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4.1 Mellemspil i Smuler

4.1.2 Hvem er fienden? Thulstrup og Stewarts forskjellige syn

A terceira revisão do roteiro escrito (quarto tratamento, considerando a versão original)23 usada para comparar com a versão filmada e montada que foi apresentada no cinema, registra, em sua folha de rosto, “Adaptação de Suzana Amaral e Alfredo Oroz”. Diferentemente do filme, que informa, na ficha técnica de apresentação dos créditos, ser “baseado na obra de Clarice Lispector”. Existe, decididamente, diferença entre “adaptação de” e “baseado em”. Considerando o produto filme, há que se convir que a modificação resultou mais adequada, já que “adaptado” leva a entender que, a partir do texto de Clarice Lispector, houve uma adaptação do conteúdo expresso em linguagem verbal para a linguagem fílmica. Esta seria a adaptação: transformação do livro em script cinematográfico. Já a utilização da expressão “baseado em” implica passar a idéia de que o texto serviu de base, apoio. Ou ainda, de que houve uma natural transformação do texto e seu conteúdo na passagem do livro ao filme. Embora usados indistintamente, os termos guardam entre si sutis diferenças. Creio que essa foi a intenção de Suzana Amaral ao optar por “baseado em”, na versão final do produto, o filme24.

Na cópia do roteiro de Suzana Amaral, existem anotações de próprio punho da diretora, onde fica em relevo as modificações que o roteiro sofreu em diversos momentos da filmagem. Por essas anotações, verifica-se que muitas das tomadas planejadas foram completamente alteradas. E que outras, se filmadas, ficaram no “copião”, não passando para a montagem final. Um exemplo a citar, pela aproximação quase literal com o texto de Clarice Lispector, é a seqüência em que Macabéa vai ao médico, o qual, no livro, foi indicado por Glória25, e no roteiro, sugerido por Aparecida, uma das colegas de quarto.

Tomada 276, no roteiro:

Médico: Você faz regime para emagrecer, menina? Macabéa: (não responde)

Médico: O que você come? Macabéa: Cachorro-quente... Médico: Só?...

Macabéa: Às vezes como sanduíche de mortadela...

23Cf. cópia do roteiro escrito (julho, 1984), terceira revisão, fornecido por Suzana Amaral.

24Em correspondência ao pesquisador João Manuel dos Santos, datada de 21/11/1989, Suzana Amaral reconhece

que o roteiro, em diversas versões, foi “evoluindo e se modificando”. Na entrevista concedida a Osvando Morais, já referida, Suzana Amaral declara que “o livro é como a ponta de um iceberg; o essencial, a coisa maior, está por baixo. [...] Tem coisas no filme que não estão no livro. Mas há o principal: as sensações [...].” (AMARAL, 1984, p.39).

Médico: Que é que você bebe? Leite... Macabéa: Só café e refrigerante...

Médico: Refrigerante?... Você às vezes tem crise de vômitos?...26

Compare-se com a cena literária:

- Você faz regime para emagrecer, menina? Macabéa não soube o que responder. - O que é que você come?

- Cachorro-quente. - Só?

- Às vezes como sanduíche de mortadela. - Que é que você bebe? Leite?

- Só café e refrigerante.

- Que refrigerante? – Perguntou ele sem saber o que falar. À toa indagou:

- Você às vezes tem crise de vômito? (AHE, p.80)

Enfim, toda a seqüência é construída pelas marcas do próprio texto literário. Não só as falas são textualmente aproveitadas, como a idéia de apresentar o médico como um profissional inescrupuloso, desatualizado e que clinica apenas para ganhar dinheiro é explicitada tanto no roteiro escrito como no texto literário. No roteiro, há a indicação: “Consultório médico decadente revela profissional sem escrúpulos. Interior, dia”27. No livro: “Esse médico não tinha objetivo nenhum. A medicina era apenas para ganhar dinheiro [...] Sabia que estava desatualizado na medicina” (AHE, p.81).

O fato de cenas filmadas não passarem pela montagem na moviola é muito comum na indústria do cinema. Às vezes, a opção de não utilizar o material filmado é tomada em comum acordo entre o montador e o diretor do filme. No caso de A Hora da Estrela, se a cena foi filmada e não foi aproveitada na montagem, a decisão prejudicou a continuidade da ação fílmica, pois, se Macabéa vomita, na seqüência imediatamente posterior à festa em casa de Glória, e que está no filme, essa cena é a preparação para a visita ao médico: a colega, inclusive, sugere isto, aconselhando a consulta.

