A proposta pedagógica estabelecida no Projeto Temático 2008 privilegia a construção coletiva do conhecimento e a participação da vida em comunidade e da comunidade. Tomando por base a pedagogia de projetos e o sociointeracionismo, propõe a organização de conteúdos e atividades curriculares através de projetos voltados para as questões cotidianas da comunidade. Uma escola inserida na realidade, aberta a múltiplas relações sociais.
Conforme informado pela diretora, o trabalho com projetos possibilita um grande envolvimento na prática cotidiana, assim como o envolvimento do aluno em sua formação. Sugere que a aprendizagem deve começar pelos acontecimentos em que os alunos estão envolvidos e cujos significados procuram construir, numa perspectiva interdisciplinar. Assim, o ambiente escolar deve ser um lugar em que o aluno possa atuar, discutir, realizar e avaliar, de forma prazerosa e significativa. O professor deve estimular os avanços dos alunos, e o erro é considerado parte do processo.
Entretanto, caminhando ao lado dos registros formais, as ações cotidianas não parecem se fundamentar nesta perspectiva. Os exercícios escolares são em sua maioria construídos na exigência de esforços individuais. As aulas são expositivas, fator limitante que reduz as possibilidades de participação dos alunos. Cabe destacar que, mesmo expositivas, algumas aulas eram mais participativas. A ênfase na alfabetização está presente em todas as séries, isto é, cobra-se dos alunos que devem saber ler e escrever.
As atividades em sala de aula pouco estimulavam a produção, a criação, tornando-se rotinizantes, dispersas, com tendência à homogeneização e a reprodução. Não se observaram atividades grupais, ou atividades que promovessem a descoberta, a interação, à exceção de algumas atividades propostas por um professor para uma turma de Educação Infantil que, entretanto, não utilizava os mesmos recursos com a turma de primeira série, para quem também lecionava, e pela professora que permaneceu na escola por quatro meses. Em conversas informais, esta professora relatou que trabalha desde o início com a autoavaliação.
Observou-se que a escola, como lugar de aprender a ler e escrever estabelece a prática do bom saber, e este bom saber é o que a escola ensina. Privilegia a transmissão do saber universal, dentro dos conteúdos estabelecidos no Programa Oficial de Educação Básica do município que, conforme relato dos professores, é comum a escolas urbanas e rurais.
“Não tem diferença não. Aliás, a diferença é que, porque tem outro Programa que fizeram agora por causa do ciclo (para as escolas urbanas). (...) Diferente em termos, porque ele só divide os conteúdos. Agora lá não, a proposta de lá ela é inteira, ela vem no projeto com tudo dentro, mas é a mesma proposta, é o mesmo conteúdo, a mesma avaliação, aquela redação é a mesma, o da metodologia, então quer dizer que não tem quase diferença (...) ainda mais de conteúdo, é o mesmo, a parte de conteúdo não mudou”
(Profa. Diva).
Os conteúdos são organizados de acordo com a suposta capacidade de aprender dos alunos, de modo linear e crescente em nível de complexidade. Apenas uma professora comentou que este Programa é uma referência, não uma obrigação, ressaltando também a necessidade de enfocar aspectos da cultura local.
“Ele dá um norte, pra você trabalhar, (...) é um programa, eu pelo menos, acato como sugestões o conteúdo que tem lá, e incluo outros que acho necessário. (...) porque ele não é regionalizado, dá muita prioridade a um conteúdo mais geral e a gente elabora nosso plano, nós temos que começar a trabalhar a nossa cultura, primeiro. (...) Ele te dá um leque de conteúdos, e que também você não é obrigado, em janeiro trabalhar aquilo, em fevereiro trabalhar aquilo, entendeu? Você vê a receptividade da turma, você vai saber quando fazer aquilo ali; vem como sugestão para o professor. Ele não é uma coisa, ou pelo menos eu nunca vi como sendo uma coisa obrigatória. O que faz a coisa ser obrigatória nas escolas é a própria administração que impõe. E o professor vê se faz. É uma briga que eu to tendo agora aí” (Profa. Alva)
A atenção continuada é considerada um elemento necessário ao aprendizado e esta exigência circula nos espaços da escola.
“Outra coisa, como eu tava te falando, não dá pra desenvolver um bom trabalho, eu pelo menos sou assim, se os alunos não estiverem todos sentados, concentrados, prestando atenção no que eu estou falando. Primeiro eu explico [...] Nessa hora eu não admito aluno conversando. Tem que prestar atenção” (Profa. Sônia).
O ensino participativo, o mencionado contato direto do aluno com a realidade e o estímulo à solução de problemas, assim como a relação com o cotidiano da comunidade não foram observados durante o período em que esta pesquisadora esteve na escola, salvo
experiências pontuais. Citando uma experiência ilustrativa, alunos da segunda série elaboraram um roteiro de entrevista para a comemoração do Dia da Avó. A atividade consistiu em entrevistar avós presentes no dia da festa, e a atividade proporcionou bastante interesse e alegria. Significativa presença de algumas avós que contaram um pouco de suas histórias, sentindo-se emocionadas por falar, na escola, de coisas que nunca haviam conversado com seus netos. Conforme relatou a professora, os alunos produziram as questões e se empenharam na atividade.
“Até mesmo os que não sabem escrever direito, queriam colocar suas perguntas. Pediam para que outro colega escrevesse, eu os deixei à vontade, foram eles mesmos que organizaram as perguntas, o roteiro, e quem faz o quê. Olha, foi muito bom. Uma atividade em que a gente tira tudo...” (Profa.
Ana).
Em outra experiência interessante, observou-se a participação da merendeira na organização de uma atividade junto a um grupo de alunos, para ser apresentada na comemoração do Dia da Família. A atividade, que consistiu em uma coreografia evangélica, envolveu o conjunto merendeira e alunos de diferentes turmas e idades, em todas as etapas: a escolha da música, os passos da coreografia, cada um trazendo sua contribuição.
Pouco se fala dos saberes tradicionais, e quando isto ocorre, são tratados numa dimensão folclórica: a festa do boi, as comidas típicas, o artesanato. A questão ambiental parece estar associada aos problemas urbanos, e mesmo com um entorno de possibilidades, não se enfatizam os saberes seculares que possibilitaram o envolvimento ser humano- ambiente. Também não há direcionamento para as questões rurais e muitos conhecimentos transmitidos estão desconectados da realidade vivenciada pelos alunos.