Nem sempre é fácil encontrar vínculos entre as ações cotidianas dos homens e a política no campo institucional. Desde que a política foi entendida como parte essencial da ação do Estado, junto com seu caráter de autonomia em relação às práticas diárias dos indivíduos, a separação ganhou mais força e nitidez, dando a impressão de que a contraposição desses mundos levou à opressão daqueles que não possuem os meios políticos nas mãos, acarretando aí em sua submissão ou mesmo desinteresse pela área, enquanto aqueles que detêm influência no aparato político do Estado exercem a função de opressores, pela condição que ocupam.
Se, por muito tempo, a História foi a visão oficial do Estado acerca de seu âmbito de poder, através da legitimação política de suas ações e da classe que o dirigia, a escrita historiográfica posterior a essa postura clássica tratou de fazer o inverso, isto é, olhar o Estado por baixo, a partir de quem sofre seus efeitos nefastos. Poder e política aparecem mais como fatores negativos, de maneira que precisam ser desqualificados como instrumentos construtores de uma ordem dada, sendo o Estado e a classe dominante o centro das observações e da crítica histórica. Se o dedo inquisitório fora apontado para os estrangeiros pela historiografia tradicional gaúcha, esse dedo inverte sua direção quando os imigrantes começam a produzir e a escrever sua história, fato que fica bastante evidente em obras de cunho marxista.
Em seu trabalho O olhar do poder, Luiza Horn Iotti deixa claro esse pressuposto.
Poder é, acima de tudo, o poder do Estado ou de seus representantes.57 Obra de referência na
História política da imigração, o estudo procura analisar a visão dos cônsules, representantes oficiais do governo italiano, em relação aos emigrantes no Brasil, ou como a própria autora
define: “como o estado italiano via a emigração e o emigrante” (2001, p. 19). O olhar da elite
sobre as massas pobres, cujo objetivo era acompanhar e controlar seus súditos, tornou o processo emigratório uma empresa lucrativa ao nascente Estado liberal italiano. Procurando
56 A constituição de uma ordem religiosa com raízes profundas na formação do poder regional durante o século
XX será abordada no próximo capítulo.
57 A definição de Estado usada pela autora é de Gramsci: “todo o complexo de atividades práticas e teóricas com
que a classe dominante justifica e mantém o seu domínio e ainda consegue obter consenso ativo dos governados” (GRAMSCI, 1992, p. 19 apud IOTTI, 2001, p. 19).
retirar o aspecto autônomo e isolacionista da empreitada emigratória, Iotti marca claramente que esse foi um projeto de Estado dirigido, legal e burocraticamente, pelas instâncias de poder nacionais, tanto brasileiras quanto italianas, embora seu foco esteja direcionado para a segunda.
Para tanto, é determinada a estrutura consular da Itália, a origem social de seu quadro diplomático e sua distribuição, assim como as fases da política estatal italiana no trato do fenômeno emigratório e seus reflexos no Ministero Degli Affari Esteri. Após, são analisados os relatórios produzidos pelos cônsules ou representantes consulares italianos no Brasil, o que possibilita ver os interesses e a posição do governo peninsular naquilo que diz respeito ao fenômeno. Sobre esse item, a conclusão reforça a ideia do grupo social dominante em ver os emigrantes como “cidadãos de segunda classe”, que precisavam ser acompanhados e
tutelados, pois serviam aos interesses comerciais italianos, por serem consumidores “em
potencial dos produtos fabricados e comercializados na Itália” (IOTTI, 2001, p. 119). Os
interesses econômicos estão no centro da análise, e sua concretização só poderia vir através de uma política específica, que criasse o sentimento de pertencimento dos emigrantes à antiga pátria, isso é, a italianidade.
O contraste com a obra de Manfrói é evidente: nele, a italianidade é produto mais de uma alteridade ou de um sentimento genuíno e necessário de identificação cultural canalizado pelo sentimento religioso que permitiu a sobrevivência do grupo na nova terra; em Iotti, a italianidade não passa de um projeto de Estado voltado para os interesses de um capitalismo em desenvolvimento. A autora quebra a aura dos indivíduos heróicos e a substitui pelas estruturas dominadoras produzidas pelo novo sistema econômico e dirigidas pelo grupo social
no controle do Estado.58 Assim, o dado político é fruto das manobras institucionais que, por
sua vez, são determinadas conforme o desenvolvimento do processo econômico. Em última instância, a política é função estatal e os meios para influir nela estão nas mãos da classe dominante.
