A manutenção da disciplina é considerada pelos professores como algo necessário à aprendizagem e à organização do trabalho, e procuram mantê-la com rigidez. Durante o período de coleta de dados, constataram-se vários momentos em que esta foi requerida. A disciplina promove organização, obediência e cumprimento das tarefas propostas. E cabe ao professor o “manejo de classe e controle da disciplina”.
“No momento que a professora coloca os pés na sala, a primeira coisa que ela tem que observar é como que tá a harmonia dos teus alunos” (Profa.
Sônia).
A disciplina também envolve o controle e a circulação no espaçotempo. O cotidiano escolar é regido por tempos estritos para os acontecimentos. Os alunos são estimulados a fazer funcionar o corpo conforme este tempo determinado por outros: a hora de estudar, de ir ao banheiro, de merendar.
“Primeiro, eu, eu não sei trabalhar com o aluno em cima de mim. O aluno gritando, falando, não! Procuro concentrá-los todos, é hora de orar, vamos orar. É hora de cantar, é de cantar. E quando eu partir pro conteúdo já tarem relaxado” (Profa. Sônia).
O silêncio é estabelecido como condição para o aprendizado ou, em determinados momentos, como castigo. Os professores solicitam continuamente o silêncio, devendo o aluno falar preferencialmente quando solicitado. Mas não há tanta rigidez: pequenas conversas paralelas são aceitas desde que não alterem o ritmo do trabalho. As falas e silêncios também
são incentivados como parte do processo educativo: é preciso saber falar, saber ouvir o professor, e ouvir o colega. Vale ressaltar que uma sala de aula é atravessada por silêncios, e há momentos em que o silêncio também é utilizado pelos alunos como resposta ao professor.
Os professores indicam que é necessário acompanhar as atividades desenvolvidas pelos alunos, se possível individualmente, incluindo nestas a organização do material escolar. Uma professora comentou:
“Caderno sujo, letra mal feita, tudo isso a gente tem que observar, faz parte da formação do aluno. Questão de exercícios, orais, eu gosto muito; e te digo: pra gente se sentir segura nessa questão de leitura, eu vou de um por um. (...) Depois de trabalhar um conteúdo novo, vou conferir e aproveito para ver como estão fazendo, como estão os cadernos. Então eu coloco no quadro, aí pergunto de um por um, pra você ver de que maneira se avalia”
(Profa. Lúcia).
Os professores consideram a necessidade de castigos e punições, principalmente como estratégia de controle. Isto é enfatizado inclusive nas reuniões com os pais, como orientação para que o aluno possa ser mais aplicado aos estudos. Apenas em alguns casos, a orientação objetiva substituir os castigos físicos mais severos por alguma proibição, como não brincar na rua ou deixar de assistir um programa de TV. Em seus depoimentos, informaram que alguns alunos têm dificuldades de permanecer sentados, circulando pelo espaço da sala de aula, conversando, brigando com os colegas, e solicitando sair para beber água ou ir ao banheiro continuamente. Há dificuldade de manter a imobilidade e a concentração após o término da tarefa, e com alguns alunos, há muita dificuldade em manter sua concentração e envolvimento com as tarefas propostas pelo professor. Outro aspecto mencionado é que a agitação de alguns alunos pode influenciar e pôr em descompasso o grupo como um todo.
Os recursos utilizados para este controle passam necessariamente pela advertência verbal, passando dos pedidos de silêncio às interjeições como: “senta!”, “cala a boca!”, ou ainda, ameaças de punição.
“Eu mandei você ficar aí? (...)Se tem trabalho para fazer por que estão em
pé? (...) por que isto está assim?” (Profa. Sônia).
“É pra copiar. Aquele que passar por aqui e apagar o quadro vai escrever mais dez vezes no caderno” (Profa. Lúcia)
Na realização das atividades escolares enfatizava-se o comportamento adequado ao aprendizado. Em algumas situações, o discurso dos professores encaminhava para a humilhação.
