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O material a seguir foi coletado no Instituto do Patrimônio Histórico Nacional – Cinemateca Brasileira e teve seu recorte feito de forma a se contemplar opiniões diversificadas, algumas vezes antagônicas, por parte de veículos de comunicação do Brasil e do Exterior, bem como da lavra de conceituados críticos e estudiosos de cinema no Brasil. Pela própria natureza de se fazer um recorte fica subentendido que é reforçada a subjetividade de quem realiza o recorte, pois este tem que optar entre tal comentário ou opinião, inserindo alguns destes e excluindo outros ainda. Isto posto, a coletânea apresentada são fragmentos escolhidos por considerá-los importantes e capazes de se formar um rico painel dentro de uma unidade acerca de como o livro e o filme repercutiram junto à crítica e aos meios midiáticos. Algumas críticas seguem para o elogio desmesurado, outras igualmente elogiosas não se caracterizam, por assim dizer, pelo entusiasmo com as obras e algumas outras apontam lacunas e deficiência tanto em um quanto em outro.

Como é praxe, a análise de uma obra, de uma linguagem artística, suscita as mais diversas interpretações. Críticos podem enveredar por uma determinada vertente de expor seu pensamento e opinião, algumas vezes focam na maestria do cineasta, outras na escolha dos atores que irão interpretar os personagens, outros ainda buscam dar relevo a aspectos técnicos, características tanto da linguagem literária quanto da cinematográfica. Não deixa de ser instigante determinadas formas de associações entre o filme, o livro, o roteiro final e também essas relações com os protagonistas, dentro de um arcabouço maior de se lidar com outros símbolos criados pelo cinema.

Correio Braziliense, 1º de Outubro de 1985: O "calvário"de Macabéa (Sérgio Bazi):

[...] Em seu primeiro filme de ficção, Suzana encontrou as notas certas para encenar a temível Clarice. O resultado é um filme simples e cativante, cheio de emoção, embora marcado por um rigor e uma secura bressonianos (de Robert Bresson, o grande e esquecido cineasta francês). Apenas a solução do desfecho me pareceu destoante do adequado despojamento da narrativa. E só aí o filme despenca no facilitário (a montagem alternada, imagens desaceleradas), num rebuscamento que se distancia da proposta revelada por Rodrigo/Clarice: "não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade". Ou como explica mais adiante: "... não vou enfeitar as palavras pois se eu tocar no pão da moça esse pão se tornará em ouro – e a jovem não poderia mordê-lo, morrendo de fome. Tenho então que falar simples para captar a sua delicada e vaga existência.

"A hora da estrela", Suzana Amaral usa uma linguagem simples e objetiva, com momentos de lirismo, para entrar no mundo da nordestina Macabéa (Marcélia Cartaxo) [...] A cineasta penetra no cotidiano de uma mulher comum sem nada de heróico, um ser sonhador que pensa, ama, mas se deixa impulsionar pelas pessoas que lhe estão próximas [...] "A hora da estrela" nada mais é do que a hora da morte. Apoiado pela exímia direção fotográfica de Edgar Moura, Com trilha sonora adequada às situações vividas pela personagem, Suzana Amaral revela, em Macabéa, traços análogos aos de Cabíria, de Fellini, em "Noites de Cabíria", guardadas as diferenças entre os dois tipos humanos: uma é a mulher comum que sobrevive na São Paulo de hoje; a outra é a prostituta que tem de sobreviver na Itália do pós-guerra. Ambas sonham e mantêm nas suas personalidades a pureza e a ingenuidade que transportadas à tela, terminam por levar o espectador a uma emotiva reflexão.

Jornal da Tarde, 3 de outubro de 1985: O cinema paulista vai bem, obrigado (Edmar Pereira):

[...] Em apenas duas horas, e em sua última noite, o 18° Festival de Brasília do Cinema Brasileiro fora resgatado de passar aos arquivos como medíocre e insuficiente para atrair ou emocionar qualquer audiência. A Hora da Estrela e sua extraordinária atriz foram os únicos responsáveis por esta mudança. O anúncio da premiação pelo júri oficial apenas confirmou o que todos já intuíam: nove prêmios para A Hora da Estrela, incluindo melhor filme, direção, roteiro (Suzana Amaral e Alfredo Oroz), fotografia (Edgar Moura), trilha sonora (Marcus Vinicius), montagem (Idê Lacreta), cenografia, atriz e ator (José Dumont, escolhido por seus trabalhos em A Hora da Estrela e Tigipió). Além dessa premiação oficial, o filme recebeu ainda o Prêmio da Crítica (votado pelos críticos de vários Estados presentes em Brasília) e o prêmio OCIC das organizações católicas. Este triunfo completo (e também justo, embora não se compreenda como Aqueles Dois, do gaúcho Sérgio Amon, possa ter sido ignorado pelo júri, já que foi o outro bom momento deste festival tão econômico em qualidade) confirma o cinema de São Paulo como o melhor e mais ativo do País. [...] Além de prêmios, uma produção que consegue brigar até mesmo com a mais profunda crise econômica que já se abateu sobre o cinema nacional.

Tais críticas foram escolhidas, particularmente, pela interessante associação do Sérgio Bazi (Correio) entre o filme e a obra de Robert Bresson, realmente um cineasta sintético. A linguagem de Suzana Amaral fica assim justificada menos por escolher soluções fáceis do que por optar por uma linguagem deliberadamente concisa. A quantidade de prêmios também corrobora o sucesso do filme e, dado o percurso da cineasta – Suzana Amaral, cearense, formação nos Estados Unidos, embora tenha feito filmes sobre SP –, é surpreendente que o resenhador do Jornal da Tarde destaque a vitória do cinema paulista. Também é importante ressaltar o fato de os críticos situarem o filme A Hora da Estrela entre a obra de outros cineastas – Robert Bresson e Fellini – o que ajuda a consolidar o domínio da linguagem cinematográfica pela cineasta. Outras críticas, algumas negativas, são encontradas em anexo (ANEXO 4).