Certamente que não se pode ignorar o objetivo principal do estudo que remete diretamente às fontes oficiais produzidas pelo governo italiano, mas interessa notar também que o emigrante não possui vontade nem rosto, é transformado em classe e em massa pobre de
manobra. Em sua conclusão, Iotti observa que “os emigrantes desempenharam um duplo
papel. Por um lado, foram objeto e, por outro, atuaram como sujeitos deste processo” (2001,
p. 117). Mas esse sujeito não se dá a conhecer, nem parece atuar como sujeito, a não ser como
58 Lembra-se que a primeira parte da obra trata exclusivamente das mudanças políticas, sociais e econômicas por
fator a ser controlado, o que é mais um sinônimo de destruição do que de inclusão no universo político.
A escolha dessa obra como mote inicial para tratar do tema a que este item se propõe se deve mais à forma explícita como trata do assunto e menos a um ordenamento cronológico. Marcadamente de orientação marxista, os trabalhos produzidos por Iotti seguem a linha já estabelecida por Loraine Slomp Giron, quando busca na expansão do capitalismo, no final do século XIX as razões do fenômeno migratório. Em diferentes trabalhos, não somente de Iotti, mas de diversos outros autores, parece ecoar a clássica passagem da autora ao afirmar que
o fenômeno migratório, que caracteriza o final do século XIX e o início do século XX, que vai deslocar apreciável contingente humano da Europa para a América, não é um fato isolado. Está associado às transformações sociais, políticas e econômicas que ocorrem no mundo ocidental, em decorrência da expansão do capitalismo, e às novas formas de produção que então serão adotadas. Nesse contexto, insere-se a imigração italiana (1980, p. 47).
Lembrando Marx, quando trata da condição dos homens na construção da História, a
premissa principal da qual se deve partir para a análise dos fenômenos “são os indivíduos
reais, a sua ação e as suas condições materiais de vida, tanto as que encontraram como as que
produziram pela sua própria ação” (1984, p. 14). A historiografia marxista coloca o imigrante
num tempo concreto, sujeito às forças impessoais do sistema que o arrasta e o transforma. Em um dos trabalhos de Giron em conjunto com a professora Heloísa Eberle Bergamaschi, Colônia, um conceito controverso, a visão de uma estrutura dominante é ainda mais clara e as determinações surgidas parecem não deixar espaço para a ação política do imigrante, aqui, já na condição de colono. Partindo do estudo conceitual do termo, as autoras estabelecem o sentido histórico de “terra a ser conquistada”. Pode-se usar colônia para designar terras estrangeiras sob o domínio de um país, como no caso do Brasil em relação a Portugal. De igual forma, se aplica o mesmo sentido quando se trata de terras disponíveis no interior do país sujeitas à ocupação e à administração do governo central. Por fim, colônia também se refere ao pequeno lote de terra em que seu ocupante, o colono, toma posse e estabelece aí seu domínio. A posse, em todos os sentidos acima, requer o uso de certos expedientes de violência e controle, sempre no âmbito de um dominador e um dominado. Dentro do objetivo principal da análise, o imigrante, transformado em colono, é elemento de dominação, pois está sujeito ao controle externo das instituições jurídicas, administrativas e políticas do Estado; mas também se transforma em dominador, na medida em que, dentro de seu lote de terras, submete a família a seu mando segundo a lógica produtiva, e aí reina
e punir’ as dos dirigentes coloniais” (GIRON, BERGAMASCHI, 1996, p. 21). O espaço da colônia se torna uma espécie de purgatório para seus habitantes, o que acaba produzindo, pela condição dos mesmos, atitudes contraditórias.
