• No results found

Helse-, sosial og barnevern

In document 2012 Gjøvikregionen Kommunebilde (sider 130-134)

Skogsveger ferdiggodkjent Oppland 2002 - 2011

5 Tilsyn/kontroll og klagebehandling

5.3 Helse-, sosial og barnevern

O comício, enquanto ação de campanha eleitoral, é entendido como um evento. Ou seja, é uma ocorrência digna de registo, num determinado espaço ou tempo, dentro de circunstâncias especiais (Getz, 2007). Como normalmente decorre de forma planeada, tem um programa antecipado e um esforço comunicativo para informar da sua ocorrência. No entanto, dentro do âmbito deste trabalho, as questões relativas à organização e logística de um comício fogem aos objetivos propostos. O que se pretende é compreender o comício enquanto objeto de comunicação no âmbito de uma campanha eleitoral, não de que forma este se enquadra numa teoria de gestão de eventos.

Entende-se aqui o comício no sentido social de evento. Como uma construção social, ligada a um determinado local e com uma temporalidade própria, expressiva de uma determinada comunidade e que por vezes atinge o estatuto de momento épico (Getz, 2007). Neste sentido, enquanto instrumento de Relações Públicas na Política, o comício enquadra-se na categoria de Eventos Especiais, usados para descrever rituais específicos, apresentações ou celebrações que são planeadas de forma consciente e que pretendem criar uma marca especial numa determinada ocasião ou atingir um determinado objetivo social ou organizacional. Caracterizados pelo seu espírito festivo, unicidade, autenticidade, tradição e simbolismo (Bowdin, Allen, O'Toole, Harris, & McDonnell, 2010).

Enquanto momento de ritos e rituais, o comício supõe padrões de comportamento próprios e que expressam a identidade da organização partidária que o organiza. É um cerimonial que se insere num período deliberativo de campanha. À semelhança de outros eventos deste tipo, as questões mitológicas e a relação entre o sagrado e o profano estão ligadas à ideia de rito e de ritual (Getz, 2007). Neste sentido, este capítulo desenvolve um conjunto de questões relevantes para compreender o comício enquanto Evento Especial, que revela a relação da Política com o Sagrado, concluindo com a caracterização do fenómeno em questão.

4.1 – A POLÍTICA E O SAGRADO

Com a queda da legitimidade tradicional e a ascensão da forma de legitimação moderna, o Homem autonomizou-se, vendo a sua vontade como uma forma de afirmar a sua presença no mundo. Com a separação da paixão do interesse, criou um mundo dual, onde aquilo que é sagrado se opõe ao que é

profano. A Política é uma atividade que implementa essa vivência dual, que alarga a vida à vontade do Homem:

“A política é a grande via para a criação e o alargamento de um espaço profano de liberdade e autonomia dos homens. À medida em que o sagrado se torna menos mágico, menos imanente de toda a realidade, abre-se a possibilidade de a organização do viver coletivo passar a depender da vontade dos homens. À medida em que a religião se interioriza, deixando de ser ritual mágico e mecânico para se tornar relação livre e pessoal com um deus transcendente, começa a haver lugar para a iniciativa humana no relacionamento social. Nasce a política.” (Cabral, 1992, p. 230)

Esta nasce porque o que é sagrado deixa de resolver o problema da autoridade legítima que dita a obediência, sendo essa disputa aberta a uma forma de luta pelo poder. Esta é uma expressão da autonomia do Homem. É fruto do reconhecimento dos direitos do Homem na Revolução Francesa, que afirma a dignidade da existência humana, e de um domínio das técnicas de produção, que nasceu com a industrialização e o conhecimento das leis da Física e da Química (Pintasilgo, 1992).

No entanto, esta autonomia levanta o problema de como um indivíduo pode mandar noutro, sendo recorrente na política a utilização do sagrado como forma de manter a distância e a inacessibilidade, como se de uma superioridade se tratasse. Apesar da secularização do mundo, a política continua a utilizar símbolos e rituais que revelam uma herança das formas sagradas de poder e que não podem ser entendidas como uma mera táctica política, mas como um fenómeno de relação com o poder, que é sentido de forma profunda pelas pessoas e que tende a sacralizar a política (Cabral, 1992), usando elementos do sagrado, sem que haja alusão a uma presença divina (Pintasilgo, 1992).

Esta sacralização da política, que dá origem ao que podemos apelidar de Religiões Seculares, reflete- se a partir de símbolos – a partir de imagens, música ou palavras – que conferem unidade ao corpo político e permitem que a comunidade funcione como um todo social que atenua as diferenças entre os seus membros e lhes confere um sentido de pertença entre iguais, numa realidade abstrata e apenas passível de existir mediante uma simbologia coletiva. A Ideologia, segundo Cabral (1992), é o exemplo máximo do recurso ao Sagrado na política, representando o poder absoluto e a chave dos enigmas da história.

