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3.5 Sosiale tjenester
Para ganhar a adesão das massas foi necessário criar um enorme aparelho de associações, estabelecer uma associação eleitoral em cada bairro e manter a empresa em movimento e fortemente burocratizada, resultando no aparecimento de um número cada vez maior de empregados pagos pelos comités locais. A automatização do aparelho leva à dependência económica, porque os comités eleitorais tornam-se independentes dos seus membros e ganham autonomia, levando a que a “politiquice” se torne na norma e que a competência política fique refém do aparelho. Todas as associações políticas de extensão considerável passam a constituir-se como uma empresa de interessados, ou se quisermos um exército empresa, que recrutam grupos partidários e apresentam candidatos às eleições, reunindo os meios económicos necessários e tratando de captar votos.
O alargamento do aparelho e a necessidade de organização trataram de fazer florescer duas formas distintas de estar na política e que traçam a distinção entre dirigentes e funcionários: de um lado os que vivem para a política e de outro os que vivem da política (Weber, 1919/1973). Quem vive para a política, faz dela a sua vida e desfruta da posse do poder que exerce, seguindo um sentido de serviço à causa que representa. Por outro lado, quem vive da política faz dela a sua fonte de rendimento. A diferença entre as duas situa-se num nível meramente económico: o de alguém que trata de fazer dela profissão, fonte de receita, contrapondo a quem não se acha neste caso. O resultado desta distinção, a longo prazo, distingue aqueles que executam as suas ações no limite da sua dependência, e outros que desfrutam da liberdade que lhes permite agir sem estar comprometido com uma dependência económica. Uns agem meramente livremente, outros são limitados pela sua necessidade.
O sociólogo alemão Max Weber (1919/1973) refere que a “empresa política”, ou o partido, surge da necessidade burocrática da organização, onde dirigentes que “vivem para a política” recrutam funcionários sobre o pressuposto de que a “empresa política” irá proporcionar a essas pessoas receitas regulares e seguras. No entanto, esta ideia de ser remunerado pelo serviço público, a ideia tangível da recompensa, dá origem a um “jogo”, ou luta, pelos cargos políticos, passando a política a ser, para além da conquista de metas objetivas, a luta pelo controlo dos cargos, que se distribuem entre aqueles
que demonstram lealdade aos líderes. Os militantes do partido esperam que com a vitória do chefe, este ganhe poder, aumentando as possibilidades dos seus partidários conseguirem a respectiva retribuição, fazendo com que a toda a luta entre partidos passe a visar o objetivo da distribuição de cargos, que vêm o seu número incrementado devido à burocratização e começam a atrair pessoas que estão na política com um meio de alcançar um fim a obtenção de um cargo. Aquilo que era o interesse na capacidade política, acaba refém de um interesse na “politiquice” e no ganho que cada um tira individualmente e onde o meio substitui o fim.
Assim, a transformação burocrática dos aparelhos partidários determinou a divisão destes em duas classes distintas: os funcionários profissionais e os funcionários políticos. Os primeiros sendo os funcionários especializados e os segundos os funcionários eleitos, representantes do poder político, que analisam as propostas e lhes dão a orientação de natureza política. Um pouco à semelhança de uma empresa privada, em que os acionistas elegem o conselho de administração, que orienta os funcionários especializados da organização. (Weber, 1919/1973)
Ambas as classes dirigentes são figuras que desempenham uma atividade necessária em toda a organização, incluindo as democráticas, no sentido em que o fenómeno da liderança assenta na necessidade de afirmação dos dirigentes e da sua indispensabilidade técnica. Este processo tem início na diferenciação das tarefas e vai-se completando pelo afastamento que os dirigentes adquirem em relação às massas, ao mesmo tempo que a falta de outras fontes de rendimento, por parte dos líderes políticos, tornam-nos dependentes dos seus lugares também por razões de ordem económica, o que origina situações em que o dirigente acaba por ficar amarrado ao partido mesmo tendo perdido a fé na ideologia que este defende. O resultado destes fenómenos é a origem de uma classe dirigente estável e inamovível, a partir das instituições de formação destinadas a funcionários dos partidos, que tiveram o efeito de criar uma elite partidária, mesmo nos partidos operários140, aumentando o poder das chefias
sobre as massas partidariamente organizadas. A especialização técnica, ou seja “os quadros partidários”, retira os atributos decisivos às massas, passando-os para os seus dirigentes e os órgãos executivos da sua vontade tornam-se autónomos, emancipando-se se tiverem peso eleitoral (Michels, 1915/2001). A existência de quadros políticos supõe que os seus elementos possuem a formação necessária para desempenhar o seu papel no partido e que a massa não possui. Em simultâneo, esses quadros políticos necessitam de ter mais valia política para terem e apresentarem ideias.
140 Devemos ter em consideração que Michels escolhe o Partido Social Democrata Alemão, um partido de massas. O
argumento apresentado pelo autor pode não se aplicar a um partido de quadros, onde se supõe que os seus membros já detenham algum nível de especialização.