“Menino! Copia do quadro, deixe de moleza, você está aqui para estudar e não para brincar. (...) Acabou nada, copia logo isso, deixe de moleza. (...) Olha, eu morria de vergonha! Na primeira série? Deus me livre! Isso se aprende na alfabetização” (Prof. Jacó).
“Como é que pode vir para a escola e nunca trazer o material? Cada dia é uma desculpa, ou não tem lápis, ou não tem caderno, ou não vem (...) Do que adianta vir à escola para não estudar. Assim está estragando a vida”
(Prof. Jacó).
“Esqueceu nada, ela é uma abestada mesmo, por que não saltou antes?”
(Profa. Diva).
As repreensões não aconteciam somente nos momentos mais tumultuosos; eram constantemente utilizadas para garantir a obediência e atenção. E eram públicas. Aos alunos mais “resistentes”, práticas mais incisivas. Observaram-se momentos em que um professor, no esforço em tentar conter os alunos sentados às carteiras e em silêncio, utilizou termos mais contundentes.
“Eu sei a peça que tu é. Não estuda, não faz nada. Acaba virando o que não presta”.
“Fica aqui! Bora, bora! (segurando o menino pelos braços e colocando-o
sentado). Já falei dez vezes pra você! Não sabe obedecer não, menino?”.
Os próprios alunos, com o tempo, também assumem certas práticas de vigilância e controle como parte de seu fazer, denunciando o mau comportamento do colega, sugerindo algum tipo de punição ou mesmo incumbindo-se de punir ou ameaçar o colega, quando se trata de um irmão mais novo ou primo.
Segundo relato de um professor, a indisciplina está relacionada em parte ao estilo de vida dos alunos, que circulam em espaços abertos, sem controle, e por outro lado, à falta de limites por parte dos pais.
“Crianças que não tem limite, então como é que você pode ter autoridade se eles tão acostumados já dentro de casa, a, os pais permissivos, pode fazer tudo, né, e na sala de aula eles querem fazer da mesma forma, e se você não imprime uma autoridade, quer seja pela voz ou, certo, porque se for falar normal não atende” (Prof. Jacó).
A presença de um adulto junto ao grupo de alunos é percebida como necessária à manutenção do controle, como também ao aprendizado disciplinar. Esta necessidade de insistir e educar pela disciplina é reforçada em vários momentos, tanto pelos professores em sala de aula, como pela merendeira e pelos auxiliares de serviços gerais. Observaram-se situações em que há alteração da dinâmica na ausência do professor, com uma tendência, por parte dos alunos, de abandonar a atividade que estão fazendo e passar a atividades mais agitadas, o que parece soar como uma necessidade de descompressão. O retorno do professor nessas situações é acompanhado de frases como “será que não dá pra deixar vocês sozinhos nem um minuto?” e de
sermões objetivando “educar o comportamento”. A disciplina ordena o grupo, os corpos e o conhecimento, possibilitando o trabalho pedagógico e o consequente preparo para a vida.
“Se você disser ‘fica assim’, ‘não faça isso, menina’, ’ eu não já falei pra você...’, não adianta, porque eu só via ter alguma..., por exemplo, alguns
(alunos) que (outros professores) diziam (que) não faziam nada, quando,
quando me vi no negócio eu disse: não saia! Faça! Sente aí! Não sei o quê, o tempo todo cuidando, então, evoluía alguma coisa, ali. Porque tava ali, não tava, pela insistência. Mas só que você acaba não sendo bem visto, se torna anti-social, mas tem hora que precisa né?” (Prof. Jacó).
“Então, eu te digo, esse trabalho, que é pequeno, mas chega, é o que a gente pode fazer também, e é muito lento, muito devagar. Tem que ta todo dia lembrando, avisando, corrigindo, esses meninos não são educados, vivem soltos, essa vida de liberdade, que é diferente da gente que vive na cidade, e não pode mais correr pela rua, veja se você vai deixar seu filho nas ruas hoje em dia. Mas aqui eles podem, eles vivem por aí correndo, vivem soltos”
(Profa. Lúcia).