A primazia da economia sobre a dinâmica do enquanto processo histórico tem na conformação do mercado em sua forma institucionalizada a sua principal referência. Como um ente institucional, independente, o mercado é substantivado, passa a ser muito mais que trocas mercantis, e se torna a representação simbólica hegemônica da sociedade como meio inexorável para o desenvolvimento da humanidade. A supremacia do econômico sobre o social não seria algo natural na história da humanidade, como alertou Polanyi (2000), em seu conceito de incrustação, em que os mercados seriam construções sociais44.
Originada nas questões apresentadas por Polanyi como uma formulação critica aos aspectos de personificar o mercado como um ente natural a-histórico, a Sociologia Econômica apresenta a dinâmica das relações sociais e a formação dos mercados como um processo histórico da econômica e a sociedade, constituídos por interesses de segmentos sociais, formados a partir de relações entre agentes, muitos delas conflitivas. A base fundante da Sociologia Econômica de Polanyi está na desconstrução dos mercados como entes autônomos e abstratos, como querem crer as teses liberais que os camuflam pela sua personificação.
Através da tese de incrustação de Polanyi, na estruturação do capitalismo, a economia sobrepõe às demais relações sociais, e o acumulo de capital econômico passa a ser o fator relacional primordial na interação com outros atores e suas instituições. A identificação do mercado como uma construção social é um importante delimitador na compreensão sobre as relações de poder exercidas pelo capital econômico na composição da formação do capital simbólico entre as instituições modernas.
Pela base teórica originária da sociologia econômica, através de Polanyi, pode-se perceber que a lógica de incrustação e desincrustração da economia no social é a forma dinâmica da composição transacional entre agentes e as sociedades. As trocas, além da mercantil, também podem ocorrer pelos sistemas de reciprocidade e de redistribuição, e que em ambos os casos continuam a coexistir com o mercado de trocas econômicas. As relações econômicas se efetivam em distintas formulas de regulação do mercado. O mercado é uma representação simbólica de complexas relações sociais. As trocas mercantis quando ocorrem simultaneamente, também estão se realizando trocas sociais, culturais e etc.
44 Polanyi indica três formas sociais de distribuição da produção: a troca mercantil; a redistribuição,
em geral feita pelo Estado; e a reciprocidade. O predomínio das trocas econômicas sob a égide dos mercados seria fruto de um processo histórico, e não natural, que da mesma forma como construído poderia ser alterado por uma grande transformação na humanidade.
O preço, enquanto valor monetário, nem sempre é a variável mercantil que é determinante na atividade desenvolvida. Os consumidores, não necessariamente, sempre escolhem o mais barato. As relações continuadas, por exemplo, tendem a ser fortemente valorizadas pelos agentes sociais envolvidos. As composições das trocas vão além da relação de oferta e procura, envolvem outras racionalidades de ordem socioculturais, relacionadas aos aspectos de poder, estrutura, cultura, formação histórica nas sociedades. As modalidades de trocas econômicas ao longo da historia, dentre as varias sociedades, demonstram que as relações mercantis não podem ser consideradas como a única instância reguladora da vida social45.
A dimensão das instituições e o nível de desincrustação do econômico no social não podem ser compreendidos fora do contexto de onde se efetivam.
O grau de desincrustração do econômico nas sociedades atuais é menor do que suposto pelos mais críticos e que o grau de incrustação do econômico no social nas sociedades primitivas é menor do que proclamado pelos apologistas das sociedades arcaicas, permanece a inequívoca centralidade do conceito e a necessidade de erguer uma sociológica econômica dos mercados. (MARQUES, 2003, p. 29).
Os mercados são representações simbólicas das condições objetivas e subjetivas que incorporam institucionalmente dentro das relações sociais. As instituições, em especial as econômicas que incidem o mercado, ao serem avaliadas pelo auxilio da tese de incrustação, assumem a premissa de que existem vários eventos que influenciam as motivações do agente em escolher uma posição diante das escolhas que se apresentam46.
Para a elucidação das dinâmicas sociais e o mercado deve-se buscar qualificar a ação econômica. Para tanto, significa ir além desta constatação de que a pujança econômica sobre as relações sociais é fruto de uma construção histórica. As instituições não são formas abstratas, ao contrário, são representações socialmente situadas, diante de um conjunto de
45 Vale destacar a posição da economia moral que apresenta os aspectos socioculturais na conformação
dos valores na vida econômica. Esta corrente não descarta totalmente a lógica econômica, mas demonstra que, para além dela, existem diversas outras variáveis que compõem aquele contexto. O aspecto cultural é indicado como elemento da economia pela tradição moral (convenções sociais). A exemplo da origem dos motins (rebeliões populares inglesas do sec. XVIII).Por trás destes conflitos havia uma economia moral dos pobres, em que os desrespeitos a esses pressupostos morais, tanto quanto a privação real ( fome, miséria etc.), eram o motivo habitual para a ação direta, Thompson (1998).
46 Uma contribuição representativa para este quadro analítico está nos postulados advindos da Nova
Sociologia Econômica (NSE) A NSE de acordo com Mark Granovetter, tem duas ideias básicas como ponto de partida: a) a ação econômica é socialmente situada e não pode ser explicada apenas por motivos individuais; b) as instituições são socialmente construídas (STEINER 2006: p x-xi).
relações sociais mobilizáveis como grupo de pressões conformados por referências mercantis e não mercantis, que objetivam rendimentos ou benefícios da representação social, que passam a ser distribuídos de forma assimétrica, de acordo com o nível de poder e do capital simbólico que detenham dentro da estrutura e entre os agentes sociais.
O entendimento social a partir da negação do determinismo econômico das relações sociais são conceitos significativos, quando analisados dentro de um quadro das dinâmicas civilizatórias, portanto é necessário um refinamento epistemológico, a fim de identificar sob que condições históricas e com que variáveis estas construções sociais (os mercados institucionalizados) são moldados e como atuam sobre as racionalidades dos agentes.