Ao contrário, há no roteiro escrito diversas cenas que não são sequer sugeridas no texto literário e que, da forma como foram trabalhadas pelos roteiristas, incorporam-se ao universo fílmico da história de Macabéa. Esta constatação corrobora a percepção de que Suzana Amaral, a diretora, buscou criar algo novo, usando uma nova linguagem, a do cinema, onde certos predicados ficam bem mais evidenciados, como a caracterização dos atores, os cenários reais e os criados especialmente para o filme, além de poder dotar os personagens de

26Cf. cópia do roteiro escrito, p.82. 27Cf. cópia do roteiro escrito, p.83.

características humanas, palpáveis, mais que a compreensão que o leitor tem dos personagens tendo diante de si tão somente o texto literário.

Nesse caso, cada leitor cria uma imaginário para esta ou aquela trama, esta ou aquela personagem e assim por diante. Um exemplo seria a seqüência em que Macabéa, “de pé no meio do ônibus entre dois moços bonitos [...] fica espremida. [...] Ela os olha. Estão apertados nela, os dois, bem altos, bonitos, falantes. [...] vê os sovacos dos moços, suados. E gosta. Fecha os olhos e cheira. Gosta”. No filme, essa é a seqüência 14. Na versão final, que acabou sendo filmada, a cena acontece num carro de metrô apinhado de passageiros. Mas a idéia é a mesma. Macabéa, espremida entre os dois homens que, segurados nos apoiadores, ficam com as axilas à mostra, bem à altura do rosto de Macabéa, que sente o cheiro dos homens e gosta.

Não há, entretanto, no texto de Clarice Lispector, semelhante situação. A idéia que conduziria a essa concreção narrativa do filme seria a que está expressa no encontro de Macabéa com Madame Carlota (AHE, p.90), em apenas três frases, dialogadas: “– Você sabe, meu amor, que cheiro de homem é bom? Faz bem à saúde. Você já sentiu cheiro de homem? – Não senhora”. Pelas revelações anteriores da cartomante (cafetina, prostituta, sem medo de palavras, sem papas na língua), o “cheiro de homem” não se restringe ao cheiro do suor das axilas, mas adquire conotação mais forte, de caráter sensual, sexual mesmo.

No filme, cronologicamente, a seqüência do metrô antecede à do encontro com a cartomante. Diferentemente do que acontece no texto literário, serve para reforçar a idéia de que Macabéa, ao responder negativamente à Madame Carlota, mentiu. O que referendaria tal leitura seria a observação da seqüência seguinte, a de número 15 no filme, em que Macabéa, visivelmente excitada, à noite, deitada na cama, mãos entre as pernas, masturba-se. Essa constatação remete-nos ao texto literário: “Penso no sexo de Macabéa, miúdo mas inesperadamente coberto de pêlos negros – seu sexo era a única marca veemente de sua existência. Ela nada pedia mas seu sexo exigia [...]” (AHE, p.84). Tal idéia é fortalecida pela afirmação: “[...] tinha vergonha da verdade. A mentira era tão mais decente. Achava que boa educação é saber mentir” (AHE, p.83).

Isto exposto, pode-se afirmar que o filme pode ser visto como um produto codificado cinematograficamente a partir de uma base literária: o texto literário A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Isso é, na transcodificação do livro para o filme, Suzana Amaral constrói a especificidade da narrativa de Macabéa. Nessa trajetória, porém, não se perderá a marca

literária da personagem clariceana, mas, agora, no espaço-tempo do filme Macabéa encontra sua humanidade nos pequenos gestuais de um cotidiano raquítico, franzino, como raquítica e franzina foi sua própria existência literária. Se na obra original a trama faz emergir um debate instigante sobre a linguagem, a autoria e até mesmo narrador em constante crise existencial, no filme tudo isso é relegado a um plano secundário que chega mesmo às raias do que é efêmero, perecível, descartável. Na obra original Macabéa além de ter uma existência limitada e circunscrita ao universo regionalista onde a carência de bens (materiais e imateriais) é sua característica gritante, nas telas, a personagem encontra restos de felicidade em uma existência anódina e frugal. É nesse espaço mágico que o cinema sabe construir e seduzir pela junção da emoção e da técnica, da razão e do sentimento, que Macabéa encontra-se no espectador que, em silente torcida, almeja que o projeto humano venha a vingar e seja de uma completude inescapável.