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I MPLEMENTATION

As tentativas de desconstrução do espaço pelas visões universalizantes, homogeneizadoras, fazem com que a ação seja diluída em um espaço abstrato. A ação perde a sua referência no concreto, e passa a ser vista como algo subjetivo, a partir de um espaço subjetivado. A modernidade torna o espaço como algo etéreo, dando a sensação que foi subjugado pelo tempo.

O espaço e o tempo são categorias que acompanham a existência humana. Diferentes sociedades têm sentidos de tempo e espaço bem distintos. Na sociedade moderna, há duas visões do tempo: de um lado, existem sentidos distintos de tempo que se cruzam no mesmo espaço; de outro, contra o avanço avassalador na dinâmica do tempo, há movimentos de resistência que defendem a preservação de ciclos repetitivos do cotidiano, com rituais sazonais que visam a obter uma sensação de segurança, um sentimento de controle sobre o desconhecido, diante do progresso que a modernidade impõe à sociedade, fazendo com que a circulação de bens e serviços aconteça de forma cada vez mais rápida e volátil.

Essas duas posições opõem-se na modernidade. Há múltiplos tempos, como o tempo da família – que garante a manutenção dos seus membros – e o tempo da indústria – que garante os lucros ao ritmo das mudanças tecnológicas. Há uma disputa entre racionalidades, movida pela incessante busca de acúmulo de diferentes capitais54, o que faz com que a taxa ótima de exploração de um recurso (mão de obra, matéria-prima, conhecimento financeiro etc.) esteja relacionada cada vez mais com a contradição entre a lógica interna e a lógica

53 Essa dinâmica pode ser observada na fabricação de vários produtos: a tecnologia vem de um lugar, a

confecção dos componentes é feita em outro, e a montagem, em um terceiro. E algumas vezes a comercialização é concretizada em outro.

54 O capital é tratado aqui em sua acepção ampla como capital simbólico (envolvendo a dimensão

econômica, a social e a cultural). A forma como se dá a distribuição desse capital simbólico entre os diversos capitais está relacionada com o campo (institucional) em que está inserido. (BOURDIEU, 2001, p. 293-300).

externa dos processos de produção55. No processo histórico do capitalismo, a produção e o consumo de bens materiais e culturais são a base do modo de reprodução social do capital (simbólico), essas relações acabam por alterar os conceitos de tempo e de espaço. Na sociedade moderna, há uma naturalização do ideário do progresso como a única percepção de tempo e espaço. A manutenção e a ampliação do capitalismo – historicamente ligado às relações sociais e à estrutura produtiva, mediada pelo avanço dos conhecimentos técnicos, científicos, burocráticos etc. – são garantidas pela reprodução perpetuada das representações simbólicas, expressadas nas análises escolásticas do mundo.

O espaço passou a ser parte integrante do projeto modernizador a partir do Iluminismo. Segundo o discurso então dominante, seria possível determinar o futuro por meio da previsão científica, do planejamento racional, da regulação e do controle social. A visão iluminista tinha como referência a conquista e a organização do espaço. Dessa forma, a sociedade moderna estabelece-se com base na concepção da conquista e do controle do espaço. O espaço seria, deveria ser, dominado pela ação humana. Os espaços passam a ser homogeneizados e fragmentados, para que possam ser alienáveis como propriedade privada, para uso individual ou público, o que possibilita a sua comercialização, como uma mercadoria.

As influências da racionalidade kantiana, da visão mecânica, como padrão organizador do universo, oriunda do pensamento de Isaac Newton e do rigor matemático de Augusto Comte provocaram uma mudança qualitativa na interação entre os conceitos de espaço e de tempo. O conceito de tempo é vinculado ao espaço, e esse novo conceito tempo e espaço passa a ser absoluto e homogêneo. Tal conceito é uma das bases do capitalismo industrial, um axioma dominante nos dias atuais.

Assim, o tempo passa a ser universal e homogêneo, possibilitando ao processo capitalista mensurar a dinâmica da acumulação. Os investimentos podem ser comparados entre si, por meio da aferição do retorno do estoque de capital no tempo, o que possibilita a sua representação pela taxa de lucro, pela taxa interna de retorno (TIR), etc. O tempo serve ainda para mensurar os custos, o salário-hora, por exemplo. O tempo passa a ser contado de

55 Embora o que determina um investimento seja a relação entre as esperanças subjetivas e as

oportunidades objetivas; na modernidade, o interesse volta-se cada vez mais para demandas imediatas e para a capacidade objetiva de atendê-las. O tempo da vida social depende do presente percebido, pelo habitus, as decisões constituem uma ―ação do provável‖ que ocorre por um sentido prático diante de situações. Mas não se trata de uma relação mecânica. Portanto a ação não é pautada por uma racionalidade determinística como quer crer a teoria neomarginalista, baseada na ―utilidade marginal‖ da demanda e da oferta.

forma única, ignorando-se as diversas percepções do tempo existentes nas sociedades. A noção temporal vincula-se à hora, dia, mês, ano etc., e passa a ser aceita socialmente como referência universal. O cronômetro tem um sentido totalizante, a dimensão temporal é considerada em uma perspectiva linear, seja para o passado, seja para o futuro.

Por outro lado, a visão espacial foi disseminada pelo uso da cartografia, que permite uma percepção do espaço como algo homogêneo e contínuo da geometria. Os mapas possibilitaram uma abordagem totalizante, como instrumentos de uniformização da organização do espaço. O avanço tecnológico na cartografia garantiu um maior grau de precisão para estabelecer o controle do domínio das fronteiras e da administração dos territórios, bem como do direito de propriedade. Pelas representações da geometria espacial, o espaço é padronizado e recortado em pedaços que podem ser comparados entre si, possibilitando a adoção de uma escala de valor.

O espaço, no capitalismo, é compelido ao um padrão universal. A economia moderna capitalista forjou a produção e o consumo de bens materiais e culturais, que tratam o espaço como homogêneo e também fragmentado. Ao ser padronizado em uma esfera homogeneizadora e fragmentado em parcelas mercantilizadas, o espaço é, no capitalismo, um bem com todos os seus atributos, portanto, controlável pelo capital. Assim, a sociedade capitalista busca transformar o espaço, que deixa cada vez mais de ser fruto da vivência subjetiva, para ser estruturado por uma visão externa, objetiva de acumulação do capital. É a produção do espaço como mercadoria.

Na modernidade, domina o discurso do progresso contínuo da sociedade. O moderno está ligado à intensificação do tempo, por meio da racionalidade e da técnica. Assim, a ordenação e o controle do espaço-tempo fazem parte do ideário social, as mudanças sociais resultariam das relações estruturais. É preciso sujeitar cada vez mais o espaço ao tempo capitalista.

O acesso mais rápido e amplo aos novos mercados, graças à ampliação dos meios de transporte e de comunicação e aos avanços tecnológicos, levou à falsa crença de que o espaço estava perdendo o seu significado e de que o tempo passou a ser determinante na acumulação capitalista.

Na verdade, na atual fase capitalista, o tempo não comprimiu o espaço56. São peças indissociáveis do mesmo cenário, não sendo possível pensá-las separadamente, nem subjugá- las. De modo que, o que houve foi uma ressignificação da relação entre o espaço e o tempo.