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A dominação e a diferenciação entre agentes da sociedade moderna têm como principal referência às relações de poder do Estado. Por meio do Estado ocorre a objetivação da ordem simbólica da legitimação do direito. O Estado, como instituição por excelência, detém o monopólio da violência, ele é conhecido e reconhecido por todos como legítimo,

inclusive para exercer atos de extrema brutalidade (física, psíquica, econômica, etc), cabendo- lhe, nas suas formas institucionalizadas, o poder de consagrar as coisas e os agentes.

O aumento da complexidade das relações na modernidade, com os processos sociais cada vez mais abstrusos, corroboraram para que o Estado, na sua forma institucional, seja cada vez mais reconhecido como a autoridade investida do poder de determinar o que é legítimo ou ilegítimo. Por exemplo, é o Estado que tem poder para conceder a propriedade (por meios de títulos), atribuir identidade (certidão de nascimento, carteira de identidade, motorista, passaporte etc.), atestar o reconhecimento social (certificado de capacidade escolástica, como técnico, engenheiro etc.); enfim, pelos seus atos, pode-se estabelecer uma fronteira legitimada socialmente, definindo os que são, ou não, detentores de direitos.

Assim, o Estado, pela sua institucionalidade política e jurídica cria um ambiente social para impor os limites da autonomia das demais instituições. O peso da política estaria relacionado, em dado momento, com a capacidade que o Estado consegue atribuir a si perante as demais instituições. O reconhecimento de exercer o seu poder, legitimado socialmente.

O Estado moderno, como detentor da autoridade de exercer a violência simbólica, ganha a proeminência de uma meta instituição social. Fazendo com que a luta pelo seu domínio tenha significativa relevância no contexto das relações sociais, em seus mais variados níveis e formas. Soma-se à luta política pelo controle institucional a disputa social subjetiva pelo conhecimento e pelo reconhecimento das representações simbólicas como forma de dominação.

A disputa pelo controle institucional não é apenas pelo seu comando direto, mas, principalmente, para ter influência sobre o direcionamento de suas ações. Daí duas disputas inseparáveis: a disputa pelo poder político das organizações de controle das instituições; e a disputa para exercer a influência como representação simbólica. O mundo social é ao mesmo tempo o produto e o móvel de lutas simbólicas pelo ―poder de impor como legítimos os princípios de construção da realidade social mais favoráveis ao seu ser social [...], bem como à acumulação de um capital simbólico de reconhecimento‖ (BOURDIEU, 2001, p. 228).

Além do Estado, merece também destaque o papel de várias outras instituições que têm um peso significativo no desenvolvimento do capitalismo, destacando-se a atuação institucional na organização da produção e na formação cultural das representações simbólicas. Esse modelo burocrático de racionalização do mundo conecta-se com os sistemas de disposição. Na conformação subjetiva do agente, incorporam-se bens e valores culturais das experiências da vida cotidiana, formando habitus secundários, que de forma continuada alteram o senso prático dos agentes que estão inseridos nas diferentes instituições sociais.

Por exemplo, a influência exercida pelas instituições religiosas. Weber (2004) aborda as influências da religião no processo da formação capitalista, demonstra o peso simbólico das suas representações na conduta do agente. A religião, como representação simbólica, traz em si um duplo movimento: exerce pressões na sociedade e submete-se a elas, influindo na conformação da visão de mundo de cada agente.

Outro exemplo, a organização institucional do trabalho, em especial as mudanças advinda da terceira revolução industrial que influenciou novas formas de institucionalização das representações simbólicas na esfera produtiva. O processo de modernização capitalista fez com que a estrutura produtiva sofresse influências não só das novas tecnologias fabris e fontes de energia, mas também dos novos modelos de organização social da produção e da assimilação de novos padrões culturais. Como demonstra Antunes (2011), o mundo do trabalho passou a incorporar à racionalidade capitalista, além da participação física, a participação psíquica do agente. Nesse período, instauraram-se sofisticados processos de autocontrole, com a adoção de modelos de gestão pós-fordista (como circuitos de qualidade, remuneração variável por metas, administração participativa etc.) que se refletem nas disposições adquiridas não só no trabalho, mas também na vida social.

Os eventos aleatórios exógenos e a multiplicidade de novos fatores modificam a organização das representações simbólicas. Os complexos arranjos institucionais conjugados com as alterações nas estruturas produtivas atingem não só a esfera econômica, mas a social e cultural, influenciando na forma de ser e fazer do agente. O agente passa a defrontar-se com novos simbolismos sobre a ação que realiza; aos poucos, tais mudanças deixam de ser vistas como algo externo, para ser paulatinamente absorvida, naturalizando-se como experiência vivida na vida social do agente, alterando os parâmetros da tomada de decisão, influenciados pelos habitus secundários que foram sendo incorporados à dinâmica da vida cotidiana.

As instituições, em níveis diferenciados, têm em si a capacidade de influenciar o ser e o meio. Subjacentes às regras e normas, formais e informais, que regem o sistema simbólico, há as representações simbólicas, cujos efeitos são percebidos tanto no espaço social (ambiente institucional), como na formação cognitiva de cada agente. As instituições, concomitantemente, geram símbolos que afetam a percepção do ser, influindo na conformação do habitus do agente e atuando na representação da dinâmica social, definindo as regras do jogo a ser jogado.