente superior ao que se verificava no período anterior (SANTOS, 2012a, p. 218).
O espaço em seu processo contínuo de transformação – bem como o tempo – não existe sem a materialidade. As técnicas tornam-se medidas de tempo, em suas mais diferentes formas, como o tempo do trabalho, o tempo da divisão da produção, o tempo da circulação e etc.. Da mesma forma, o espaço é formado de objetos técnicos: na dimensão espacial do
56 A integração entre o espaço e o tempo efetiva-se em um espaço ao mesmo tempo global e local, por
intermédio das ações sociais práticas, por meio dos objetos, das técnicas, do trabalho e de seus instrumentos de aprendizagem, por meio do habitus, de experiências vividas e de instituições, por meio de regras e normas formais e informais, que se tornam o fundamento da explicação do espaço como movimento.
―espaço trabalho‖, que contém técnicas de organização da produção, no ―espaço distância‖, no processo produtivo e de circulação.
Essa relação entre a técnica e o processo de organização social aproxima-se da forma específica de organização da divisão do trabalho, como afirma Mandel (1982) em sua interpretação marxista do desenvolvimento do capitalismo. Para Mandel, há quatro distintos grupos de tecnologias e sistemas sociais de trabalho: o sistema de máquinas a vapor com funcionamento artesanal; o sistema de máquinas a vapor e a produção industrial; o sistema de motores elétricos e linhas de montagem fabril; as máquinas semiautomáticas ou automáticas, baseadas na eletrônica, adotadas no fluxo contínuo e flexível de montagem. O problema é que as análises marxistas ortodoxas57 são limitadas porque consideram o espaço apenas como um encontro sistêmico de estruturas e de ações, as estruturas provocam as ações e as condicionam.
A questão é que as estruturas influenciam as técnicas, mas ao mesmo tempo são influenciados pelos comportamentos técnicos, por consequência, transformam-se por dentro das relações sociais.
Pode-se atribuir à técnica um duplo sentido: a técnica como tecnologia e a técnica como criadora e organizadora do espaço, configurada na relação social entre agente e estrutura, que se objetiva na ação, em um ambiente institucional, na interação entre os sistemas de disposições e de objetos. A técnica, assim como o habitus, é um elemento central na percepção da dualidade do espaço, possibilitando que o espaço transforme o tempo em um elemento concreto, empírico.
A técnica como tecnologia e a técnica como ação são pilares que consolidam o meio técnico-científico. A técnica assume um papel para além da estrutura produtiva, afeta toda a conformação do espaço. Assim, a técnica instala-se na estrutura do espaço como ―tecnosfera‖58, integrada à vida moderna e a seu conjunto de valores sociais, por meio da
―psicosfera‖. A racionalidade técnica espalha-se por todas as esferas da sociedade
57 O conceito do espaço e as correntes sociológicas é trato no item 4.6
58 O avanço da globalização motiva a tentativa de unificar os conteúdos da tecnosfera e os da
psicosfera. Daí uma representação simbólica da existência de distintos lugares em diferentes espaços. Essa busca da universalização dos espaços pode ser percebida na tentativa de reunir a configuração (abstrata) e a densidade (empírica) dos conteúdos. A tecnosfera e a psicosfera são aparentemente contraditórias: a tecnosfera é o mundo dos objetos e a psicosfera é a esfera da ação. Mas não há existência real sem as ações, o espaço organiza-se no lugar pela sua existência corpórea e pela existência relacional, assegurando a interação entre agente e estrutura, objeto e ação (SANTOS, 2012a, p. 255-258).
(econômica, social e cultural), atingindo suas representações estruturais, por intermédio das instituições, e as formas simbólicas, por meio do habitus dos agentes.
