• No results found

As correntes marxistas66 ao abordarem o espaço, o fazem pela revolução tecnológica, pela difusão das inovações, pela modernização das estruturas produtivas. O espaço está ligado

65 Na Amazônia, um exemplo de insucesso é o caso da Companhia Ford que, durante dezoito anos (de

1927 a 1945), plantou centenas de milhares de hectares de seringueiras, nos municípios de Itaituba e Aveiro, no Pará (COSTA, 2012c). Ou a perda de milhares de hectares de plantio de dendê pelo aparecimento da doença do amarelecimento fatal, tornando as plantas inertes.

66 Em especial cabe destacar Henri Lefebvre (1991), como um dos principais pesquisadores

às relações sociais, a ação é uma categoria que faz a mediação entre os aspectos materiais do espaço e as consequências sociais nas estruturas espaciais. Nas correntes sociológicas weberianas, o avanço capitalista se dá pela ação racional dos agentes. A subjetividade do agente é considerada como elo fundamental para explicar as mudanças espaciais e sociais da humanidade nos dois últimos séculos. Em ambas as correntes, porém, o tempo é o elemento central, que atravessa o espaço, mediante a força estruturante das ações que transformam; o tempo não se mistura com o lugar.

Embora as teorias marxistas e weberianas considerem o espaço como o resultado do processo social, elas distinguem-se pela maneira como veem a ação em relação ao espaço. Para a posição materialista (marxista), o objetivo das ações sociais está mais vinculado à conformação estrutural do espaço, ou seja, o espaço é um formato. Para as correntes da ação racional (weberianas), o espaço é tido como coadjuvante, como um mero locus. O espaço, em Weber, é secundário, é apenas o local das relações sociais, o foco de sua teoria está nas ações dos indivíduos e, consequentemente, nas suas repercussões sociais. Assim, a estrutura espacial seria um componente dos processos sociais, que se efetivariam pela dinâmica da espacialidade do próprio sistema, cujas regras e recursos persistem para além do espaço.

Ao buscar uma interpretação alternativa para a qualificação do espaço vivido, a presente proposta de construção conceitual apresenta o espaço objetivado como síntese das duas posições, das estruturas espaciais e da ação espacial. O que faz com que o conceito do espaço tenha como base interpretativa a sua condição de dualidade.

Esta caminhada conceitual parte inicialmente do pensamento de Bourdieu (2001), que sustenta a existência na sociedade de uma dualidade entre estrutura e ação, que não são excludentes, mas complementares. Essa mesma concepção social do espaço pode ser aplicada à compreensão dinâmica do espaço social e do espaço físico. Dessa forma, o conceito de espaço assume uma abrangência sistêmica, como uma multiplicidade estruturada modificada

preocupações da sociedade moderna é a tentativa de controlar e organizar o espaço. Cabe ainda lembrar David Harvey (2012), que se tornou o representante contemporâneo mais conhecido da corrente materialista. Em sua obra Condição pós-moderna, o espaço é explicado como espaço vivido. Mas, para ambos, a integração do tempo e do espaço dá-se pela historiografia do espaço. Nesse sentido, o espaço é conformado pelas relações sociais em um dado momento histórico. Portanto, nessas posições, o espaço não é pensado para além das ações, e que as ações estão circunscritas dentro de um espaço. Dito de outra forma, o espaço é considerado apenas uma estrutura estruturada que é alterada pela força estruturante da ação. A ação está vinculada à conformação estrutural do espaço, em que o espaço acaba sendo subjugado. O espaço perde sua amplitude como percepção de um sistema de disposições em ser e fazer, não incorpora elementos subjetivos dos habitus que são elementos de um espaço construído pela percepção simbólica do passado cognitivo do agente.

ao mesmo tempo pela sua força estruturante. O espaço, portanto, resultaria de uma ação prática de busca de um ordenamento, uma síntese dos conflitos entre estrutura estruturada e estrutura estruturante.

Como já foi dito, o espaço efetiva-se na estrutural social, a ação precede a estrutura social, mas também é a sua consequência. Da mesma forma que a organização espacial realiza-se pela ação, mas concomitantemente estrutura a ação. Logo o espaço se dá na conformação dos sistemas de objetos e de ações67. Desta forma, a ação é meio e reprodução, simultaneamente, da estrutura social e da organização espacial.

O espaço objetivado apresentado na sua forma dualista, remete, também, a outro duplo movimento: a dimensão territorial na relação entre local e global. O espaço tem de ser compreendido como elemento concreto e dinâmico. O espaço é a representação das relações dos agentes e das coisas. As tensões provocadas pelas relações entre o singular heterogêneo e o universal homogeneizante traduzem a realidade: a coexistência de um dentro do outro. Os conflitos gerados pela conexão entre o local e o global são marcados pelas qualidades específicas de um dado momento em uma mesma divisão espacial. O lugar, enquanto espaço físico e social, apresenta-se como o encontro de uma multiplicidade de fatos sociais (internos e externos), o que faz da categoria espaço, na sua forma dualista, uma ferramenta analítica para conhecer e reconhecer as relações socioespaciais.

As conformações do espaço apresentam-se inicialmente como abstratas, mas se efetivam, e se efetivam através do lugar. O espaço ganha concretude na interação objetiva do local e do global, o que faz com que a dicotomia entre localismo e globalismo deixe de existir, pois são indissociáveis na composição espacial do lugar; como ocorre na capacidade interpretativa da realidade entre o agente e a estrutura, também o faz pela interação entre o local e o global. O lugar adquire, assim, uma dimensão holística que possibilita abrigar a dualidade em suas várias formas: o particular e o geral, o endógeno e o exógeno, o agente e a estrutura, o objetivo e o subjetivo, entre outras, o qual é aqui sintetizado no conceito de espaço-lugar.

67 Esses sistemas de ações e de objetos fundamentam-se em categorias analíticas internas e externas.

Dentre as categorias internas, destacam-se a paisagem, a configuração do território, a divisão social do trabalho, bem como os recortes espaciais, como a região e o lugar, em redes de escalas. Além disso, pode-se mencionar a relação com o tempo histórico e os seus conceitos operacionais. No que refere aos aspectos externos, o espaço traz algumas outras categorias relacionadas à ação, aos objetos e aos eventos, além de formar um conjunto de estruturas polarizadas, como a universalidade e a particularidade, a totalidade e a totalização etc. (SANTOS, 2012a, p. 61-73).