1.1 Bakgrunn for oppgaven
1.1.5 Hvordan ivareta naturmangfoldet?
Várias dentre as atividades propostas apontavam inadequações tanto por práticas didático-metodológicas questionáveis, como por desconsiderarem as características especificas daqueles alunos. Entre os exemplos, podem ser citadas as atividades coletivas que provocavam o mascaramento do aprendizado individual, como leituras em conjunto de textos ou canções entoadas muitas vezes sem que os alunos sequer estivessem olhando para a lousa. Práticas pedagógicas que pareciam confundir memorização com leitura.
Outras propostas eram feitas aos alunos desconsiderando suas idades, classes sociais ou interesses. Importante lembrar que muitos dos alunos das classes de recuperação tinham defasagem série/idade, o que resultava em pré-adolescentes realizando tarefas voltadas a crianças menores. Considerando-se infantilizados, se recusavam a realizá-las ou o faziam de modo desinteressado.
O desinteresse, resultante de tarefas distanciadas das necessidades dos alunos, poderia ser outro fator explicativo da indisciplina, como sugere o relato abaixo:
A professora distribui uma folha com exercício e pede que escrevam uma canção de ninar. Dá dois exemplos: “Boi da cara preta” e “Nana, nenê”. Enquanto ela explica a tarefa, uma aluna joga o estojo para cima, pega e continua jogando, outro chupa pirulito, três alunos escrevem na lousa. A professora novamente chama a atenção, mas as crianças não atendem.
Contrastava-se profundamente o que ocorria no chão da escola em relação à proposta oficial de que na recuperação fossem ensinados “conteúdos relevantes e articuladores do percurso de aprendizagem que o aluno deveria realizar”.
Qual a intenção de discutir canções de ninar com alunos que têm mais de 9 ou 10 anos? A indisciplina precisa ser vista como resposta a algo pouco atrativo e afastado da realidade deles. Não se pode olhar somente a falta de esforço, é preciso que se busque entender porque não se esforçam.
Começam a escrever a carta ao Papai Noel. Nilson diz: “Eu não acredito em Papai Noel desde pequenininho”. Davi replica: “Vou pedir uma mansão” (escreve MANSAM). Nilson ri e diz: “Vai deixar Papai Noel pobre”. Davi: “Ele nem existe!”.
A escola parece desconsiderar o desenvolvimento físico e psicológico destes alunos que não se desenvolvem a contento no processo de leitura e escrita. Continuam sendo tratados como crianças, mesmo sendo adolescentes. Afinal, com 11 anos, quem acredita em Papai Noel? Alunos com interesses por sexualidade e mudanças do corpo, fazendo cartinha ao Papai Noel como tarefa. Evidenciava-se a contradição presente no tratamento a estes alunos, uma vez que ora eram tratados como crianças menores ora lembrados de serem maiores que os demais.
Marcos e Nilson estão com um dicionário e dizem que querem me mostrar uma palavra feia. Mostram a palavra pênis. Converso com eles e digo que não é uma palavra feia, é uma parte do corpo de todos os meninos e homens. Eles riem e sentam-se perto de mim.
Após este evento, houve uma maior aproximação desses alunos comigo. Contaram-me histórias de suas vidas escolares, motivos pelos quais entendiam estar na classe de recuperação e sobre seu relacionamento com os colegas e professora. Parecia que o vínculo
entre nós se fortaleceu quando os tratei com respeito diante de seus questionamentos sobre sexualidade, talvez um teste deles para que, então, pudessem falar sobre seu processo de escolarização.
Vale ainda ressaltar as implicações sócio-econômicas desconsideradas em solicitações como esta. Retrato aqui três cenas vivenciadas nas observações sobre essa tarefa relativa à carta ao Papai Noel:
Cena 1
Joelma diz: “Não desejo nada. Só quero ir pra praia”. A professora diz: “Pode desejar para alguém, não precisa ser para você”. Joelma: “Ninguém merece nada”.