Duplamente excluídos da pátria onde nasceram, e da que se localizam, os colonos desenvolvem um modo de ser próprio e contraditório. Revoltados contra a injustiça, apresentam uma submissão que não possuíam. Audaciosos ao deixar a pátria, acovardam-se diante das autoridades e dos senhores. Desiludidos com os administradores, passam a encarar os políticos como inimigos perigosos. Mesmo submetidos a um rígido controle sentiam-se livres. [...] Para o colono a colônia é seu feudo, na qual ele reina absoluto, ao qual tudo é permitido. [...] A submissão da família decorre de seu poder de proprietário das terras (GIRON, BERGAMASCHI, 1996, p. 63-64).
Com algumas variantes, essa perspectiva é constante nos escritos de Giron, o que não quer dizer que esteja incorreta. Essa forma de conceber a sociedade colonial pode, entretanto, acarretar em alguns problemas. O primeiro deles se refere, sem dúvidas, à forma como organiza suas escalas temporais e espaciais, quando, dentro de um mundo estruturado, o tempo parece aplainar o espaço e reproduzir suas formas dentro de escalas macro e micro, isso é, desde a possibilidade de se colocar um território como o Brasil e um pequeno lote de terras num mesmo esquema explicativo, onde as relações sociais de poder e domínio sigam a mesma lógica. Pode-se pensar assim quando a generalização nos permite óticas amplas, mas o argumento não se sustenta se o olhar descer das alturas estruturantes e pousar no solo firme dos “indivíduos reais”.
A questão é tentar entender o que levaria um colono como Paulo Rossato a descrever
as colônias no sul Brasil como as terras da liberdade, já que “para se encontrar autoridade, são
necessárias 6 horas de viagem” (DE BONI, 1977, p. 59), ao mesmo tempo em que os irmãos
Antônio, Luigi e Felice Taschetto, estabelecidos na colônia Silveira Martins, rogavam aos antigos patrões na Itália que financiassem seus retornos ao país que “quando voltarmos nos sujeitaremos a qualquer condição e com nossas vidas pagaremos as despesas pelo fato de
voltarmos à pátria” (FRANZINA, 1994, p. 123). Da mesma forma, o padre Domenico Munari
relata, desde a colônia Dona Isabel, que a maior parte dos colonos “maldizem o dia em que foi
descoberta a América, maldizem o descobridor, a imigração, e o dia de sua partida para essas partes, e desejariam serem miseráveis e nus na pátria, antes que verem-se privados de todas as
coisas no meio desta selva” (FRANZINA, 1994, p. 70). E, por fim, por que Felice Sartor, ao
chegar na colônia Caxias, em 1885, louvava o novo Moisés, Dom Pedro II, que havia libertado os colonos da miséria da Itália para lhes dar a nova vida no Brasil? (FRANZINA, 1994, p. 114).
Aparentemente, as contradições postas por Giron são evidentes, mas teriam elas as mesmas motivações? Rossato, por exemplo, não parece estar se referindo a nenhuma forma de controle rígido do Estado, aliás, agradece a falta dele, embora sua noção de liberdade esteja ancorada no fato de possuir um lote de terra. No entanto, essa noção de liberdade não é válida para todos, fato evidenciado pela carta dos irmãos Taschetto, para quem a posse da terra não é garantia de liberdade, mas de escravidão, elemento também presente nas impressões de D. Domenico Munari. O conformismo é dado pela impossibilidade de ação política reforçada pelo isolamento imposto. Esse isolamento, entretanto, parece ser desejado por alguns, enquanto a falta de autoridade e de organização institucional é reclamada por outros. Há que se considerar, ainda, a desconfiança, que não recai sobre autoridades administrativas apenas, mas, sim, e com maior intensidade, sobre seus iguais, identificados por Giron como os compatriotas colonos. Por mais de uma vez, Rossato teve de se defender das acusações de estar mentindo ao chamar seus parentes para o Brasil; Antônio Basso, que se dirigira à colônia Silveira Martins, acusava Davanzo Giusto de traição por tê-lo chamado ao país, culpando-o pela condição deplorável em que se encontrava (FRANZINA, 1994, p. 164); as mesmas reclamações faziam os já citados irmãos Taschetto.
