• No results found

A teoria da sociedade é a teoria do sistema social complexo, que inclui em si os demais sistemas sociais. A sociedade será sempre compreendida como um sistema; e a forma do sistema, como dito, não é outra coisa que a distinção entre sistema e ambiente163. Há que se distinguir três níveis na análise da sociedade: a) teoria geral de sistemas, e nela a teoria geral dos sistemas autopoiéticos; b) a teoria de sistemas sociais; c) a teoria do sistema da sociedade como caso particular da teoria de sistemas sociais.

No plano da teoria geral dos sistemas autopoiéticos (autorreferenciais, operativamente fechados), a teoria da sociedade chega a verdadeiras decisões conceituais e a resultados de investigações empíricas que valem também para outros sistemas deste tipo (v.g., o cérebro). Aqui é possível um intercâmbio interdisciplinar de experiências e de estímulos de grande transcendência164.

No plano da teoria de sistemas sociais interessa a peculiaridade dos sistemas autopoiéticos que podem ser captados como sociais. Neste plano deve-se determinar a operação específica cujo processo autopoiético leva à formação dos sistemas sociais nos ambientes correspondentes. A teoria de sistemas sociais compreende, assim, todas as asserções que valem para todos os sistemas sociais. Aqui a sociedade aparece como um sistema entre tantos outros. Pode ser confrontada com os sistemas de organização e com os sistemas da interação entre presentes, mas também com outros tipos de sistemas sociais165.

Somente no terceiro nível – teoria do sistema da sociedade como caso particular da teoria dos sistemas sociais – é que se manifesta a especificidade do sistema da sociedade. Aqui, segundo Luhmann e De Georgi, deve-se articular o que significa o caráter complexo que se remonta até as proposições de introdução da “Política”, de Aristóteles. Na base está

163

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 43.

164 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 43.

165 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

claramente o paradoxo que afirma que um sistema social entre outros muitos inclui em si, ao mesmo tempo, a todos os outros166.

A distinção dos planos de análise a respeito do objeto sociedade é uma forma de desenvolvimento do paradoxo de uma unidade que se inclui a si mesma e tem a função específica de promover o intercâmbio de ideias entre as disciplinas e de acrescentar o potencial de estímulo recíproco167. A teoria geral dos sistemas autopoiéticos exige que se indique com precisão a operação que realiza a autopoiese do sistema e que deste modo delimita o sistema com respeito ao seu ambiente.

No caso dos sistemas sociais, isso sucede mediante a comunicação. A comunicação tem todas as propriedades necessárias para a autopoiese do sistema: é uma operação genuinamente social porque pressupõe o concurso de um grande número de sistemas de consciência, mas precisamente por isso, como unidade, não pode ser imputada a nenhuma consciência solitária. É social, porque de nenhum modo pode ser produzida uma consciência comum coletiva, isto é, não se pode chegar ao consenso no sentido de um acordo completo. E, no entanto, a comunicação funciona. É autopoiética na medida em que pode ser produzida somente em um contexto recursivo com outras comunicações e, portanto, somente em uma trama a cuja reprodução concorre cada uma das comunicações168.

Agrega-se a isso o que faz distinguir-se a comunicação dos processos biológicos de qualquer tipo. A comunicação é uma operação provida da capacidade de auto-observar-se. Cada comunicação deve comunicar ao mesmo tempo em que ela mesma é uma comunicação, e deve fazer ênfase em quem se comunicou e que tem comunicado, para que a comunicação que se cruze possa ser determinada e possa continuar a autopoiese. Por consequência, como operação, a comunicação não produz somente uma diferença. Sem dúvida que o faz, mas, para observar que isso acontece, também usa uma distinção específica: a que existe entre o ato de comunicar e a informação169.

166 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 44.

167

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 44-45.

168 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 45.

169 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Os sistemas sociais podem construir-se somente como sistemas que se observam a si mesmos. Estas reflexões forçam a renunciar a uma fundamentação da sociologia na teoria da ação (e, portanto, individualista)170. Como toda auto-observação está condicionada por um ponto cego, ela é possível, então, somente porque não pode ver o que está vendo. Assim é que a comunicação serve, ela mesma, operativamente como unidade da diferença de informação, ato de comunicar e compreensão. Mas para a auto-observação, a comunicação usa precisamente a distinção entre informação, ato de comunicar e compreensão para poder estabelecer se a comunicação ulterior deve reagir ante as dúvidas sobre a informação, ante supostas intenções do ato de comunicar ou ante a dificuldade de compreensão171.

Nenhuma auto-observação está em condições de compreender a plena realidade do sistema que ela realiza. Pode somente fazer algo em lugar disto: eleger soluções substitutivas. E isso ocorre mediante a eleição das distinções com as quais o sistema efetua auto- observações. Se é suficientemente complexo, um sistema pode passar da observação de suas operações para a observação de seu observar e por último à observação do sistema mesmo. Neste caso, o sistema deve poder fundamentar a distinção sistema-ambiente, isto é, deve poder distinguir entre autorreferência e heterorreferência172.

A sociedade, como sistema social complexo, não conhece sistemas sociais além de suas fronteiras. Por outro lado, não se observa de fora. Os sistemas psíquicos podem, indubitavelmente, observar a sociedade de fora. Mas, socialmente, se não há comunicação não há efeito, isto é, a observação não é efetuada no sistema social. A sociedade constitui o caso extremo da auto-observação policontextual, o caso extremo de um sistema que está constrito à auto-observação, sem atuar para isto como um objeto, sobre o que possa existir somente uma única opinião correta, de modo que todos os desvios possam ser tratados como erro173.

As autodescrições não se produzem de um modo causal. A plausibilidade das representações tem condições estruturais e, na evolução da semântica, há tendências históricas

170 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 46.

171

Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios Superiores de Occidente, p. 46.

172 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

Superiores de Occidente, p. 46.

173 Luhmann, N.; De Georgi, R. (1993). Teoría de la sociedad. Guadalajara: Instituto Tecnológico y de Estudios

que delimitam fortemente o espaço das variações. Dessa maneira, na teoria sociológica, pode- se reconhecer conexões com base na correlação que existe entre as estruturas da sociedade e as semânticas. Mas, ao mesmo tempo, identifica-se que essas teorias são construções próprias e não podem intercambiar-se com as representações do sistema da sociedade que circulam em uma época determinada174.

Para Luhmann, se descrevermos a sociedade como um sistema, então se compreende, da teoria geral dos sistemas autopoiéticos, que se deve tratar de um sistema operacionalmente fechado. Isto vale ainda quando estas operações são observações ou operações cuja autopoiese peça uma auto-observação. Falar em sistema operacionalmente fechado, por sua vez, significa falar em “clausura operacional”, o que será visto adiante.

Importante, aqui, por ora, é deixar claro que, se o sistema consegue se autorreproduzir com certa independência e fechar-se operacionalmente, ele é autopoiético. Sistemas autopoiéticos, portanto, são os que conseguem partir da criação de um espaço próprio de sentido e se autorreproduzir com base em um código e em programação próprios175.