Cena 2
Outro garoto diz: “Vou escrever: „Papai Noel, quero que você não venha‟”. Pergunto por que e ele responde: “Toda vez que peço alguma coisa, ele traz outra”.
Cena 3
Severina diz: “Desejo que não precise mais vir na escola”.
Cabe o questionamento: qual a finalidade desta tarefa? As crianças são pobres e provavelmente desejam muitas coisas que não receberão. Têm dificuldade quanto à leitura e escrita e ainda precisam lidar com este tema, que novamente aponta o que elas não têm.
Merece destaque o desejo relevado por Severina. O que a escola teria feito com uma menina nordestina de onze anos, que ainda não está alfabetizada, apesar de frequentar a escola desde os sete, gerando nela esse desejo? A principal função da escola, ensinar, não tinha se cumprido na vida dessa criança, cujo pedido a Papai Noel, refletia seu desencantamento com a instituição.
Outro exemplo de tarefa que desconsiderava a realidade social desses alunos foi a redação sobre o tema: O aniversário dos meus sonhos!
Joelma escreve sobre o aniversário dos sonhos. Cita brigadeiros, bolo de chocolate, balões e a presença de toda a família do Brasil, diz que queria que os que moram na Bahia viessem.
Tema estranho para um grupo de crianças de classes populares, que nem sempre têm muita comemoração no aniversário. Não há discussões ou comentários após a execução da redação, somente a tarefa trazendo à tona outras impossibilidades. Não fica claro qual o
objetivo de pensar sobre o aniversário dos sonhos com elas. Que interpretações essa tarefa pode despertar?
Como discutido, sabe-se que uma criança não interpreta a realidade, nem percebe os acontecimentos que sucedem ao seu redor do mesmo modo que os adultos. Segundo Vigotski (1935), as crianças não possuem um sistema de comunicação compatível com os adultos. Por isso, nem sempre o adulto consegue comunicar o significado pleno de um acontecimento a uma criança.
Assim, é preciso considerar os efeitos que as atividades desenvolvidas na classe de recuperação podem gerar nos alunos, uma vez que as diferentes interpretações da realidade, isto é, diferentes vivências serão fundamentais para a compreensão dos sentidos impressos à recuperação.
Segundo Leontiev, para aprender algo, mais que formalmente, não basta “passar pelo” ensino, mas o aprendizado deve ser vivido, passando a fazer parte do educando, adquirindo para ele um sentido vital. Deste modo, para conseguir a aprendizagem consciente é preciso buscar os motivos do estudo. Sabemos que os motivos se formam na vida real da criança. Há interação entre a vida e a esfera motivacional da personalidade, por isso os motivos não podem se desenvolver isoladamente, sem relacionar-se entre si.
Assim, compreender o desenvolvimento dos sentidos como produto do desenvolvimento dos motivos da atividade implica em atribuir ao desenvolvimento dos próprios motivos de atividade a constituição de relações reais do homem com o mundo, condicionado pelas circunstâncias objetivas e históricas de sua vida.
Smolka (1989) reitera esse pressuposto quando discute que é preciso considerar que as dificuldades em relação à aprendizagem estejam relacionadas “ao fato de essas crianças não terem encontrado sentido na alfabetização escolar [...] e que as condições de ensino e trabalho nas escolas têm a ver com essa falta de sentido” (pg 44). Essa autora atribui a produção do “analfabetismo” à marginalização na escola sofrida por muitas crianças tidas como portadoras de “dificuldades de aprendizagem”.
Qual o significado atribuído a essas tarefas? Por que crianças beirando a adolescência deveriam “fingir” acreditar em Papai Noel e escrever pedidos? Ou sonhar com festas de aniversário que não ocorreriam? Qual o sentido próprio atribuído ao fato de fazerem pedidos tidos, de antemão, como impossíveis de serem atendidos, uma vez que desejavam coisas que não poderiam ter, em função da classe social a que pertenciam? Quais os motivos ligados a essa atividade?