Decerto que o espaço é inseparável da técnica na produção da percepção do mundo e também do tempo. ―A principal forma de relação entre o homem e a natureza, ou melhor, entre o homem e o meio, é dada pela técnica. As técnicas são um conjunto de meios instrumentais com os quais o homem realiza suas vidas, produzem, ao mesmo tempo cria espaço‖ (SANTOS, 2012a, p. 29). Mas não se trata apenas da transformação da técnica em si, mas de um conjunto social que se entrelaça com as novas técnicas. Há uma estreita relação entre o tempo histórico, o espaço social (as instituições), a experiência vivida (habitus) e as mudanças tecnológicas. Dessa forma, a técnica não aparece isoladamente, faz parte de um sistema (social) técnico.
A fase monopolista do capitalismo traz a incessante busca da racionalidade da estrutura de produção, que se constrói a partir da artificialidade de modelos a fim de obter cada vez mais o domínio sobre os meios e os sistemas produtivos, o que faz com que gradativamente se padronize os modelos técnicos, tentando alcançar o controle de todo o processo reprodutivo social sob o julgo da reprodução capitalista. Esta busca da eficiência produtiva se traduz na tentativa de homogeneização na organização do espaço e da sociedade, relacionadas às sucessivas alterações ocorridas nos sistemas de objetos e de disposições, influenciando na visão de mundo e no comportamento dos agentes. A análise das formas pelos modelos técnicos, como estes se constituíram e se desconstituíram são elementos para compreender o processo de redefinição espacial ao longo da historia. Mas o papel da técnica na modernidade deve partir da premissa de que ―a técnica é um elemento importante de explicação da sociedade e dos lugares, mas, sozinha, a técnica não explica nada‖ (SANTOS, 2012a, p. 46).
Em um movimento dialético, as mudanças no espaço alteram os sistemas de objetos e são por eles alteradas; da mesma forma afetam o sistema de disposições e são por ele afetadas. A motivação do agente para praticar uma ação torna-se mais complexa na sociedade moderna. O agente antes tinha um maior controle da ação, pois estava relacionado diretamente com seus fins. Na sociedade capitalista moderna, em especial na sua globalizada, muitas ações que se concretizam num lugar podem ser fruto de demandas oriundas de outro local. Por isso, ―frequentemente, o ator é apenas o veículo da ação, e não o seu verdadeiro motor‖ (SANTOS, 2012a, p. 80).
Com o avanço do espaço universalizado, a tomada de decisão fica fora do controle do agente, normalmente passa a ser pautada por uma racionalidade externa, que, por sua vez,
defronta-se com uma realidade interna formada por experiências vividas. Essa nova relação faz surgir uma nova configuração social de ser e fazer, que, aos poucos, vai sendo inculcada ao habitus, e o agente incorpora-a e trata-a como se ela lhe pertencesse59.
Altera-se a percepção social, cultural e econômica da vida cotidiana, estabelecem-se novos padrões do senso prático, incorporados à estrutura social pelas instituições e pela formação cognitiva do habitus do agente. A mudança é tida como algo inevitável.
Com todos os dias o mundo esta inventando uma novidade, cada dia somos ignorantes do que são e do que valem as coisas novas. Essa criação cotidiana do homem ignorante também leva regiões inteiras a ignorar o que elas são, sempre que não conhecem os segredos dos funcionamentos dos respectivos objetos e ações. Quanto menos dominam esses segredos, tem menos condições de comandar a sua própria evolução e mais dirigidas de fora tendem a ser (SANTOS, 2012a, p. 227).
Para a modernidade capitalista, ―quanto mais artificial é o meio, maior a exigência dessa racionalidade instrumental que, por sua vez, exige mais artificialidade e racionalidade‖ (SANTOS, 2012a, p. 187). As forças exógenas assumem o papel de um sistema invasor, as novas técnicas expandem-se com maior rapidez do que outros sistemas preexistentes, o que explica a sua capacidade de hegemonizar os espaços em que se inserem. Mas o passado não é completamente destruído, a sua herança permanece pelo habitus, em proporções diferenciadas em cada grupo de civilização. Essa, alias, é uma das características do modelo do sistema técnico atual. ―Cada nova família de técnicas não expulsa complementarmente as famílias precedentes, convivendo juntas segundo uma ordem estabelecida por cada sociedade em suas relações com outras sociedades‖ (SANTOS, 2012a, p. 193).