1. Innledning
1.4 Historiografisk ramme
No final da década de 70, Olweus, da Universidade de Bergen na Noruega, iniciou seus primeiros estudos sobre a violência entre escolares, prática conhecida como bullying. O tema suscitou o seu interesse em razão dos efeitos dessa prática, sob a forma de danos psicológicos irreparáveis ao psiquismo, à personalidade e à autoestima de suas vítimas. As investigações desse pesquisador se intensificaram após o suicídio de três alunos naquele país, no ano de 1983.
Em 1989, Olweus pesquisou 84.000 estudantes entre os vários períodos de ensino, 300 professores e 1.000 pais de alunos com o intuito de verificar as características e a extensão do fenômeno bullying. Nessa pesquisa, também foram avaliadas as intervenções realizadas pelos professores e pais para coibir e tratar os episódios de bullying. Para coleta de dados, foi utilizado um questionário. A pesquisa constatou que um em cada sete estudantes estava de alguma forma envolvido em casos de bullying. Como resultado dessa pesquisa, Olweus publicou, em 1993, o livro Bullying at School, no qual formulou políticas de intervenção e elaborou um diagnóstico de sinais e sintomas que caracterizariam a conduta de agressores e de vítimas. Com o apoio do governo da Noruega, Olweus implantou um programa de combate ao bullying nas escolas daquele país. O programa reduziu em 50% as ocorrências de agressões entre estudantes (NOGUEIRA, 2007).
Em Portugal, Freire, Veiga Simão e Ferreira (2006) realizaram a pesquisa “Violência entre Pares”, com uma amostra de 242 alunos de uma escola do 3º ciclo
do ensino básico da cidade de Lisboa. Os resultados indicaram que existe independência entre ser agressor de bullying e o ano de escolaridade mas que, pelo contrário, os casos de agressão sistemática (quer de alunos-vítimas, quer de alunos- agressores) variam com o gênero.
No Brasil, a preocupação com a violência escolar entre pares é recente e também surgiu a partir da ocorrência de episódios trágicos em algumas escolas. Esses eventos provocaram o interesse dos especialistas e do público em geral no tocante à questão do bullying nas escolas. Zoega e Rosim (2009) destacam dois episódios ocorridos em escolas brasileiras: o primeiro em 2003, em uma escola estadual de Itaiuva, cidade do interior do estado de São Paulo, na qual um estudante de 12 anos de idade atirou em 50 pessoas que estavam no interior da escola e, logo em seguida, suicidou-se. E o outro, em 2004, na cidade de Remanso, no estado da Bahia, um adolescente de 17 anos matou dois alunos e feriu outros três. O agressor justificou seus atos alegando sofrer constantes humilhações na escola.
Dentre os primeiros estudos sobre o bullying no Brasil, Nogueira (2007) destaca as pesquisas desenvolvidas, em Santa Maria, por Marta Canfield e seus colaboradores (1997) em quatro escolas públicas, e as pesquisas de Israel Figueira e Carlos Neto entre 2000 e 2001, em duas escolas municipais do Rio de Janeiro. No período compreendido entre os anos de 2000 a 2003, Fante desenvolveu quatro estudos sobre a violência entre pares nas escolas municipais do interior paulista. Como resultado desses estudos, a autora publicou, em 2005, o livro “Fenômeno
Bullying: Como Prevenir a Violência nas Escolas e Educar para a Paz”. Nesse
trabalho, Fante constatou que “o bullying acontece em 100% das escolas brasileiras”. Independentemente do turno escolar, das áreas de localização, do tamanho das escolas ou das cidades, de serem as séries iniciais ou finais, de ser a escola pública ou privada, o local de maior incidência em todos os estudos era a sala de aula (FANTE, 2005, p. 61).
Em 2003, a ABRAPIA realizou pesquisa envolvendo 5.875 estudantes de 5ª a 8ª séries, de 11 escolas localizadas no município do Rio de Janeiro. O objetivo do estudo foi investigar as características desses atos e sistematizar estratégias de intervenção capazes de prevenir a sua ocorrência. A pesquisa revelou que 40,5% dos alunos entrevistados admitiram ter estado diretamente envolvidos em atos de bullying naquele ano. Foram identificados como alvos 16% dos alunos, 10% como alvos/autores e 12% como autores de bullying (ABRAPIA, 2010).
Como se pode perceber, o interesse pela violência escolar é crescente no Brasil e vários estudos foram realizados nos últimos anos. Cabe destacar que identificamos sete pesquisas sobre o fenômeno bullying no ambiente escolar, realizadas no período de 2006 a 2009, cujos resultados foram retratados em dissertações de mestrado e teses de doutorado. As mesmas serão descritas brevemente a seguir.