“O dirigente que durante algum tempo é regularmente eleito delegado acaba por reivindicar a delegação como se ela fosse propriedade sua. Se lhe recusam a renovação do mandato não tarda que ameace com represálias, de entre as quais a de apresentar a demissão ainda será a menos gravosa, lançando assim os seus camaradas de partido em grande perplexidade. Essa perplexidade termina quase sempre na vitória do dirigente que tinha sido posto em causa.” (Michels, 1915/2001, p. 75)
O dirigente torna-se então o homem imprescindível e é nesse sentido que o ato de demissão, por parte deste, é um gesto democrático que esconde um carácter autoritário. Ao trazer para jogo a ideia de que se é imprescindível, o demissionário exerce pressão à qual os dirigidos têm de se submeter, já que a consciência do seu próprio valor e a compreensão de que as massas necessitam de uma liderança, produzem no militante o desenvolvimento de uma vocação para o exercício do poder (Michels, 1915/2001).
O surgimento de uma classe dirigente dentro dos partidos políticos obriga a que estes tenham a necessidade de se aproximar da vontade das massas, que são a origem do seu poder. Para este efeito, a forma usada mais vulgar é a da demagogia, através da qual lisonjeiam a vontade popular, não as elevando, mas baixando-se o mais possível até junto delas para que ganharem a confiança de exercer o poder em seu nome. Aqui podemos distinguir duas classes de dirigentes: o dirigente dotado de verdadeira vontade, de máxima convicção, desafia tempestades porque sabe que o seu poder pode ser atacado, mas não destruído; e o dirigente fraco, que simula até a tempestade passar e então se voltar a erguer, participando numa submissão temporária (Michels, 1915/2001).
Estas duas classes de dirigente colocam uma fronteira do ponto de vista ético, sendo o dirigente beneficiário ou missionário, onde o primeiro é aquele que depende da política, que vive desta, e o segundo aquele que dela não depende e detêm por isso um maior prestígio, fruto da sua convicção. Uma divisão que se agrava na passagem de oposição para participação no poder instituído, passando de uma nível de convicção ética mais elevado, fruto de um afastamento de situações que proporcionam o egoísmo e ambições estreitas, para uma posição de maior ética da responsabilidade sobre a consequência dos seus atos (Michels, 1915/2001).
Esta separação entre a responsabilidade e a convicção está na base das qualidades que Weber (1919/1973) define para o dirigente político, sendo estas a paixão, o sentido de responsabilidade e
Augenmass141. A paixão refere-se no seu sentido positivo de entrega a uma causa, não no de uma paixão nociva, mas de uma devoção àquilo que defende; a responsabilidade funciona como uma guia de ação sobre os efeitos das suas decisões; e Augenmass como capacidade de distanciamento e frieza intelectual, que adquire o papel de equilíbrio, que torna possível o político energético, com uma paixão autêntica, diferenciada do agitamento estéril. Existem, então, dois pecados mortais da política: a ausência de finalidade e a falta de responsabilidade, sendo esta última afetada pela perigosa vaidade de aparecer em primeiro lugar sempre que possível. Assim, a política implica sempre algum tipo de fé, pois quando esta falta, até os êxitos aparentemente mais sólidos trazem consigo a inutilidade. E é nesta fé que a ação política se orienta entre dois polos éticos opostos: ética de convicção e ética de responsabilidade (Weber, 1919/1973). O primeiro vê a ação como uma questão de princípio, não se vendo como responsável pelas consequências negativas das suas ações, responsabilizando “o mundo”, “os outros”. No segundo, a ética de responsabilidade age tendo em conta os defeitos do homem médio. Não havendo uma política unicamente de responsabilidade ou de convicção, devemos entender estes polos como campos extremados que limitam uma zona de meio-termo onde a Política decorre. Assim, partindo da noção de Weber (1919/1973), alguém que atuasse por mera convicção seria equiparado a um profeta quiliástico, que pregava o “amor frente à força”, invocando a força como um ato contínuo que acabaria na aniquilação de toda a violência. É neste sentido que a singularidade dos problemas éticos da política é determinada pela violência legítima, o seu meio específico, das associações humanas, e o uso de poder necessita do aparelho partidário, composto por homens, equilibrando a medida entre a responsabilidade e a convicção, entre o interesse e a paixão, criando uma situação em que o chefe depende dos motivos dos seus seguidores e não dos seus. O líder encontra na medida a qualidade fundamental para o seu sucesso, já que é esta que gere a difícil tensão entra a convicção e a responsabilidade:
“Todo e aquele que se tenta realizar através da ação política, que serve de meios violentos e age em função da ética da responsabilidade, põe em perigo a “salvação da alma”. Quando se tenta alcançar uma finalidade desse género num combate ideológico e com pura ética da convicção, essa finalidade poderá ficar prejudicada e desacreditada durante muitas gerações porque na sua persecução se não teve em mente a responsabilidade perante as consequências.” (Weber, 1919/1973, p. 135)
Neste sentido, quem faz política deve ter em atenção os paradoxos éticos que lhe são inerentes. A política não se faz apenas com a cabeça, mas também com o coração, sendo neste sentido que o campo da responsabilidade adquire o papel de interesse que controla a paixão da convicção política, evitando as consequências nocivas que poderiam resultar de uma convicção no seu estado puro.
Os dirigentes políticos lideram o combate legítimo da representação da vontade das massas, através das instituições político-partidárias, que aspiram a ter uma participação direta no centro. Estas são instituições democráticas e representativas, com todas as limitações que estes conceitos implicam, regidas pela tensão entre a força das suas convicções e a responsabilidade sobre a consequência dos seus atos, sendo esta, numa sociedade democrática, normalmente, influenciada pela proximidade para com o centro: maior proximidade implica uma maior responsabilidade e um carácter mais reformador, enquanto um maior afastamento implica uma maior convicção ideológica e um sentido revolucionário mais acentuado.