A comunicação, ensinam Luhmann e De Georgi, é um “evento extremamente improvável226”. Há, assim, uma improbabilidade de que ocorra uma comunicação. Esta é um acontecimento que não pode se efetivar como evento isolado. Ela se torna provável por si
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Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 77.
225 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios
Superiores de Occidente, p. 79.
226 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios
mesma e encontra motivo para verificar-se somente em suas referências recursivas, isto é, nas operações comunicativas ante as quais reage e que ele mesmo estimula.
A comunicação, como referido, é uma síntese que resulta de três seleções: informação, ato de comunicação e compreensão. Cada um destes componentes é, em si mesmo, um evento contingente. A informação é uma diferença que transforma o estado de um sistema, isto é, que produz uma diferença227. Se cada componente da comunicação, considerado em si mesmo, é improvável, com maior razão é a síntese de todos eles228.
Uma precisão conceitual mais atenta permite ver rapidamente que as vantagens derivadas da extensão social das capacidades cognoscitivas dos seres vivos não podem absolutamente ser obtidas pelo fato de eles se tornarem dependentes uns dos outros. Para Luhmann e De Georgi, o raciocínio, tão apreciado pela tradição, sobre as relações entre os seres vivos disfarça de fato essa circunstância. Os seres vivos vivem como indivíduos, como sistemas determinados pela estrutura.
Desse ponto de vista, trata-se somente de um caso condicionado por uma constelação de eventos se um ser vivo, ainda que fazendo o que faz, consiga ser útil a algum outro. Fazer- se dependente, com efeito, significaria somente multiplicar reciprocamente as possibilidades. Então, se é possível obter algumas vantagens, isso se deve ao fato de que os seres vivos se tornam dependentes de um sistema de ordem superior com cujas condições podem eleger os contatos recíprocos e, precisamente por isto, portanto, não são minimamente dependentes uns dos outros. Para os homens, este sistema de ordem superior, que por sua vez “não vive”, é o sistema de comunicação chamado sociedade. Noutras palavras, deve existir, no plano do sistema emergente um modo próprio de operar (aqui a comunicação), uma própria autopoiesis, uma possibilidade autogarantida de continuidade das operações229.
Os sistemas de comunicação se constituem a si mesmos mediante uma distinção entre meio e forma. Por “meios de comunicação” deve-se entender sempre o “uso operacional” da
227
Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 81.
228 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios
Superiores de Occidente, p. 82.
229 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios
diferença entre “substrato medial” e a forma. A comunicação somente é possível – e esta é a resposta de Luhmann e De Georgi ao problema da improbabilidade – como “processualização” dessa diferença. A distinção entre substrato medial e forma decompõe o problema geral da complexidade estruturada mediante a ulterior distinção entre elementos acoplados em modo estrito e entre elementos acoplados em modo amplo. “Esta distinción”, diz Luhmann,
parte del presupuesto de que cada elemento no puede acoplarse con cada uno de los otros. Sin embargo, todavía antes de tratar el problema de la selección, lo formula mediante una distinción que permite representar las formas (…) como selección en el ámbito de un medio230.
A distinção entre meio e forma traduz a improbabilidade da continuidade operativa do sistema em uma diferença que pode ser tratada dentro do sistema, e com isso a transforma como uma condição de base para a autopoiesis do sistema. O sistema opera ligando o próprio meio em formas próprias, sem consumi-lo (como a luz não se consome pelo fato de permitir que se vejam as coisas). As formas, que às vezes se atualizam (coisas vistas, palavras ditas), acoplam elementos do sistema para a autorização momentânea, mas não o destroem. Na utilização operativa, a diferença entre meio e forma subsiste e se reproduz através do uso231.
A distinção entre meio e forma é uma forma. A distinção implica-se a si mesma e torna, assim, autológica toda teoria que a utilize. Às vezes se pode estabelecer qual é a distinção a que recorre uma operação e, portanto, onde está seu ponto cego, que ela mesma não pode observar. Isso é feito mediante a distinção entre acoplamento amplo e acoplamento estrito dos elementos. Um meio é constituído por elementos acoplados em um modo amplo; uma forma, ao contrário, põe em conexão os mesmos elementos em um acoplamento estrito. Acoplamento é um conceito que implica tempo; assim, pode-se dizer acoplar e desacoplar, quando se tratar de uma integração momentânea que dá forma. Porém, pode-se decompor-se de novo. O meio se liga, mas depois é de novo deixado em liberdade. Sem meio, não existe nenhuma forma, e sem forma não existe nenhum meio. Essa diferença pode reproduzir-se
230 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios
Superiores de Occidente, p. 84-85.
231 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios
continuamente no tempo. A diferença entre acoplamento amplo e acoplamento estrito – seja qual seja a configuração material que assuma e qualquer que seja a base da percepção – torna possível uma processualização temporal das operações nos sistemas estabilizados de modo dinâmico e torna possível a formulação de sistemas autopoiéticos deste tipo232.
O meio circula no sistema. Tem sua unidade no movimento. A circulação se efetua também porque a forma é mais forte que o substrato medial. De distinta maneira do que postula a teoria do agir comunicativo de Habermas, Luhmann evita incluir pretensões de racionalidade no conceito de comunicação e sustenta somente que existe uma conexão entre força de afirmação e fugacidade temporal da forma.
No sistema não existe um substrato medial que possa acoplar-se operativamente. Existem somente as formas. Com os elementos que não têm forma, acoplados em um modo amplo, o sistema não pode fazer nada. E isso é válido também para os meios da percepção. Não se vê a luz, senão as coisas, e se se vê a luz, se vê desde a forma das coisas. Não se ouve o ar, senão os ruídos, e o ar mesmo deve fazer ruído para ser ouvido. O mesmo vale para os meios de comunicação. Agora, se centrarmos a atenção na linguagem, não as palavras, mas só as proposições que formam um sentido podem ser processualizado na comunicação233.
Na distinção entre acoplamento amplo e acoplamento estrito, além da assimetria temporal, existe uma assimetria material. Essa é uma das condições da autopoiese do sistema de comunicação chamado sociedade234.