Pinheiro (2006) investigou a relação entre bullying e a violência doméstica direta e indireta, tendo analisado a cronicidade da violência doméstica nos subgrupos de alunos envolvidos em casos de bullying, e ainda as diferenças entre os gêneros no que se refere a essa possível associação do bullying e a violência doméstica. A pesquisa revelou que 49% dos alunos relataram envolvimento com bullying nos três meses anteriores à coleta de dados: 3% dos entrevistados se identificaram como autores, 25,5% como vítimas e 20,5% como vítimas-agressoras. Os meninos tiveram mais envolvimentos em bullying como alvo/autores do que as meninas. Mais de 50% dos participantes testemunhou pelo menos um episódio de violência psicológica entre pais e 12% dos estudantes informaram terem assistido, também, a violência física interparental, tendo relatado que pais e mães se agrediam em igual proporção.
Silva (2006) pesquisou a violência manifestada por meio da prática do bullying. Para isso, combinou dados quantitativos com qualitativos com o objetivo entender como esse tipo de violência é percebida, entendida e representada pelos alunos/as no ambiente escolar, tanto na condição de vítimas, espectadores ou agressores. O resultado evidenciou que as escolas pesquisadas apresentaram casos de violências relacionadas ao bullying. No tocante a quem praticou e sofreu atos de bullying, os percentuais indicaram equilíbrio entre alunos e alunas.
Munarin (2007) abordou o fenômeno da violência implícito nas relações entre os estudantes, como um dos fatores que interferem significativamente no desenvolvimento social, emocional e intelectual de crianças e jovens. O autor constatou que gestores e professores reconhecem o fenômeno “bulismo” no contexto escolar e têm utilizado práticas de intervenção para enfrentar esse problema de violência. Os professores, por sua vez, manifestaram dificuldade em lidar com situações de bullying mais complexas.
Em sua tese de doutorado, Nogueira (2007) analisou a violência nas escolas, no caso o bullying, sob a ótica de adolescentes de classe média e de segmentos de
elite, em duas escolas, sendo uma pública e outra particular, localizadas na cidade de São Paulo. A autora concluiu que as duas escolas apresentaram semelhanças e diferenças em vários aspectos, porém, a prática do bullying revelou-se como ponto decisivo de convergência.
Guimarães (2008) investigou a percepção do orientador educacional frente ao comportamento de bullying em escolas particulares do Distrito Federal, com o objetivo de identificar as manifestações desse fenômeno e quais as práticas mais oportunas e eficazes para o seu enfrentamento por parte do profissional de orientação educacional. Os resultados indicaram que, embora esses profissionais tenham admitido que a violência seja um fenômeno social que causa uma grande preocupação, o bullying ainda se apresenta como dúvida e por outro lado um desafio para esses profissionais, por se tratar de um tipo de violência dentro da escola.
Já Oliboni (2008) realizou pesquisa com o objetivo de conhecer a percepção e a atuação dos professores frente aos casos de bullying em suas atividades de aula. Os dados da pesquisa revelaram que o não reconhecimento do bullying pelos professores, aliado às práticas educativas tradicionais adotadas, contribuem para a incidência e a manutenção do bullying em atividades de aula.
Por sua vez, Jorge (2009) procurou identificar a concepção que os educadores têm sobre o bullying, se conheciam o fenômeno e por quais meios tomaram conhecimento do problema, indagando aos educadores se estes intervêm quando identificam casos de bullying e como se dá tal intervenção. Os resultados evidenciaram que 83% dos educadores entrevistados já ouviram ao menos falar do bullying, sendo que as informações sobre o problema vêm principalmente dos meios de comunicação. Os educadores afirmaram que os apelidos, xingamentos e agressões físicas são as manifestações de violência mais frequentes entre os alunos.
Em 2009, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) realizou a Pesquisa Nacional da Saúde do Escolar com alunos das redes privada e pública de 6.780 instituições de ensino das 27 capitais da Federação, sendo que todos frequentavam o 9º ano do ensino fundamental. O objetivo dessa pesquisa foi coletar informações sobre as condições de vida e saúde do estudante, tendo investigado o
bullying por meio da seguinte pergunta: “Nos últimos 30 dias, com que freqüência
algum dos seus colegas de escola te esculachou, zoou, mangou, intimidou ou caçoou tanto que você ficou magoado/incomodado/aborrecido?”. Os resultados
mostraram que quase um terço dos alunos (30,8%) afirmou ter sofrido bullying nos 30 dias anteriores à pesquisa. O percentual dos que raramente ou poucas vezes foram vítimas desse tipo de violência foi de 25,4%. A proporção dos que disseram ter sofrido bullying várias vezes ou sempre foi de 5,4%. A pesquisa constatou, ainda, que o bullying atinge mais os estudantes do sexo masculino (32,6%) do que os do sexo feminino (28,3%). A ocorrência de bullying foi verificada em maior proporção entre os alunos de escolas particulares (35,9%) do que entre os de escolas públicas (29,5%). Também, a pesquisa identificou que o Distrito Federal encontrava-se na liderança de ocorrências de bullying no país, e que Brasília só perderia para Curitiba em número de casos (IBGE, 2009).