A utilização de formas Sagradas de legitimação do poder, através de símbolos, num pano de fundo do inconsciente individual e coletivo, constituem uma forma de manifestação da existência da unidade do todo social, que encerra na sedução e no apelo afetivo, dentro de uma dimensão teatral que é inerente à própria atividade política (Cabral, 1992). Esta noção de teatro deve ser entendida, não como a forma de espetáculo alienante contida nos escritos do sociólogo francês Guy Debord (1972/2012), que lhe confere um sentido negativo, mas como uma forma de expressão na qual a unidade e sentido de comunidade emergem através das representações que permitem que os indivíduos estejam em contato com aquilo que é fundador da sua existência enquanto grupo: os valores que criam um laço comum num determinado espaço e tempo. Um conjunto de elementos fundadores da identidade de uma comunidade, que desempenham o papel de guardiões dos laços de representação, através dos ritos litúrgicos que se encontram na política:

“A simbólica ritual do político faz alusão assim a um saber referente a uma história, um lugar geográfico, a acontecimentos e pessoas representativas de uma comunidade. Mas se ela estoca informações, faz também referência aos valores decisivos dessa comunidade, de que o poder aparece como guardião, após tê-los ordenado no seio de uma estrutura ideológica. E através dessa simbólica se realiza um laço entre o indivíduo, o grupo que adere aos mesmos valores e as autoridades que representam o povo. Esse laço está codificado numa estrutura dramática onde os atores estão liturgicamente definidos, sendo o homem na ação ritual o símbolo de seu papel e não o irrelevante da vida quotidiana.” (Rivière, 1988/1989, p.243)

É neste sentido que a política reconstrói o espaço sacral na sociedade secular, trazendo aos indivíduos o sentido messiânico de um futuro prometido, que podemos encontrar em diversos pensamentos políticos, como por exemplo na promessa laica do socialismo marxista:

‘Mas de entre todos os socialismos [...] é no que revestindo-se, na filosofia de Marx, do materialismo dialético e histórico do comunismo científico, que encontramos elementos milenaristas e messiânicos-escatológicos em que o Além é substituído pelo aquém paradisíaco de uma sociedade sem classes de homens livres e iguais.’ (Correia, 1992, p. 236)

É com o esvaziamento do divino, que fazia parte do Ser, que o Sagrado surge na esfera política, como que uma nostalgia fruto de um recalcamento e de uma vontade de participar nos valores fundadores da sociedade (Correia, 1992).

4.1.1–OSAGRADO

O sagrado refere-se a elementos não racionais provenientes de um sentimento puro, mas também de elementos racionais que o exprimem através de noções claras acessíveis ao pensamento e à análise. É uma categoria de interpretação e de avaliação que compreende uma ideia de totalidade, uma noção de bem absoluto. Esta categoria é a do numinoso, um estado de alma proveniente da análise de um objeto capaz de provocar a consciência de que nos encontramos perante algo dotado de capacidades especiais, que não compreendemos por completo e do qual somos dependentes. (Otto, 1917/1992) O numinoso provoca no homem o sentimento do estado de criatura, um sentimento em este se sente reduzido e se anula perante o que o supera. Este elemento, o do numinoso, caracteriza-se pela ideia de Mysterium Tremendum, a de um mistério que causa arrepios.

Esta noção supõe um conjunto de elementos, primeiro a do tremendum, que supõe que nem tudo é compreendido ou dado a saber, existe algo de extraordinário e positivo que se encontra oculto e inacessível. A segunda característica é a da majestas, a superioridade do poder, que provoca o apagamento do homem e o leva a considerar o objeto numinoso enquanto correlativo do ser perante um sentimento de dependência absoluta que transforma a plenitude de “poder” em plenitude de “ser” - a totalidade do bem, do que é exemplar. Ainda no que respeita ao que provoca tremor, tanto o tremendum como a majestas implicam um outro elemento que podemos chamar o da energia do numinoso, aquilo que expressa um conjunto de símbolos, como os de vida, paixão ou vontade, capazes de colocar a alma em atividade. Por fim o misterium supõe a ideia de algo que é “totalmente outro”, aquilo que nos é estranho e nos enche do espanto que nos paralisa. (Otto, 1917/1992)

Esta paralisação não é apenas um espanto, mas supõe também uma ideia de maravilhoso, relevando uma outra categoria numinosa, a do fascinante, aquilo que seduz e cresce de intensidade até ao delírio provocado pela realidade mais elevada, mais poderosa, mais bela e mais querida que um homem pode conceber. O numinoso é, então, algo de enorme, que tem uma dimensão de bom e de belo que ultrapassa a nossa compreensão, provoca ele mesmo o sentimento de sublime.