De fato, a colônia pode ser um lugar plural, em que as noções significativas se
tornam complexas. Citando Doreen Massey, “o espaço é produto de relações sociais [...] que
emergem através de práticas materiais ativas. Além disso, este movimento seu não é apenas
espacial, é também temporal” (2008, p. 175). Seria melhor, então, tomar o espaço da colônia
não como fechado, mas aberto e relacional; não como excludente, dentro de uma estrutura fixa, mas como inclusivo e propenso a dinâmicas múltiplas. Isso, obviamente, não significa
isolamento nem limites impermeáveis, e, sim, que, “entrar em relação seria, portanto,
estabelecer limites ou se deparar com eles. A inevitabilidade do limite torna-se resultado da
inevitabilidade do contato. Qual, portanto, seria a origem do limite – a relação?” (HISSA,
2002, p. 38). Posto dessa forma, a questão nos leva à discussão sobre as identidades produzidas social e historicamente, e da maneira como os esses fenômenos são reconhecidos em diferentes extensões/ordenações do espaço. (HAESBERT, 2002, p. 108). A resposta a essa pergunta é difícil, e se tentará respondê-la no decorrer do trabalho.
Mas, enfim, quando é que a cena política abre espaço para a atuação dos imigrantes? Giron parece dar essa resposta em sua obra mais importante, As sombras do Littorio: o fascismo no Rio Grande do Sul. Segundo a autora, a adesão da sociedade local ao movimento
fascista59 foi apenas de uma pequena parcela da população, facções da burguesia regional e parte do clero, cujos benefícios econômicos e políticos lhes serviram até determinado momento. Esse grupo também foi utilizado pelo governo italiano, na medida em que formatava uma imagem positiva do regime fascista no exterior.
Beneficiados pelas boas relações comerciais entre Brasil e Itália – não alteradas nem
nos momentos em que a política italiana se tornara imperialista e dera visíveis sinais de
proximidade com Hitler –, a elite regional expandiu seus negócios e a propaganda fascista foi
constante no período entre 1935 e 1938. (GIRON, 1994, p. 139). Não apenas isso, o movimento havia oferecido meios à “ascensão social e uma aproximação com a burguesia italiana”, através de uma política eficiente da diplomacia peninsular. (GIRON, 1994, p. 151). Porém, com o rompimento das relações entre Brasil e Itália, em 1942, e a consequente campanha de nacionalização empreendida pelos que se identificavam com o governo Vargas, essas facções da elite regional que haviam aderido ao fascismo logo trataram de mudar de lado e passaram a apoiar o esforço de guerra brasileiro contra o Eixo. Confirmara-se a velha máxima de Marx de que o capital não tem pátria, recaindo o ônus da repressão sobre a população comum, que pouco sabia ou se interessava pelo regime italiano, enquanto a elite nada sofrera.
Observa-se que as medidas restritivas eram contra os estrangeiros pertencentes às potências que formavam o Eixo, e, não apenas, contra os políticos italianos e brasileiros que tinham posições e atividades políticas claramente nazistas ou fascistas. Se a “culpa” era particular e exclusiva de um restrito grupo da comunidade, as penas passaram a ser aplicadas à comunidade de origem estrangeira como um todo (GIRON, 1994, p. 131).
A adesão e inclusão no dado político é, portanto, calculado segundo os benefícios econômicos e sociais que poderiam vir daí. O interesse pela política fica em segundo plano, sendo um elemento que surge na esteira de outros motivos. Ao menos, como um todo, a obra de Giron se mantém coerente com esse princípio, o das limitações de uma população pobre e oprimida, distante dos meios legais de poder, como a tomada do Estado, resultando em seu afastamento do campo político decisório e institucional. A não ser em momentos específicos, como demonstrado no caso do fascismo, parte da elite dessa comunidade pode chegar ao centro do poder, o que não significa que o desejasse, nem que o tivesse tomado efetivamente. Por fim, a lacuna deixada pelas interpretações marxistas diz respeito precisamente ao espaço vazio de ação traduzido na carência de material cultural, econômico e social para se chegar ao
59 Giron toma o fascismo segundo a definição de E. Mendel: “o fascismo é um produto do capitalismo
poder. Por mais que se aceite essa interpretação, ficam algumas perguntas: Como teria sido isso possível? A organização regional, em seus mais diversos aspectos, fora produto do quê? Excetuando a recorrência às forças metafísicas do ‘sistema’, restam poucas alternativas. Poucas, mas não quer dizer que não existam.