A entidade Plan Brasil também realizou levantamento visando identificar situações de violência entre pares e de bullying em escolas brasileiras. O objetivo do estudo foi alertar e orientar não só estudantes e docentes, mas toda a sociedade sobre o fenômeno bullying, a fim de contribuir com a redução da violência no ambiente escolar. Como alvos dessa pesquisa foram selecionadas 5 escolas públicas municipais e cinco particulares, localizadas em capitais e cidades do interior de cada uma das 5 regiões geográficas do País. Nessa pesquisa, 5.168 alunos responderam ao questionário. Também foram realizados 14 grupos focais com 55 alunos, 14 pais/responsáveis e 64 técnicos, professores ou gestores de escolas localizadas nas capitais pesquisadas. Os resultados revelaram que 70% dos estudantes responderam ter presenciado cenas de agressões entre colegas em período recente, enquanto 30% declararam ter vivenciado ao menos uma situação violenta no mesmo período. A pesquisa constatou ainda maior número de vitimas do sexo masculino: 34,5% dos meninos pesquisados foram vítimas de maus tratos ao menos uma vez no ano em que os dados foram coletados (2009), sendo 12,5% vitimas de bullying, caracterizado por agressões com frequência superior a três vezes. Já as meninas, afirmaram que sofreram maus tratos ao menos uma vez naquele ano (23,9% da amostra de meninas) ou tornaram-se vítimas de bullying (7,6% dessa mesma amostra), manifestando sentimentos de tristeza, mágoa e aborrecimento (PLAN BRASIL, 2010).
A referida pesquisa chamou a atenção também para o bullying que acontece no ambiente virtual, denominado de cyberbullying. Dados da pesquisa revelaram que nos últimos anos esse tipo de violência tem crescido bastante entre os estudantes. Em relação ao cyberbullying, 16,8% dos respondentes foram descritos
como vítimas, 17,7% foram praticantes e apenas 3,5% foram vítimas e praticantes ao mesmo tempo. Independentemente da idade das vítimas, o envio de e-mails maldosos foi o tipo de agressão mais frequente, sendo praticado com maior frequência pelos alunos do sexo masculino (PLAN BRASIL, 2010).
No contexto das pesquisas realizadas no Brasil sobre o fenômeno bullying, observa-se que ainda são praticamente inexistentes estudos e dados que relacionam a prática do bullying à superdotação. A esse respeito, Fante (2005, p. 64) salienta que “as crianças portadoras de deficiência física e de necessidades educacionais especiais correm maiores riscos de se tornarem vítimas de bullying, riscos estes duas a três vezes maiores do que as crianças consideradas normais”.
Chagas (2008), ao descrever as características individuais e familiares de adolescentes talentosos a partir da percepção de adolescentes, seus familiares e professores, constatou que aproximadamente 20% dos adolescentes com talento artístico e acadêmico sofreram algum tipo de agressão verbal e física, sendo que 100% dos adolescentes com duplo talento informaram terem sido agredidos fisicamente. A autora salienta que nesses episódios o agressor utilizou força física, ironia, apelidos pejorativos escárnio, sempre no sentido de desqualificar, fragilizar ou intimidar a pessoa-alvo.
Nos Estados Unidos, Peterson e Ray (2006) realizaram pesquisa sobre o bullying utilizando uma amostra de 432 alunos talentosos da 8ª série de 16 distritos escolares de 11 estados americanos. O objetivo do estudo foi explorar o fenômeno bullying entre crianças e pré-adolescentes superdotados, com especial atenção para as situações vivenciadas pelas vítimas e os agressores, buscando documentar a prevalência e o impacto que o bullying tem sobre alunos superdotados. Foi utilizado um questionário e os alunos superdotados foram perguntados se tinham experimentado agressões recentes, tais como xingamentos, empurrões, socos e violência física de outros. Constatou-se que 67% dos alunos superdotados informaram ter sido alvo do bullying, sendo xingamentos e provocações as principais agressões. A maior incidência do bullying ocorreu entre os alunos da 6ª série, uma vez que 46% desses alunos (54% dos meninos e 38% das meninas) sofreram agressões caracterizadoras de bullying. Quanto ao impacto emocional dessas agressões sobre os alunos superdotados, a 5ª série foi o ano de pico com 13% dos alunos manifestando sintomas emocionais relacionados ao bullying. Outro dado revelado foi que 28% dos alunos superdotados pesquisados (33% dos meninos e
22% das meninas) relataram já ter praticado atos de agressão ou intimidação em relação a outrem, em algum momento durante os primeiros nove anos de escolaridade.