Quando referimos que o Sagrado tem elementos racionais e irracionais, não se entende esta dicotomia por uma diferença entre inteligentes e estúpidos, mas por uma distinção entre aquilo que é claramente captado pelo nosso entendimento e aquilo que profundamente nos escapa. Nesta realidade dual, os meios de expressão do sagrado necessitam de uma categoria a priori para serem reconhecidos. As palavras racionais que expressam racionalmente o sagrado só revelam o numinoso se tiverem uma afinidade com aquele que as recebe. É neste sentido que o numinoso casa com o sublime, com a expressão artística que alcança a totalidade através do reconhecimento de um sentimento na sua forma, um sentimento que representa a totalidade daquilo que se sente como ideal e não alcançável pelo homem comum.

O objeto mais numinoso que se pode conceber é o da maravilha em sentido absoluto, o de uma aura que dá cor aos que o anunciam, que com ele se relacionam, que o preparam e que pregam a sua palavra à comunidade que o espera (Otto, 1917/1992). Nada se assemelha mais a esta passagem do que a ação de um político em pleno comício eleitoral, anunciando um futuro que está para vir e que suplantará o atual estado das coisas e que revela o numinoso da ação política. E é nesta óptica que, tal como os cristãos no novo testamento apelidavam de “santos” os que pertenciam ao “Reino dos Céus” (Otto, 1917/1992), a designação dos que pertencem a uma comunidade política por um determinado termo, tal como camarada ou companheiro, marcam a diferença entre aqueles que fazem parte do futuro prometido e aqueles que se encontram excluídos, uma clara diferença entre o que é sagrado e o que é profano.

O numinoso atrai as concepções que formam a vontade social dos homens, tornando-se numa forma de guardião e fundador. Assim, o sagrado transforma-se no “bom” e o “bem” forma o sagrado (Otto, 1917/1992). É neste sentido que a vontade comum dos homens enquanto soberanos de si mesmos, transforma o bem que se quer alcançar pela ação política em algo de sagrado, algo que adquire uma concepção total, a de bom, que se diferencia de todas as outras por ser a ideal.

Os líderes aparecem, então, como “deuses instrumentais” da materialização desta vontade, capazes de a tornar presente pelas palavras, revelando o numinoso na finalidade política, transformando o bem desejado em finalidade total, no conceito de bom. Esta transformação provém do efeito de constatação do indivíduo do que é dito pelo líder, não por crer nas palavras, mas por crer em si próprio, naquilo que lhe aparece como a verdade que agora vê. A passagem da República de Platão em que Sócrates descreve a bondade de Deus a Adimanto, ao que este responde: “Agora que tu o dizes, também isso se

tornou evidente para mim”, demonstra este efeito de transformação da vontade em totalidade sagrada através das palavras (Otto, 1917/1992).

Um determinado objeto torna-se numinoso quando a sua numinosidade é constatada. Esta constatação supõe um conjunto de condições à priori do indivíduo que lhe permitem reconhecer a sua vontade enquanto categoria de verdade. No entanto, esta receptividade para a constatação não se basta a ela mesma, apenas ganha força pela voz do profeta, aquele que tem a capacidade mágica de tornar presente a vontade interior pelo meio das palavras.

4.2 – MAGIA E POLÍTICA

Os políticos detêm um poder mágico, que revela na ação política características semelhantes à prática religiosa. Este poder mágico da política pode ser considerado como secularização de uma forma primitiva de representar o mundo, no entanto há que esclarecer, desde logo, que o político e o religioso são funções humanas distintas, apesar da função política ser de alguma forma sacralizada. Esta é uma atividade profana, que em determinados momentos tende para a sacralização, revelando que os argumentos racionais adquirem um estatuto de afetividade em determinados momentos.

Se por um lado a história europeia demonstra que o carácter sagrado da legitimidade política cai com a influência da obra de Maquiavel, que separa a política do elemento mágico, após a Revolução Francesa e o aparecimento da Sociedade de Massas, dá-se uma ascensão de um fenómeno afetivo- religioso na política e o reaparecimento dos mitos como formas de sentido (Monnerot, 1949/1978). Há toda uma corrente de análise que aborda esta questão. Tomemos por exemplo o sociólogo francês Monnerot (1949/1978), que afirma que a política moderna deu origem a religiões seculares. No entanto, por responderem a necessidades humanas diferentes, já que há uma clara distinção entre o papel da religião e o da política, será demasiado radical afirmar que as crenças religiosas foram transferidas para outros objetos. Existe, no entanto, um fenómeno de crença afetiva, de tipologia sagrada, na relação entre os homens e a política, que se assemelha à mitologia do homem primitivo e que revela um poder mágico noutras entidades que não as de carácter religioso. O mito da missão do proletariado ou do homem ariano são exemplos extremos deste facto que a história nos demonstra. Assim, os cultos, as devoções e os mitos surgem na esfera política, concebendo-lhe aspectos de carácter religioso na sua essência profana, tendo a sua manifestação da alma coletiva que forma a multidão, uma alma que revela a mística do grupo, do todo, libertando os desejos do mundo racionalizado pelo interesse.

In document 2012 Gjøvikregionen Kommunebilde (sider 130-134)