É ainda Luiza Horn Iotti quem busca uma possível saída, dentro dessa visão. Em sua tese de doutorado Imigração e poder: a palavra oficial sobre os imigrantes italianos no Rio Grande do Sul (1875-1914), ao estudar os relatórios oficiais dos presidentes do estado, além de documentos que permitiram determinar a organização, legislação e mudanças na estrutura burocrático-administrativa do empreendimento colonial no Rio Grande do Sul, aborda, entre outros itens, os conflitos entre colonos e autoridades. A origem dos conflitos seria a insatisfação dos colonos com o não cumprimento de contratos por parte do governo, as más condições de trabalho, os abusos e as desonestidades de funcionários públicos, ou mesmo o
desrespeito a certas práticas legais que, certamente, os próprios colonos desconheciam.60
Nos episódios arrolados por Iotti, fica evidente que as atitudes dos colonos influem diretamente no campo político e as afrontas colocam em suspenso as autoridades administrativas, embora isso seja amenizado pela autora, devido à presença e ao cuidado jurídico dispensado pelo Estado:
antes das penalidades, era preciso policiar e coibir futuros atos de revolta contra o governo e/ou autoridades e de banditismo. Assim, foi montada nas colônias uma estrutura de modo a evitar tais ocorrências, o que não impediu o surgimento de conflitos entre colonos e autoridades (IOTTI, 2003, p. 162-163).
É preciso observar que os relatos da autora compreendem o período de 1874-1889, fase em que houve um descaso do governo pela colonização, acompanhado por um abandono e um retrocesso na administração e organização do projeto. (IOTTI, 2003, p. 210). É justamente por esse motivo, contudo, que as ações dos colonos não são reconhecidas como propriamente políticas, pois no vácuo institucional não há possibilidade de elas existirem:
durante o período imperial, foi praticamente nula a participação política dos imigrantes. Suas relações com o governo provincial eram mediadas pelos diretores das colônias, o que lhes conferia um poder ainda maior do que o previsto na legislação (IOTTI, 2003, p. 215).
Tratados como fatos isolados, restritos a um espaço de tempo entendido como descaso estatal, os questionamentos e as revoltas são episódicos, faltando-lhes, talvez, o conteúdo de uma consciência coletiva, ou se melhor quisermos, de classe, que dessem sentido
60 A seguir serão analisados alguns casos que não constam na tese de Iotti, portanto, não serão aqui descritos os
ao conjunto de atos, transformando-os então em políticos. Nessa situação, a ordem seria relativamente restabelecida pela força repressiva dos instrumentos de poder do Estado.
De maneira alguma se está invalidando a análise da autora, apenas tentar-se-á buscar, a partir de agora, alguns indícios que estabeleçam vínculos e sentido político para os acontecimentos do período. O primeiro caso refere-se à colônia Caxias, e diz respeito às reclamações do delegado de polícia, Constantino Ramalho, no ano de 1880. Segundo seu ofício, o funcionário público Edmundo Strunk, agrimensor, havia desrespeitado com ofensas homens da força pública, obrigando Ramalho a chamar-lhe atenção.
A resposta agressiva do funcionário obrigou o delegado a dar voz de prisão, provocando uma reação violenta de dois seus companheiros, Estácio Luiz Pereira e Augusto
Becker, cunhado e trabalhador de turma de Edmundo, respectivamente. “Armado com um
bastão ou uma adaga e outro com uma pistola disseram em altas vozes ‘o homem não vai
preso’, e Edmundo por sua vez: ‘me manda matar mas não me entrego’, e assim dizendo
mostrou-me o peito” (AHRGS, Inspetoria da Diretoria de Terras e Colonização, Caxias, maço
53, caixa 29). Pelo fato de encontrar-se desarmado diante de um grupo numeroso do qual não sabia exatamente as intenções, o delegado não reagiu, e ordenou aos dois praças que se